Analistas projetam qual será a magnitude do corte na Selic prometido pelo Banco Central para março
O mercado financeiro brasileiro amanheceu nesta quinta-feira (29) debruçado sobre calculadoras e modelos econométricos, digerindo a mais recente comunicação do Banco Central (BC). Em decisão unânime e amplamente precificada, o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a taxa básica de juros inalterada em 15% ao ano. No entanto, o “não-evento” da manutenção deu lugar a um intenso debate sobre o futuro próximo: o comunicado oficial sinalizou, de forma inequívoca, que o ciclo de corte na Selic deve ter início na próxima reunião, agendada para os dias 17 e 18 de março.
A sinalização da autoridade monetária altera substancialmente a curva de juros futuros e o humor dos investidores. A principal motivação citada pelo colegiado foi a menor pressão inflacionária observada recentemente, o que abre espaço para o afrouxamento monetário. Contudo, a grande incógnita que domina as mesas de operações e os departamentos econômicos dos grandes bancos não é mais “se” haverá redução, mas sim “de quanto” será esse primeiro corte na Selic. As apostas dividem-se, majoritariamente, entre uma redução cautelosa de 0,25 ponto percentual e um movimento mais assertivo de 0,50 ponto percentual.
A relevância deste momento é histórica. Se confirmado, este será o primeiro corte na Selic desde maio de 2024, quando a taxa foi ajustada de 10,75% para 10,50%. Desde então, o Brasil atravessou um período de endurecimento monetário para combater a inflação, culminando no atual patamar de 15%, vigente desde junho do ano passado. Este nível coloca o Brasil na segunda posição do ranking global de juros reais, superando todos os pares da América Latina, o que aumenta a pressão do setor produtivo por um alívio nas condições de crédito.
A “Serenidade” do Copom e a divisão dos especialistas
A palavra-chave do comunicado do Copom foi “serenidade”. Ao utilizar este termo, o Banco Central tentou balizar as expectativas, sugerindo que, embora o corte na Selic seja iminente, ele não deve ser interpretado como um “liberou geral”. A condução da política monetária continuará focada na convergência da inflação para a meta. Essa nuance na comunicação gerou interpretações divergentes entre os principais analistas do mercado.
Fernanda Guardado, ex-diretora de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos do BC e atual chefe de economia para a América Latina do BNP Paribas, adota uma postura de cautela. Para ela, a ênfase na serenidade indica que o Copom tentou limitar o otimismo exagerado do mercado. Segundo sua análise, o compromisso com a meta de inflação impõe um ritmo moderado. Guardado projeta que o ciclo de corte na Selic começará com uma redução de 0,25 ponto percentual em março.
Na visão da economista, se as condições econômicas se mantiverem estáveis, o ritmo poderia acelerar para 0,50 ponto percentual apenas na reunião seguinte. Sua projeção é de que a taxa básica de juros encerre o ano de 2026 em 12%. Essa perspectiva conservadora baseia-se na leitura de que o BC prefere errar pela cautela do que arriscar um repique inflacionário, especialmente em um cenário global ainda desafiador.
O fator Câmbio e a possibilidade de um corte de 0,50 pp
Enquanto alguns pregam cautela, outros analistas enxergam espaço para um movimento mais vigoroso. Fernando Gonçalves, superintendente de pesquisa econômica do Itaú, avalia que a sinalização do BC foi clara quanto ao início do ciclo, mas deixou a porta aberta em relação à magnitude. Para ele, o Comitê não se “amarrou” a nenhum nível específico, mantendo as opções de 0,25 ou 0,50 ponto percentual sobre a mesa para o próximo corte na Selic.
Gonçalves destaca que as variáveis determinantes serão os dados de inflação acumulados até março e, crucialmente, o comportamento do mercado cambial. Um câmbio estável ou em valorização poderia fornecer a segurança necessária para que a autoridade monetária opte por um corte na Selic de 0,50 ponto percentual logo na largada. A precificação do mercado, segundo o especialista, deve migrar para um meio-termo na curva de juros, evitando extremos, mas a possibilidade de uma redução maior não é descartável.
A correlação entre câmbio e juros é vital. Com o dólar apresentando volatilidade recente e a fala de Donald Trump no radar dos investidores globais, o BC brasileiro precisa calibrar o diferencial de juros para evitar uma fuga de capitais que desvalorize o real e pressione a inflação via produtos importados.
Otimismo na Faria Lima: A tese do “Ciclo Grande”
Na ala mais otimista do mercado, gestores de fundos multimercado veem sinais claros de que o BC está pronto para agir com mais força. Gustavo Pessoa, sócio e gestor da Legacy Capital, interpreta o comunicado de maneira distinta. Para ele, o início de um “ciclo grande de cortes” já está desenhado. Pessoa acredita que está “telegrafado” um corte na Selic de 0,50 ponto percentual em março.
Sua leitura é que o termo “serenidade” não implica necessariamente lentidão (0,25 pp), mas sim consistência. O gestor avalia que há grandes chances de aceleração do ritmo de cortes após o movimento inicial. Segundo sua análise, a economia brasileira não necessita de um patamar de juros “significativamente contracionista” por muito mais tempo. Com a inflação dando sinais de arrefecimento, manter a taxa em 15% seria uma dose excessiva de remédio que poderia prejudicar a atividade econômica desnecessariamente.
