IPCA-15 de janeiro projeta alta de 0,25% com pressão de alimentos e alerta nos núcleos de inflação
Prévia da inflação oficial deve confirmar aceleração no acumulado de 12 meses para 4,56%, impulsionada por reajustes sazonais na alimentação, enquanto o mercado monitora a persistência de preços em serviços e bens industrializados.
A agenda econômica desta semana tem como protagonista a divulgação do IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15) referente ao mês de janeiro. O indicador, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é aguardado com expectativa pelos agentes financeiros e pelo Banco Central, pois serve como a principal bússola para antecipar a tendência da inflação oficial no país. Segundo as projeções mais recentes da consultoria ASA, a taxa mensal do IPCA-15 deve registrar uma variação positiva de 0,25%, repetindo o ritmo de estabilidade observado no fechamento de dezembro, mas escondendo mudanças tectônicas na composição dos preços relativos.
Embora o número de 0,25% possa parecer comportado à primeira vista, a leitura detalhada do IPCA-15 revela um cenário complexo. No acumulado de 12 meses, a prévia da inflação deve saltar para 4,56%. Esse avanço não é trivial e reflete, em grande parte, uma base de comparação estatística desfavorável em relação ao início de 2025. Naquele período, o índice foi artificialmente contido por fatores exógenos, como o bônus de Itaipu que barateou a conta de luz, jogando a inflação para perto de zero. Agora, sem esse amortecedor, o IPCA-15 volta a mostrar a face real do custo de vida brasileiro.
A Anatomia do IPCA-15 e o Peso dos Alimentos
Historicamente, o IPCA-15 de janeiro carrega o fardo da sazonalidade. O início do ano é marcado por uma pressão tradicional sobre o grupo de alimentação no domicílio. Fatores climáticos, comuns ao verão, afetam a colheita de produtos in natura, como hortaliças, legumes e frutas, resultando em choques de oferta que são imediatamente captados pela coleta de preços do IBGE.
A estimativa do mercado aponta que este será o principal vetor de alta do IPCA-15 neste mês. Diferente do final do ano passado, onde houve uma dispersão maior dos aumentos, janeiro concentra reajustes em itens básicos da mesa do brasileiro. A carne bovina, o arroz e o feijão, além dos perecíveis, tendem a puxar a média do índice para cima. Para o analista que observa o IPCA-15, é crucial distinguir o que é choque temporário de oferta do que é inflação disseminada.
No entanto, a preocupação dos economistas com o IPCA-15 de janeiro não se resume apenas ao clima. Há um repasse de custos na cadeia de proteínas animais e uma resiliência nos preços dos alimentos processados. Quando o IPCA-15 aponta alta em alimentação, o efeito é perverso sobre a percepção de inflação das famílias de baixa renda, o que pode gerar pressões salariais futuras e alimentar o ciclo inflacionário inercial.
O Alívio Pontual das Passagens Aéreas
Se por um lado a comida pesa mais, por outro, o grupo de Transportes deve atuar como a principal âncora do IPCA-15 neste início de ano. A projeção é de uma desaceleração significativa no setor de serviços, liderada especificamente pela deflação nas passagens aéreas. Após os picos de preços observados nas festas de fim de ano, é natural que haja uma correção nos valores dos bilhetes, o que ajuda a “limpar” a taxa cheia do IPCA-15.
Contudo, analistas do ASA e de outras casas de investimento alertam para a volatilidade desse item. A queda nas passagens aéreas dentro do IPCA-15 é frequentemente sazonal e não reflete, necessariamente, uma tendência de longo prazo de desinflação no setor de serviços. Pelo contrário, ao expurgar o item volátil “passagens”, o restante do setor de serviços continua mostrando aquecimento, impulsionado por um mercado de trabalho que segue robusto e gerando renda.
Portanto, o alívio que o IPCA-15 de janeiro pode mostrar no grupo Transportes deve ser lido com cautela (ou “com uma pitada de sal”, como dizem os anglófonos). Ele mascara, em certa medida, a pressão subjacente que ainda existe na economia. O Banco Central, em suas atas do Copom, costuma olhar através dessa volatilidade, focando mais na média dos núcleos do que no impacto pontual de um único subitem.
