Maioria do mercado avalia que corte da Selic hoje seria decisão justificável diante da melhora no cenário inflacionário
A quarta-feira de decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) inicia-se sob uma atmosfera de expectativa recalibrada no mercado financeiro brasileiro. Uma sondagem robusta realizada pelo BTG Pactual com 66 participantes de peso do setor — incluindo gestores de carteiras, traders, economistas e estrategistas de grandes instituições financeiras — revela uma mudança significativa no humor dos agentes econômicos. A percepção majoritária é de que um corte da Selic na reunião de hoje não seria apenas uma medida audaciosa, mas uma decisão tecnicamente justificável, dada a evolução benigna dos indicadores de inflação e a melhora no ambiente externo.
A pesquisa, conduzida entre os dias 26 e 27 de janeiro, captura o pulso do mercado na véspera do anúncio oficial. O debate central gira em torno do timing e da magnitude do ciclo de afrouxamento monetário. Embora a cautela ainda seja a tônica do Banco Central (BC), a pressão técnica e os fundamentos macroeconômicos sugerem que o espaço para o corte da Selic está se abrindo de forma mais consistente do que o previsto no final do ano passado. A discussão, portanto, deixa de ser “se” haverá queda e passa a ser “quando” e “em que ritmo” a autoridade monetária ajustará a taxa básica de juros.
A Anatomia da Decisão: Justificativa vs. Risco
A análise detalhada dos dados da pesquisa mostra um mercado dividido, porém inclinado à flexibilização. A maioria expressiva dos respondentes avalia que o cenário atual de desinflação doméstica, somado a um comportamento mais favorável dos preços internacionais e do câmbio, oferece o suporte necessário para um corte da Selic imediato. Para este grupo, a manutenção dos juros em patamares excessivamente contracionistas por tempo prolongado poderia impor um custo desnecessário à atividade econômica, sem ganhos adicionais relevantes para a convergência da inflação à meta.
No entanto, o consenso não é absoluto. Na outra ponta do espectro, existe uma ala conservadora que prega a manutenção da cautela. Segundo o levantamento, 21,2% dos participantes veem a decisão de iniciar o corte da Selic já em janeiro como “questionável”. O argumento central desse grupo é que tal movimento poderia comprometer o processo de convergência final da inflação, desancorando as expectativas justamente no momento em que elas começam a se alinhar.
Ainda mais céticos, 7,6% dos entrevistados consideram que antecipar o corte da Selic seria um “erro de política monetária”. Para estes analistas, a persistência dos riscos inflacionários — especialmente aqueles ligados a serviços e aos preços administrados — exige que o BC mantenha a guarda alta. A visão é de que a credibilidade da autoridade monetária poderia ser arranhada caso um corte precoce precisasse ser revertido ou interrompido no futuro próximo. Há ainda uma fatia residual de 3% que considera a decisão neutra, indicando que, para eles, tanto a manutenção quanto o corte teriam efeitos similares no curto prazo.
O Tom do Comunicado e a Sinalização Futura
Para além da decisão sobre a taxa em si, o mercado financeiro aguarda com lupa o comunicado que acompanhará a decisão do Copom. A comunicação do Banco Central é uma ferramenta tão poderosa quanto a própria taxa de juros. Na avaliação dos respondentes da pesquisa do BTG, o tom do texto tende a ser predominantemente neutro. Contudo, uma parcela menor, mas relevante, já enxerga espaço para um viés dovish (menos duro, propenso ao corte da Selic).
A expectativa majoritária é de um ajuste marginal, mas simbólico, na frase em que o BC avalia a estratégia de manutenção. A aposta é que o Copom sinalize que manter a Selic em patamar contracionista continua sendo adequado, mas com nuances que preparem o terreno para o afrouxamento. Metade dos participantes projeta a remoção total do trecho que diz que a autoridade monetária “não hesitará em retomar o ciclo de ajuste”. A exclusão dessa frase seria interpretada como um sinal claro de que o ciclo de alta está definitivamente encerrado e que a porta para o corte da Selic está, se não aberta, ao menos destrancada.
Essa mudança na comunicação é vital para alinhar as expectativas da curva de juros futura. Se o BC retirar a ameaça de novas altas, o mercado pode precificar com mais convicção o início do ciclo de baixa, ajustando os prêmios de risco ao longo de toda a estrutura a termo da taxa de juros.
Horizontes Relevantes e Metas de Inflação
Um ponto técnico crucial para a fundamentação de qualquer corte da Selic são as projeções de inflação no horizonte relevante da política monetária. Atualmente, o foco do BC recai sobre o terceiro trimestre de 2027. Segundo a pesquisa, 65% dos participantes esperam que a projeção de inflação da autoridade monetária para este período permaneça ancorada em 3,2%.
Entretanto, um dado chama a atenção: 31% dos analistas projetam um patamar de 3,1% ou menos. Se o modelo do BC convergir para essa visão mais otimista, o argumento para adiar o corte da Selic perde força. Uma projeção de inflação convergindo para o centro da meta (3,0%) no horizonte relevante é a condição sine qua non para que o Copom inicie a flexibilização monetária com segurança. Portanto, as tabelas de projeção contidas no comunicado serão tão dissecadas quanto o parágrafo da decisão.
