BRB tentou aumentar limites de executivos durante crise do Banco Master e acende alerta no mercado
O BRB (Banco de Brasília) protagoniza mais um episódio controverso em meio à turbulência provocada pelo escândalo do Banco Master. Recentemente, o conselho da instituição analisou a possibilidade de elevar os limites de transações para executivos, numa proposta que, segundo especialistas, poderia concentrar ainda mais operações nas mãos de poucos e gerar riscos adicionais em um momento delicado para o banco.
A tentativa de aumentar o teto de operações de 8% para 9% alcançaria diretores, conselheiros e até o presidente, podendo resultar em movimentações de até R$ 360 milhões, considerando o patrimônio líquido atual de R$ 4 bilhões do BRB. O movimento ocorreu exatamente no auge da crise Master, no dia 28 de novembro, apenas um dia após a posse do novo presidente da instituição, reforçando o caráter controverso da medida.
Sigilo e falta de transparência aumentam suspeitas
A ata da reunião permanece sob sigilo, diferentemente de outros documentos do banco, que costumam ser divulgados ao público. Oficialmente, o BRB justifica a confidencialidade com base na Lei das Estatais, alegando proteção de segredos comerciais e dados sensíveis. No entanto, não há informações claras sobre a aprovação da medida, gerando questionamentos de analistas e investidores.
Especialistas em governança corporativa destacam que a prática contrasta com políticas de bancos privados, como Itaú e Bradesco, que estabelecem limites rigorosos para operações de executivos e partes relacionadas. No Itaú, por exemplo, operações individuais são limitadas a R$ 1 milhão por ano, enquanto no Bradesco o teto chega a R$ 50 milhões.
“O aumento de limites em plena crise é uma decisão altamente questionável. Numa situação de incerteza, a recomendação é reduzir ou manter a alçada, nunca ampliá-la”, avalia Sandra Guerra, especialista em governança. A profissional ainda reforça que estatais, diferentemente de bancos privados, frequentemente apresentam fragilidades nesse tipo de controle.
Entendendo o conceito de partes relacionadas
No contexto de governança, partes relacionadas incluem acionistas controladores, administradores, conselheiros, empresas coligadas e familiares diretos desses executivos. Por terem acesso a informações privilegiadas, tais indivíduos devem estar sujeitos a limites claros para prevenir conflitos de interesse e proteger investidores e depositantes.
Durante a tentativa de aumento de limites, Marcelo Talarico presidia o conselho do BRB. Ele enfrentou forte resistência interna e renunciou antes de ser destituído, abrindo espaço para novos conselheiros. Edison Garcia foi indicado pelo Governo do Distrito Federal para assumir a presidência do conselho, representando o controlador do banco.
Crise do Banco Master pressiona decisões estratégicas
O contexto em que o BRB propôs a elevação dos limites ocorre no rastro do escândalo do Banco Master, cujas fraudes são estimadas em mais de R$ 12 bilhões. Executivos como o ex-presidente Paulo Henrique Costa e o diretor financeiro Dario Garcia Júnior foram afastados pela Operação Compliance Zero, e a instituição atravessa um processo de reestruturação integral.
Em nota, o BRB afirma que revisões de políticas de partes relacionadas seguem governança formal, com alçadas definidas e aprovação do Conselho de Administração. A atualização de 2025, segundo a instituição, “reforçou a governança” e estabeleceu regras para prevenir privilégios e conflitos, mas não se pronunciou especificamente sobre o aumento de limites em novembro.
Repercussões e atenção do mercado
O episódio evidencia fragilidades de governança e transparência em estatais, gerando preocupação de investidores, depositantes e órgãos reguladores, como Banco Central e CVM. A potencial concentração de poder nas mãos de poucos executivos aumenta o risco institucional e impacta a percepção de segurança do mercado em relação ao BRB.
Além disso, a movimentação em plena crise Master levanta questionamentos sobre o timing da medida. Enquanto o banco afirma que segue regras formais de governança, a decisão de propor aumento de limites em um período de instabilidade é vista como arriscada e contrária às práticas recomendadas para instituições financeiras em situações semelhantes.
Comparação com o setor privado
O contraste com bancos privados torna a situação ainda mais crítica. O Itaú e o Bradesco adotam políticas restritivas para operações de partes relacionadas, limitando exposição e prevenindo riscos de concentração de capital. No BRB, a proposta de aumento de limites poderia levar a movimentações muito maiores, colocando em xeque a segurança financeira em meio a crises corporativas e investigações bilionárias.
Próximos passos e monitoramento
O mercado aguarda definições sobre a formalização do aumento de limites. Enquanto isso, parlamentares, analistas e órgãos reguladores permanecem atentos às decisões do BRB. A pressão por transparência e governança adequada se intensifica, especialmente considerando o histórico recente de fraudes e investigações relacionadas ao Banco Master.
A expectativa é que a instituição ajuste suas políticas para garantir equilíbrio entre autonomia dos executivos e proteção do patrimônio público, minimizando riscos e preservando a confiança de investidores e depositantes.
O episódio do BRB reforça que, em momentos de crise, decisões estratégicas precisam ser cuidadosamente avaliadas. O aumento de limites de operações para executivos, mesmo com justificativas formais de governança, pode gerar impactos negativos significativos na percepção de mercado e na estabilidade institucional.





