Ibovespa renova máxima histórica, mas recua com ‘choque tarifário’ de Trump e tombo dos bancos
O Ibovespa viveu uma jornada de extremos nesta segunda-feira (23). O principal índice da B3 atingiu, pela primeira vez na história, o patamar de 191.002,54 pontos durante a manhã, impulsionado por uma euforia técnica. Contudo, o movimento perdeu fôlego diante da escalada protecionista nos Estados Unidos, encerrando o pregão em queda de 0,88%, aos 188.853,49 pontos. O mercado reagiu à decisão de Donald Trump de impor uma tarifa global de 15%, o que gerou uma onda de aversão ao risco que castigou o setor bancário brasileiro, apesar da resiliência das ações da Vale (VALE3) e Petrobras (PETR4).
O teto dos 191 mil pontos e a contraofensiva de Washington
A máxima histórica registrada logo na abertura parecia consolidar o rali de fevereiro, mas o cenário externo rapidamente se sobrepôs aos fundamentos domésticos. A instabilidade foi deflagrada pela resposta de Donald Trump à Suprema Corte dos EUA. Após o tribunal suspender as tarifas anteriores na última sexta-feira (20), o presidente republicano reagiu com uma nova alíquota linear de 15% para todas as importações globais.
Essa “guerra de canetadas” em Washington reacendeu o temor inflacionário global. Em Nova York, os índices Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq derreteram mais de 1% cada. O investidor estrangeiro, que vinha sustentando a liquidez na B3, adotou uma postura defensiva, retirando capital de mercados emergentes para se proteger no ouro, que saltou quase 3%.
Setor bancário lidera perdas e anula ganhos do índice
A nevasca financeira que atingiu Wall Street cruzou o hemisfério e congelou as cotações dos grandes bancos brasileiros. O setor financeiro, que possui o maior peso na composição do Ibovespa, foi o principal detrator do dia.
O Santander (SANB11) liderou as baixas com um recuo severo de 5,69%, seguido pelo Itaú Unibanco (ITUB4), que caiu 3,62%. O Bradesco (BBDC4) também registrou perdas de 2,44%. Analistas apontam que a perspectiva de juros americanos altos por mais tempo — como resposta à inflação tarifária de Trump — pressiona as margens de crédito e aumenta o custo de captação das instituições locais.
Performance das Blue Chips (Fechamento 23/02)
-
PETR4: +1,63% (R$ 38,59)
-
VALE3: +0,67% (R$ 87,39)
-
ITUB4: -3,62% (R$ 47,45)
-
BBDC4: -2,44% (R$ 15,35)
-
SANB11: -5,69% (R$ 34,61)
Vale e Petrobras: O escudo das commodities
Enquanto os bancos sofriam, as gigantes exportadoras evitaram um desastre maior para o Ibovespa. A Petrobras (PETR4) avançou 1,63%, descolando-se da queda do petróleo Brent no exterior. O movimento foi lido como uma busca por segurança e dividendos em meio à tempestade cambial.
A Vale (VALE3) também operou no campo positivo (+0,67%), sustentada pelo anúncio de novos investimentos de US$ 3,5 bilhões em cobre em Carajás até 2030. A estratégia de diversificação metálica da mineradora foi bem recebida pelo mercado, servindo de anteparo contra o pessimismo macroeconômico.
Boletim Focus e a resiliência do cenário interno
Apesar da volatilidade externa, os dados domésticos trouxeram um alento. O Boletim Focus desta semana mostrou a sétima queda consecutiva na projeção do IPCA para 2026, agora em 3,91%. A leve melhora na projeção do PIB e a redução na expectativa para a Selic (12,13%) sugerem que, se o cenário externo permitir, o Brasil possui fundamentos para sustentar o Ibovespa acima dos 190 mil pontos no médio prazo.
No entanto, o “risco de cauda” vindo dos EUA permanece no radar. O dólar comercial encerrou o dia em queda de 0,14%, a R$ 5,169, mas o mercado projeta volatilidade caso os parceiros comerciais dos EUA, como a China e a União Europeia, iniciem represálias tarifárias.
Varejo e Aviação: O tombo da Azul e Magazine Luiza
No campo das ações individuais, a Azul (AZUL53) decepcionou. Após uma euforia inicial com a saída oficial do Chapter 11, os papéis inverteram o sinal e desabaram 9,61%. O mercado realizou lucros rapidamente, questionando a capacidade de crescimento da companhia em um cenário de custos operacionais elevados.
Já o varejo sofreu com a pressão dos juros futuros. O Magazine Luiza (MGLU3) recuou 3,98%, refletindo a sensibilidade do setor ao consumo das famílias, que pode ser afetado caso a inflação global force o Banco Central a manter a Selic em patamares restritivos por mais tempo.





