Ibovespa ignora cautela global, dispara 12% em janeiro e atrai R$ 23 bilhões em capital estrangeiro
O mercado financeiro brasileiro iniciou 2026 dissociando-se das incertezas de Wall Street e protagonizando um rali histórico. O Ibovespa, principal termômetro da bolsa de valores brasileira, encerrou janeiro com uma valorização expressiva de 12,56%, rompendo a barreira inédita dos 186 mil pontos. Este desempenho marca o melhor resultado mensal para o índice desde novembro de 2020 e consolida uma tendência de alta impulsionada por uma rotação global de portfólio que favoreceu massivamente os ativos de risco locais.
A performance do Ibovespa surpreendeu até os analistas mais otimistas. O índice não apenas sustentou os ganhos do ano anterior, mas acelerou o passo, alimentado por um fluxo cambial robusto que também impactou o mercado de moedas. O dólar comercial encerrou o mês cotado a R$ 5,2476, acumulando uma queda de 4,40% frente ao real, refletindo a entrada agressiva de dólares no país.
O “Smart Money” e a Rotação Global
A explicação para a disparada do Ibovespa reside, fundamentalmente, na liquidez internacional. Dados da B3 indicam que os investidores estrangeiros aportaram mais de R$ 23 bilhões no mercado secundário brasileiro até o dia 28 de janeiro. Para se ter uma ideia da magnitude desse fluxo, o volume de entrada em apenas um mês equivale a mais de 90% de todo o capital externo que ingressou na bolsa durante todo o ano de 2025 (R$ 25,47 bilhões). É o maior aporte mensal desde janeiro de 2022.
Analistas apontam que o Ibovespa se tornou um “porto seguro” improvável em meio à escalada das tensões geopolíticas no hemisfério norte. A ação militar dos Estados Unidos na Venezuela e a retórica agressiva do presidente norte-americano, Donald Trump, geraram instabilidade nos mercados desenvolvidos. Esse cenário provocou uma saída de capital dos EUA na segunda quinzena do mês, redirecionando recursos para emergentes ricos em commodities e com preços descontados, como o Brasil.
Commodities: Petrobras (PETR4) e Prio (PRIO3) lideram a euforia
A composição setorial do Ibovespa, fortemente ligada a materiais básicos e energia, foi o grande trunfo de janeiro. O petróleo tipo Brent saltou 13,9% no mercado futuro de Londres, atingindo US$ 69,32 o barril, impulsionado pelas promessas de investimentos de US$ 100 bilhões no setor petrolífero venezuelano por empresas americanas, conforme declarado por Trump.
Esse movimento beneficiou diretamente as gigantes do setor na B3. As ações preferenciais da Petrobras (PETR4) subiram 22,52%, enquanto as ordinárias (PETR3) avançaram 24,01%. A estatal engatou uma sequência de 10 pregões consecutivos de alta, superando novamente a marca de R$ 500 bilhões em valor de mercado. Outras petroleiras seguiram o fluxo positivo, com destaque para a Prio (PRIO3), que viu seus papéis valorizarem 23,10% no período, contribuindo significativamente para a pontuação do Ibovespa.
O setor de combustíveis e energia renovável também surfou a onda. A Raízen (RAIZ4) teve o segundo melhor desempenho do índice, com alta de 27,16%, seguida pela Ultrapar (UGPA3), que avançou 21,44%. Esses papéis foram catalisadores importantes para a manutenção do índice acima dos 180 mil pontos.
Cogna (COGN3): A Estrela do Mês
Embora as commodities tenham dado o tom macroeconômico, o maior ganho percentual individual do Ibovespa veio do setor educacional. Os papéis da Cogna (COGN3) dispararam 43,99% em janeiro. O movimento é uma extensão do rali de 2025, quando a ação já havia subido mais de 240%.
A reprecificação da COGN3 foi sustentada por revisões positivas de grandes bancos de investimento. O JP Morgan elevou a recomendação do papel de neutra para compra, estabelecendo um preço-alvo de R$ 6,50 para dezembro, citando um valuation ainda atrativo e perspectivas sólidas de crescimento. Na mesma linha, o UBS BB revisou estimativas, mantendo recomendação neutra, mas validando a melhora nos fundamentos operacionais da companhia. Para o investidor do Ibovespa, a COGN3 tornou-se o símbolo da recuperação dos setores cíclicos domésticos.
Política Monetária e Cenário Macro
O ambiente doméstico também jogou a favor do Ibovespa. O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a taxa Selic em 15% ao ano na reunião de janeiro, a quinta manutenção consecutiva. No entanto, o comunicado trouxe o “forward guidance” que o mercado ansiava: a sinalização de que o ciclo de cortes de juros deve começar na próxima reunião, em março.
A perspectiva de queda da Selic animou investidores posicionados em empresas sensíveis a juros, como varejistas e construtoras. No Ibovespa, a Cury (CYRE3) subiu 20,08% e a Multiplan (MULT3) avançou 20,88%, antecipando o alívio financeiro que juros menores trarão aos balanços e ao consumo.
Além disso, a assinatura do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, após 26 anos de negociações, trouxe um viés positivo de longo prazo para a economia brasileira, reforçando a atratividade do país para o capital estrangeiro.
As Decepções do Mês: Vivara (VIVA3) e Hapvida (HAPV3)
Apesar da euforia generalizada, nem todos os ativos do Ibovespa fecharam no azul. A ponta negativa foi liderada pela Vivara (VIVA3), que recuou 15,22%. A joalheria foi penalizada pela forte alta do ouro no mercado internacional (+9,30% na Comex), o que pressiona diretamente seus custos de matéria-prima e margens brutas.
O setor de saúde também continuou sofrendo. A Hapvida (HAPV3) caiu 11,74%, refletindo a cautela contínua dos investidores com a sinistralidade do setor e a dificuldade de repasse de preços. Outros destaques negativos incluíram C&A Modas (CEAB3) com queda de 6,50% e Suzano (SUZB3), que recuou 4,12%, destoando do otimismo das commodities.
Tabela de Destaques do Ibovespa em Janeiro
Maiores Altas:
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Cogna ON (COGN3): +43,99%
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Raízen ON (RAIZ4): +27,16%
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Petrobras ON (PETR3): +24,01%
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Vamos ON (VAMO3): +23,53%
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Prio ON (PRIO3): +23,10%
Maiores Quedas:
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Vivara ON (VIVA3): -15,22%
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Hapvida ON (HAPV3): -11,74%
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Marfrig ON (MBRF3): -6,56%
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C&A ON (CEAB3): -6,50%
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Auren ON (AURE3): -5,14%
Alerta de Governança: Caso Banco Master
Em meio ao bull market, o Ibovespa também conviveu com ruídos de governança no setor financeiro. A liquidação extrajudicial da Will Financeira, controlada pelo Banco Master, decretada pelo Banco Central no dia 21, e as operações da Polícia Federal no Rioprevidência, trouxeram cautela pontual. Embora não tenha havido contágio sistêmico, o mercado monitora de perto os desdobramentos para evitar surpresas em instituições listadas.
Com a liderança de Lula nas pesquisas de primeiro turno e o acirramento da disputa com Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, o componente político deve ganhar peso na precificação do Ibovespa nos próximos meses. Contudo, a inércia do fluxo estrangeiro e a iminência do corte de juros pelo Copom sugerem que o índice tem suporte para buscar novos topos, desde que o cenário externo não se deteriore drasticamente.