O Caminho para Março e o Fim de 2026
Se janeiro ainda divide opiniões quanto à prudência, março parece ser o consenso para a aceleração do movimento. Para a reunião de março, 68% dos respondentes projetam um corte da Selic de 50 pontos-base. Essa aposta reflete a convicção de que, até lá, os dados de inflação corrente e as expectativas futuras estarão ainda mais benignos, permitindo ao BC atuar com maior agressividade.
Olhando para o final do ano de 2026, as projeções, embora distribuídas, convergem para um intervalo específico. Cerca de 71% das respostas situam a taxa terminal entre 12% e 12,5%. Isso significa que, mesmo com o início do ciclo de corte da Selic, a política monetária permaneceria em território contracionista (acima da taxa neutra de juros) ao longo de todo o ano.
Essa manutenção de um juro real elevado é vista como necessária para garantir a ancoragem final das expectativas e evitar que o aquecimento da demanda, fruto do próprio afrouxamento, reative pressões inflacionárias. O “pouso suave” da economia brasileira depende desse equilíbrio fino entre reduzir o aperto nominal via corte da Selic e manter o juro real em patamar capaz de controlar a demanda agregada.
O Cenário Econômico: Ventos Externos e Dinâmica Interna
A viabilidade do corte da Selic não depende apenas da vontade do BC, mas do contexto macroeconômico global e local. A pesquisa do BTG revela um otimismo moderado. Externamente, 53% dos participantes avaliam que o contexto melhorou moderadamente para o processo de desinflação no Brasil. A estabilização dos juros nos Estados Unidos e a menor pressão sobre as commodities agrícolas e energéticas criam um ambiente favorável para emergentes.
Internamente, a percepção sobre a dinâmica da inflação também é positiva. Para 47% dos entrevistados, houve uma melhora moderada desde a última reunião do Copom. Os núcleos de inflação, que expurgam os itens mais voláteis, têm mostrado comportamento comportado, e a inflação de serviços, grande vilã recente, dá sinais de arrefecimento.
No front da atividade econômica, 50% observam que não houve mudança relevante na evolução dos indicadores. A economia brasileira demonstra resiliência, mas sem sinais de superaquecimento que poderiam inviabilizar o corte da Selic. Esse cenário de “atividade morna com inflação cadente” é o ideal para o início de um ciclo de corte de juros.
Expectativas de Inflação (IPCA) e Balanço de Riscos
A credibilidade do corte da Selic passa pela ancoragem das expectativas do IPCA. A distribuição das projeções na pesquisa reforça a leitura do Boletim Focus. A maioria (61%) projeta o IPCA de 2026 entre 3,5% e 4,0%. Outros 29% veem a inflação entre 4,0% e 4,5%, enquanto 11% acreditam em um índice abaixo de 3,5%.
O balanço de riscos para essa projeção é avaliado como neutro por 47% dos analistas. Mais interessante ainda é que 36% enxergam assimetria para baixo, ou seja, acreditam que a inflação pode surpreender positivamente, ficando menor do que o previsto. Se essa assimetria se confirmar nos dados, o BC terá ainda mais espaço para aprofundar o corte da Selic ao longo do ano.
O Papel do Câmbio na Equação dos Juros
Por fim, a variável cambial desempenha um papel fundamental na decisão sobre o corte da Selic. Um real valorizado ajuda no controle da inflação via preços de importados e commodities. Segundo a sondagem, 53% dos respondentes projetam o dólar entre R$ 5,30 e R$ 5,40 nos próximos 3 a 6 meses. Uma parcela considerável de 41% é ainda mais otimista, enxergando apreciação para patamar abaixo de R$ 5,25.
O comportamento recente da moeda americana corrobora essa visão. Na sessão desta quarta-feira (28), a divisa operou com volatilidade, mas mantendo-se em níveis historicamente mais baixos do que os picos recentes, após bater o menor valor de encerramento desde maio de 2024. A estabilidade cambial é um “lubrificante” para a engrenagem do corte da Selic, pois reduz o risco de pass-through (repasse) cambial para os preços ao consumidor.
A Prudência e a Oportunidade
O cenário desenhado pela pesquisa do BTG com os principais agentes do mercado financeiro é claro: as condições técnicas para o corte da Selic estão dadas. A maioria vê a redução como justificável, apoiada por uma desinflação consistente e um cenário externo menos hostil.
O Banco Central, contudo, opera sob a lógica da prudência e da reputação. A decisão de hoje, seja ela pela manutenção ou pelo corte, será acompanhada de uma comunicação estratégica visando balizar as expectativas para 2026 e 2027. Se o Copom optar por iniciar o corte da Selic agora, estará validando a visão majoritária do mercado. Se optar pela manutenção, deverá sinalizar inequivocamente que o afrouxamento é iminente, provavelmente para março.
Independentemente do desfecho imediato, o ciclo de aperto monetário ficou para trás. O Brasil entra em 2026 discutindo o ritmo da normalização. O corte da Selic deixou de ser uma esperança distante para se tornar a variável central dos modelos econômicos, prometendo aliviar o custo de capital para empresas e famílias e destravar investimentos que aguardam juros mais civilizados para sair do papel. A ata e o comunicado de hoje serão os mapas para navegar esse novo ciclo.