Essa visão é compartilhada, em partes, por Luís Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners. Ele projeta que a taxa cairá para 14,50% ao ano no encontro de março, o que implica um corte na Selic de 0,50 ponto percentual. Leal utiliza o argumento dos juros reais para justificar sua posição. Considerando tanto a inflação passada (IPCA acumulado) quanto as projeções futuras, a taxa real de juros no Brasil está excessivamente alta, beirando os 11%.
Para Leal, um juro real de dois dígitos é insustentável a longo prazo e justifica plenamente um início de ciclo mais agressivo do que apenas 0,25 pp. Sua expectativa é que a Selic encerre o ano em 12,50%. Ele também ressalta a clareza inédita do comunicado: o BC foi direto ao afirmar que o processo de flexibilização começa na próxima reunião, algo raro na comunicação tipicamente hermética da autoridade monetária.
Cenário Internacional: O peso do Federal Reserve
A discussão sobre o corte na Selic não ocorre em um vácuo doméstico. O cenário internacional desempenha um papel preponderante na tomada de decisão do Copom. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) decidiu manter os juros inalterados, encerrando um ciclo de cortes iniciado em 2025. Essa mudança de postura da autoridade monetária americana impõe um limite à liberdade de ação do Banco Central do Brasil.
Se os juros americanos permanecerem altos, o diferencial de taxas entre Brasil e EUA diminui, o que pode tornar os ativos brasileiros menos atraentes para o investidor estrangeiro (carry trade). Sérgio Goldenstein, sócio-fundador da consultoria Eytse Estratégia, alerta para esse ponto. Embora ele projete um corte na Selic de 0,50 ponto percentual em março, ele nota que o comunicado do BC citou a necessidade de cautela em função da conjuntura econômica dos Estados Unidos.
A política de “dólar forte” e a aversão ao risco global, com o ouro batendo recordes acima de US$ 5,3 mil, criam um ambiente externo desafiador. No entanto, Goldenstein observa que o tom do Copom foi suavizado em relação aos comunicados anteriores. A exclusão de frases que indicavam a necessidade de manter os juros em patamar contracionista por “período bastante prolongado” é a prova cabal de que a virada de mão na política monetária doméstica é irreversível no curto prazo.
Impactos na Economia Real e Investimentos
A confirmação de um corte na Selic em março terá efeitos cascata sobre a economia real. Com a taxa atualmente em 15%, o custo do crédito para empresas e famílias está proibitivo, travando investimentos e consumo. A redução dos juros é aguardada com ansiedade pelo setor de varejo, construção civil e indústria, que dependem de financiamento para alavancar o crescimento.
Para o investidor pessoa física, a iminência do corte na Selic exige uma reavaliação de portfólio. A renda fixa atrelada ao CDI, que reinou absoluta no último ano com retornos de 1% ao mês livres de risco, começará a perder atratividade marginalmente. Analistas sugerem que o mercado deve começar a antecipar a migração para ativos de risco (Bolsa de Valores) ou para títulos prefixados e atrelados à inflação (IPCA+), visando travar as taxas atuais antes que elas caiam.
Alberto Ramos, do Goldman Sachs, reforça que o Copom mostrou-se mais propenso a relaxar a política monetária do que o consenso de mercado esperava há alguns meses. Isso sugere que, mesmo que o primeiro corte na Selic seja de 0,25 pp, a direção é inequivocamente de baixa. A “normalização” da taxa de juros é um processo necessário para realinhar o Brasil com seus pares emergentes e retirar a economia da estagnação forçada pelo aperto monetário.
A expectativa para Março
O cenário base está traçado: haverá um corte na Selic em março. A dúvida reside na calibração fina desse movimento. De um lado, a cautela institucional representada por Fernanda Guardado, que teme a desancoragem das expectativas de inflação. Do outro, o pragmatismo de mercado de Gustavo Pessoa e Luís Otávio Leal, que olham para o juro real exorbitante e para a atividade econômica.
Até a reunião de março, cada dado econômico divulgado será perscrutado com lupa. O IPCA-15 de fevereiro, os dados do mercado de trabalho (Caged e PNAD) e, sobretudo, a volatilidade do câmbio, serão os fiéis da balança. Se a inflação surpreender positivamente (para baixo) e o dólar se mantiver comportado, a tese do corte de 0,50 pp ganha força. Caso contrário, a “serenidade” do BC pode se traduzir em um conservadorismo de 0,25 pp.
Independentemente da magnitude inicial, a mensagem é clara: o ciclo de aperto acabou. O ano de 2026 será marcado pela flexibilização monetária. Resta saber a velocidade com que o Banco Central retirará o pé do freio da economia. O próximo corte na Selic não será apenas um ajuste técnico, mas um sinal político e econômico de que o combate à inflação entrou em uma nova fase, permitindo que o país volte a sonhar com o crescimento sustentável.
A decisão unânime de manter a taxa em 15% foi apenas o preâmbulo para a verdadeira notícia: o compromisso com o corte na Selic em março. O mercado financeiro, agora munido das sinalizações do comunicado oficial, ajusta suas velas para navegar em águas de juros declinantes. A disputa entre 0,25 pp e 0,50 pp dominará as manchetes nas próximas semanas, refletindo a tensão entre a necessidade de estimular a economia e o dever fiduciário de garantir a estabilidade de preços.
Com o Brasil ostentando o segundo maior juro real do mundo, a pressão por um alívio é imensa. A resposta virá nos dias 17 e 18 de março, quando o Copom definirá o ritmo dessa nova jornada. Até lá, a volatilidade deve imperar, mas a direção do vento mudou: a era dos juros de 15% está com os dias contados, e o primeiro corte na Selic já é uma realidade contratada no horizonte econômico brasileiro.






