Fluxo cambial registra saldo positivo de US$ 906 milhões em janeiro: Análise do retorno de capitais e dinâmica do comércio exterior
O cenário econômico brasileiro iniciou o ano de 2026 apresentando sinais de recuperação na liquidez de divisas estrangeiras. Dados preliminares divulgados nesta quarta-feira (28) pelo Banco Central (BC) revelam que o Brasil registrou um fluxo cambial positivo de US$ 906 milhões no acumulado de janeiro até o dia 23. Este resultado marca uma reversão de tendência importante quando comparado ao encerramento do ano anterior, período em que sazonalmente ocorre uma saída robusta de recursos. A entrada líquida de dólares neste início de ano é sustentada, primordialmente, pelo canal financeiro, que compensou o desempenho deficitário da balança comercial contratada no mercado de câmbio.
A análise do fluxo cambial é um dos termômetros mais vitais para compreender a saúde das contas externas e a pressão sobre a taxa de câmbio. Após um mês de dezembro marcado por uma saída líquida expressiva de US$ 12,191 bilhões — movimento típico de remessas de lucros e dividendos por multinacionais e ajustes de portfólio —, o mercado observa agora o retorno do apetite do investidor estrangeiro e a recomposição de posições em ativos locais.
A Força do Canal Financeiro na Composição do Fluxo
O grande protagonista do resultado positivo do fluxo cambial em janeiro foi, inequivocamente, o segmento financeiro. Este canal, que engloba investimentos estrangeiros diretos (IED), aplicações em carteira (ações e renda fixa), além de remessas de lucros e pagamentos de juros, registrou uma entrada líquida de US$ 3,503 bilhões até a terceira semana do mês.
Para atingir este superávit, o mercado financeiro movimentou volumes consideráveis. As operações de compra de moeda estrangeira (entrada de dólares) somaram US$ 45,984 bilhões, enquanto as operações de venda (saída de dólares) totalizaram US$ 42,481 bilhões. O saldo positivo de mais de US$ 3,5 bilhões evidencia que o diferencial de juros brasileiro (carry trade) e as oportunidades na bolsa de valores continuam atraindo o capital especulativo e produtivo internacional, servindo como um colchão de liquidez para o fluxo cambial total.
Analistas de mercado apontam que a manutenção da taxa Selic em patamares elevados (atualmente em 15% ao ano) continua sendo um fator decisivo para o fluxo cambial financeiro. Em um cenário global onde as principais economias ainda discutem o timing de seus ajustes monetários, o prêmio de risco oferecido pelos ativos brasileiros garante um fluxo constante de divisas, essencial para financiar o déficit em transações correntes e estabilizar a cotação do dólar frente ao real.
O Desempenho Negativo do Comércio Exterior
Em contrapartida ao desempenho robusto da conta financeira, o canal comercial atuou como um detrator do fluxo cambial neste início de 2026. Até o dia 23 de janeiro, o saldo das operações de câmbio vinculadas a exportações e importações ficou negativo em US$ 2,597 bilhões. Este déficit comercial cambial (que difere do saldo da balança comercial física, pois considera o momento da liquidação financeira) é resultado de um volume de importações superior ao de exportações contratadas.
As importações somaram US$ 15,454 bilhões no período, refletindo a necessidade da indústria e do varejo em repor estoques de insumos e produtos acabados no início do ano. Já as exportações totalizaram US$ 12,857 bilhões. A dinâmica do fluxo cambial comercial é sazonal e depende fortemente do ciclo das commodities agrícolas, cujas safras mais volumosas tendem a impulsionar as entradas de dólares a partir do final do primeiro trimestre.
Dentro da estrutura das exportações que compõem este fluxo cambial, o Banco Central detalhou as modalidades de liquidação:
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Adiantamento de Contrato de Câmbio (ACC): US$ 1,513 bilhão. Esta linha é crucial para o financiamento da produção exportadora, antecipando recursos para o exportador antes do embarque da mercadoria.
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Pagamento Antecipado (PA): US$ 2,476 bilhões.
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Outras Entradas: US$ 8,868 bilhões, que englobam as liquidações à vista ou a prazo após o embarque.
A predominância das importações sobre as exportações neste recorte temporal pressiona o fluxo cambial total para baixo, exigindo que o canal financeiro mantenha sua robustez para garantir o saldo positivo geral.
Volatilidade Semanal: O Alerta de Curto Prazo
Apesar do acumulado mensal positivo, a análise granular dos dados mostra que a estabilidade do fluxo cambial não é linear. Na semana compreendida entre os dias 19 e 23 de janeiro, o Brasil registrou um saldo negativo de US$ 638 milhões. Esse movimento de saída líquida na margem acende um sinal de alerta sobre a volatilidade dos fluxos de curto prazo.
Nesta semana específica, o canal financeiro, embora ainda positivo, desacelerou seu ritmo de contribuição, apresentando entradas líquidas de US$ 564 milhões (resultado de compras de US$ 13,545 bilhões e vendas de US$ 12,981 bilhões). Já o comércio exterior aprofundou seu déficit, com um saldo negativo de US$ 1,201 bilhão na semana (importações de US$ 5,399 bilhões contra exportações de US$ 4,198 bilhões).
Essa oscilação semanal no fluxo cambial é comum e pode ser atribuída a operações pontuais de grandes corporações ou ajustes de tesouraria de bancos. No entanto, ela reforça a dependência do Brasil em relação ao capital financeiro volátil para cobrir as necessidades imediatas de divisas quando a balança comercial não entrega superávits cambiais.