Núcleos do IPCA-15: Onde Mora o Perigo
É aqui que a análise técnica do IPCA-15 ganha profundidade. Mais importante do que o número cheio de 0,25% é o comportamento dos chamados “núcleos de inflação. Os núcleos são medidas estatísticas que tentam capturar a tendência real dos preços, excluindo ou suavizando o impacto de itens muito voláteis (como tomate ou gasolina) ou preços administrados pelo governo.
Segundo Leonardo Costa, economista do ASA, a média dos núcleos do IPCA-15 deve acelerar na margem. Isso é um sinal de alerta amarelo. Significa que, descontando os ruídos de curto prazo, a inflação está ganhando tração em segmentos sensíveis, como serviços subjacentes e bens industrializados. Se os núcleos do IPCA-15 aceleram, isso indica que os preços estão sendo remarcados com maior frequência e intensidade em uma gama mais ampla de produtos e serviços.
Essa dispersão, ou difusão, dentro do IPCA-15 é o que tira o sono dos diretores do Banco Central. Uma inflação concentrada em alimentos (choque de oferta) é resolvida com o tempo e a normalização das safras. Já uma inflação espalhada pelos núcleos de serviços e indústria (choque de demanda ou inércia) exige juros altos por mais tempo. Por isso, a leitura qualitativa do IPCA-15 desta terça-feira será determinante para calibrar as apostas no mercado de juros futuros (DI).
O Efeito Base e a Comparação com 2025
Para entender o salto do IPCA-15 no acumulado de 12 meses para 4,56%, é fundamental revisitar o início de 2025. Naquele momento, o Brasil vivia uma situação atípica na conta de luz, com o repasse do bônus de Itaipu aliviando o bolso dos consumidores e derrubando os índices de preço. O IPCA-15 de janeiro de 2025 foi excepcionalmente baixo.
Agora, em 2026, esse número baixo sai da base de cálculo de 12 meses e entra o número atual (0,25% ou mais). É uma questão aritmética: troca-se um índice próximo de zero por um índice positivo, fazendo a curva anual do IPCA-15 inclinar-se para cima. Embora seja um efeito estatístico conhecido, ele coloca a inflação acumulada em um patamar desconfortável, flertando com o teto da meta ou com níveis que exigem uma política monetária restritiva.
O mercado financeiro já precificou parte desse movimento, mas a confirmação via divulgação oficial do IPCA-15 sempre traz ajustes nas carteiras de títulos atrelados à inflação (NTN-Bs). Investidores buscam proteção contra a perda do poder de compra, e o IPCA-15 é a métrica principal para esses ajustes de curto prazo.
Política Monetária e o Papel do IPCA-15
A divulgação do IPCA-15 ocorre em um timing sensível para a política monetária brasileira. O Banco Central monitora a convergência da inflação para a meta e utiliza o IPCA-15 como um termômetro de calibração para a Selic. Se a prévia da inflação mostrar uma desancoragem dos núcleos ou uma contaminação dos preços de serviços pelos preços de alimentos (efeitos de segunda ordem), o discurso da autoridade monetária tende a endurecer.
Não se discute corte de juros sem antes observar uma melhora consistente na composição do IPCA-15. O mercado busca, no relatório do IBGE, sinais de que a desinflação de serviços é estrutural. Se o IPCA-15 mostrar o contrário — serviços acelerando e bens industriais pressionados —, a tese de juros altos por mais tempo ganha força, impactando o custo do crédito, o financiamento imobiliário e os investimentos empresariais.
O IPCA-15, portanto, não é apenas um dado estatístico; ele é um determinante de custos financeiros para toda a economia real. A taxa de 0,25% esperada para janeiro carrega consigo as expectativas de milhões de agentes econômicos sobre o futuro do poder de compra da moeda.
Metodologia: O Que Diferencia o IPCA-15?
Para o leitor da Gazeta Mercantil, vale a pena um parêntese técnico sobre a natureza do IPCA-15. A metodologia é idêntica à do IPCA cheio: abrange famílias com rendimento de 1 a 40 salários mínimos nas principais regiões metropolitanas do país. A diferença crucial reside no período de coleta. Enquanto o IPCA fecha o mês calendário, o IPCA-15 coleta preços entre o dia 16 do mês anterior e o dia 15 do mês de referência.
Essa característica faz do IPCA-15 um “spoiler” qualificado. Ele antecipa tendências que só seriam confirmadas semanas depois. No caso de janeiro, o IPCA-15 captura com precisão o movimento de preços do final de dezembro (festas) e a primeira quinzena do ano (reajustes de mensalidades, impostos e alimentos). Por isso, sua volatilidade pode ser maior, mas sua direção raramente engana. Se o IPCA-15 vier acima do teto das estimativas (acima de 0,30%, por exemplo), o estresse no mercado financeiro será imediato.
A Visão dos Analistas de Mercado
A projeção do ASA, que situa o IPCA-15 em 0,25%, está alinhada com o consenso de mercado, mas há divergências nas casas de análise sobre a intensidade da pressão em alimentos. Algumas instituições temem que o El Niño tenha causado danos mais severos à oferta de hortifrutis, o que poderia levar o IPCA-15 a surpreender negativamente.
Outro ponto de atenção nos relatórios distribuídos a clientes institucionais é a pressão nos bens industrializados. Durante boa parte do ano passado, a deflação no atacado (IGPs) ajudou a segurar os preços de bens de consumo duráveis e semiduráveis no varejo. Agora, o IPCA-15 pode começar a mostrar o fim desse ciclo benigno, com a indústria repassando aumentos de custos logísticos e de insumos. Se isso se confirmar, o IPCA-15 terá mais uma frente de pressão além dos alimentos e serviços.
A fala do economista Leonardo Costa reforça que o “comportamento subjacente” é a chave. Um IPCA-15 baixo mascarado por passagens aéreas baratas não é motivo de comemoração. O investidor sofisticado olha para a média dos cinco principais núcleos de inflação que o Banco Central acompanha. Se essa média no IPCA-15 estiver rodando acima de 0,35% ou 0,40% ao mês, anualizada, ela aponta para uma inflação incompatível com a meta.
Expectativas para o Restante do Trimestre
O IPCA-15 de janeiro dita o tom para o primeiro trimestre. Sazonalmente, fevereiro e março continuam sendo meses desafiadores para a inflação, especialmente devido ao retorno às aulas (reajuste de Educação, que pesa muito em fevereiro) e à continuidade das chuvas de verão. O mercado projeta que o IPCA-15 deve manter-se pressionado até abril, quando a entrada da safra de grãos e a normalização do clima podem trazer algum alívio.
Até lá, cada divulgação do IPCA-15 será um evento de volatilidade para a Bolsa e para o Câmbio. O Banco Central, em seu regime de metas, não reage a um único dado, mas a uma sequência deles. No entanto, o IPCA-15 de janeiro de 2026 é simbólico porque marca o início de um ano onde as expectativas de inflação precisam ser reancoradas.
Se o IPCA-15 frustrar as expectativas e vier muito alto, a curva de juros futuros empinará, encarecendo o dinheiro hoje. Se vier abaixo, trará alívio, mas a dúvida sobre a sustentabilidade (serviços vs. passagens) permanecerá. O cenário base é de cautela. O número de 4,56% no acumulado de 12 meses do IPCA-15 é um lembrete de que a batalha contra a inflação no Brasil é longa, árdua e cheia de armadilhas estatísticas e sazonais.
O Que Monitorar
Em resumo, a divulgação desta terça-feira pelo IBGE é o destaque da semana. O número mágico é 0,25%, mas os detalhes qualitativos importam mais. O investidor deve monitorar: 1) A magnitude da alta de alimentos no IPCA-15; 2) O tamanho do recuo das passagens aéreas; e 3) A aceleração dos núcleos de serviços e industriais.
O IPCA-15 não é apenas um número frio; é o reflexo do poder de compra das famílias e o principal input para as decisões de investimento e de política econômica. Em um ambiente de incertezas globais e fiscais domésticas, o comportamento do IPCA-15 serve como a âncora de realidade que o mercado precisa para traçar seus cenários para 2026. A cautela, como sugerido pelos analistas, é a melhor conselheira diante de um indicador que promete trazer surpresas na sua composição interna.