Impactos Macroeconômicos do Fluxo Cambial
O comportamento do fluxo cambial tem repercussões diretas sobre as principais variáveis macroeconômicas do país. Um saldo positivo, como o observado no acumulado de janeiro, tende a aumentar a oferta de dólares no mercado à vista (spot), o que teoricamente favorece a valorização do real ou, ao menos, contém pressões depreciativas excessivas.
Entretanto, a composição desse fluxo cambial é tão importante quanto o seu volume total. Um fluxo dependente excessivamente do capital financeiro (hot money) torna a taxa de câmbio mais suscetível a mudanças de humor no cenário internacional ou a alterações na política monetária dos Estados Unidos. Se o Federal Reserve (Fed) sinalizar juros mais altos por mais tempo, o canal financeiro pode reverter rapidamente, transformando o fluxo cambial positivo em negativo e pressionando a inflação doméstica via câmbio.
Além disso, o déficit no canal comercial observado até o dia 23 de janeiro sugere que a demanda por importados segue aquecida ou que os exportadores estão retendo divisas no exterior, aguardando taxas de câmbio mais favoráveis para internalizar os recursos. Essa estratégia dos exportadores pode atrasar o impacto positivo no fluxo cambial, criando descasamentos temporários entre a balança comercial física (embarques) e a financeira (câmbio contratado).
Sazonalidade: Janeiro versus Dezembro
A comparação entre o fluxo cambial de janeiro e o de dezembro ilustra perfeitamente a sazonalidade dos fluxos de capitais no Brasil. O déficit de US$ 12,191 bilhões em dezembro é um evento recorrente, impulsionado pela remessa de lucros de subsidiárias de empresas estrangeiras para suas matrizes antes do fechamento dos balanços anuais. Além disso, fundos de investimento globais costumam realizar rebalanceamentos de carteira no final do ano, retirando recursos de emergentes.
Janeiro, por sua vez, marca o início de um novo ciclo de alocação. Os investidores globais definem suas estratégias para o ano e buscam ativos descontados ou com alto rendimento (yield). O Brasil, com seus juros reais entre os mais altos do mundo e ativos de renda variável descontados em dólar, torna-se um destino natural para parte desse capital, o que explica a recuperação do fluxo cambial via canal financeiro.
Contudo, para que o fluxo cambial se mantenha sustentável ao longo de 2026, será necessário que o canal comercial reverta o sinal negativo. A expectativa do mercado é que o início do escoamento da safra de soja, previsto para ganhar força nas próximas semanas, traga um volume robusto de dólares comerciais, equilibrando a equação e reduzindo a dependência do canal financeiro.
O Papel do Banco Central e as Reservas Internacionais
O Banco Central monitora o fluxo cambial diariamente, pois ele é a base para a gestão da liquidez do mercado de câmbio. Embora o Brasil opere em regime de câmbio flutuante, a autoridade monetária pode intervir em casos de disfuncionalidade. Um fluxo cambial consistentemente negativo poderia drenar a liquidez e forçar o BC a vender dólares das reservas internacionais ou a atuar via swaps cambiais para prover proteção (hedge) aos agentes econômicos.
O saldo positivo de US$ 906 milhões, embora modesto para o tamanho da economia brasileira, é uma notícia bem-vinda, pois indica que, por ora, o mercado está conseguindo se autofinanciar sem a necessidade de queima de reservas. A acumulação de divisas via fluxo cambial privado fortalece a posição externa do país e melhora a percepção de risco soberano (CDS).
Perspectivas para o Restante do Trimestre
Olhando para frente, a trajetória do fluxo cambial dependerá da evolução de dois vetores principais: a política fiscal doméstica e o cenário de juros nos EUA. Internamente, a credibilidade do arcabouço fiscal é fundamental para manter o investidor financeiro ancorado no país. Qualquer ruído fiscal pode afugentar o capital de portfólio, deteriorando o fluxo cambial financeiro.
Externamente, a resiliência da economia norte-americana ditará o ritmo dos fluxos para emergentes. Se os dados de inflação e emprego nos EUA permitirem o início de um ciclo de cortes de juros pelo Fed, o Brasil poderá beneficiar-se de uma nova onda de liquidez global, impulsionando o fluxo cambial para terrenos mais superavitários.
Por outro lado, o canal comercial deve apresentar melhora gradativa. Os contratos de ACC (Adiantamento de Contrato de Câmbio), que somaram US$ 1,513 bilhão até o dia 23, e os de PA (Pagamento Antecipado), com US$ 2,476 bilhões, são indicadores antecedentes de exportações futuras. O volume dessas operações sugere que os exportadores já estão se preparando para os embarques, o que deve se traduzir em entradas efetivas de dólares e melhora no fluxo cambial comercial nos meses subsequentes.
Em suma, os dados preliminares do Banco Central mostram um início de 2026 de recuperação moderada para as contas externas brasileiras. O fluxo cambial positivo de US$ 906 milhões reflete a atratividade dos juros locais e a capacidade do país de captar recursos financeiros, mesmo diante de um déficit comercial pontual.
A volatilidade semanal, com a saída de US$ 638 milhões na penúltima semana de janeiro, serve como lembrete de que o equilíbrio externo é dinâmico e sensível. A gestão econômica precisará manter a vigilância para garantir que as condições de atratividade permaneçam, permitindo que o fluxo cambial continue a irrigar a economia com as divisas necessárias para o desenvolvimento e a estabilidade monetária. A atenção agora se volta para o fechamento consolidado do mês, que confirmará se a tendência de entrada se sustentou nos últimos dias de janeiro ou se a volatilidade recente prevaleceu.






