A adoção da inteligência artificial nas franquias brasileiras entrou definitivamente no radar do setor, mas ainda enfrenta desafios estruturais que impedem um avanço uniforme. É o que mostra um levantamento inédito da Associação Brasileira de Franchising (ABF), que revela um estágio de implementação marcado mais pela experimentação do que por uma transformação consolidada.
Segundo o estudo, 37% das franquias brasileiras permanecem na fase de testes da tecnologia, enquanto apenas um quarto utiliza a ferramenta de forma estruturada. O cenário indica que o franchising nacional atravessa uma etapa de aprendizado, com ganhos pontuais e uma curva de maturidade ainda em evolução. Embora a inteligência artificial nas franquias seja considerada uma aposta estratégica para os próximos anos, a pesquisa mostra que há obstáculos que dificultam o pleno aproveitamento de seus benefícios.
Em meio ao avanço tecnológico global, a discussão sobre a digitalização do setor ganha cada vez mais espaço. A ABF defende que o uso de soluções de inteligência artificial nas franquias é inevitável e deve se expandir rapidamente, transformando rotinas de gestão, relacionamento com o cliente, atendimento, criação de conteúdo e automação de tarefas.
Fase de testes domina a adoção da IA no franchising brasileiro
Os dados apresentados pela ABF revelam um cenário fragmentado. Entre as empresas consultadas, 37% das redes estão na fase de testes, explorando o potencial da ferramenta antes de implementá-la de maneira definitiva. Outras 22% aplicam a tecnologia de forma não estruturada, o que significa uso pontual e sem integração total à operação.
Apenas 26% das marcas afirmam já ter uma estratégia formalizada de inteligência artificial nas franquias, com processos integrados, métricas de desempenho e equipes dedicadas.
O relatório aponta ainda que 40% das franqueadoras estão nos primeiros passos da jornada, explorando possibilidades e validando modelos. Outros 34% já percebem ganhos intermediários, ainda que restritos a áreas específicas.
Um setor em aprendizado: a avaliação da ABF
O presidente da entidade, Tom Moreira Leite, destacou que a pesquisa confirma um movimento gradual, mas consistente, de modernização no franchising brasileiro. Em sua avaliação, o setor vive uma etapa crucial de amadurecimento.
“Embora seja algo muito novo, a IA já se faz mais presente entre as estratégias do franchising brasileiro. A pesquisa da ABF indica que as redes estão adotando a tecnologia de forma crescente, mas ainda há um caminho importante de aprendizado e estruturação pela frente. Porém, a implantação dessa tecnologia tem muito a avançar para provocar uma transformação mais acentuada em nosso setor”. diz
A presença crescente da inteligência artificial nas franquias confirma que o mercado está atento às mudanças tecnológicas, mas ainda encontra barreiras internas que retardam a adoção plena. A falta de profissionais qualificados, o custo de integração e a resistência cultural são apenas alguns dos obstáculos identificados no estudo.
Chatbots e IA generativa lideram a implementação
O uso de chatbots e assistentes virtuais desponta como o principal recurso aplicado atualmente. Segundo o levantamento, 75% das franqueadoras utilizam essas ferramentas para atendimento ao cliente, dúvidas frequentes e suporte inicial.
Logo atrás está a IA generativa de textos, como modelos avançados de linguagem, presente em 71% das redes. Essas soluções já desempenham papel central na criação de conteúdo, geração de campanhas, revisão de documentos e suporte operacional.
O diretor-adjunto de Estratégia Digital da ABF, Carlos Zilli, ressaltou o momento de transição vivido pelas empresas.
“Estamos vivendo um momento de transição entre a curiosidade e a maturidade digital. As redes estão aprendendo a explorar o potencial da IA e começam a perceber que ela não é apenas uma ferramenta operacional, mas um diferencial competitivo. A maturidade mostra que as redes de franquias estão no caminho certo, mas é fundamental que as empresas franqueadoras avancem na mensuração efetiva dos benefícios da IA porque ganho efetivo é aquele incorporado à rede”.
Os números deixam claro que, embora as empresas compreendam o valor estratégico da inteligência artificial nas franquias, ainda não existe uma visão consolidada de longo prazo.
Marketing concentra o maior uso da IA nas redes de franquias
Entre as áreas mais impactadas, o marketing aparece como principal destino da tecnologia. 83% das redes utilizam IA para criação de conteúdo, gestão de redes sociais e otimização de campanhas digitais.
Internamente, ferramentas automatizadas já contribuem para a organização de documentos e fluxos de processos — setor citado por 62% das empresas. Já o atendimento ao cliente aparece com 55%, reforçando a importância dos chatbots e assistentes virtuais na modernização do relacionamento.
Apesar disso, o estudo aponta que o uso ainda está concentrado em tarefas de apoio e produtividade. A projeção é que, em poucos anos, a inteligência artificial nas franquias avance para áreas mais complexas, como gestão financeira, controle operacional, análises preditivas, métricas de desempenho e automação integrada.
Produtividade e automação são os principais ganhos da IA
As empresas que já utilizam a tecnologia relatam benefícios concretos. Entre os maiores impactos percebidos estão:
-
aumento de produtividade (73%);
-
automação de tarefas repetitivas (63%);
-
melhoria no atendimento ao cliente (51%);
-
apoio à tomada de decisão (41%);
-
personalização da comunicação (40%).
Apenas 4% das redes afirmam não perceber vantagens tangíveis no uso da inteligência artificial nas franquias. Para a ABF, esse número tende a diminuir à medida que as empresas avançarem no uso estruturado e incorporarem métricas de medição de impacto.
Os principais desafios para adoção da IA nas franquias
A pesquisa revelou entraves importantes que freiam o avanço tecnológico no setor. O principal deles é a falta de conhecimento técnico, citada por 47% das franqueadoras. Essa ausência de capacitação interna dificulta o desenvolvimento de estratégias e o entendimento adequado dos recursos disponíveis.
Outros obstáculos são:
-
dificuldade de integração com sistemas legados (39%);
-
custos elevados de implementação (38%);
-
resistência cultural em algumas redes;
-
carência de políticas formais de uso.
“Observamos também que, entre os desafios, há dificuldades de cultura e entendimento, o que reforça a importância de um processo contínuo de capacitação. A ABF Academy, plataforma de capacitação da Associação, traz conteúdos sobre o assunto e pode auxiliar os associados nessa jornada da implantação e obtenção de resultados efetivos com a IA”, enfatiza Carlos Zilli
A ABF reconhece que, apesar do crescimento, a inteligência artificial nas franquias ainda está longe de atingir sua maturidade plena.
Empresas carecem de políticas formais de uso
O levantamento revela que boa parte das redes ainda não estruturou políticas institucionais para uso da tecnologia. Apenas uma minoria possui diretrizes oficiais para segurança, governança, uso ético e proteção de dados.
Mais de um terço das empresas sequer possui o tema em discussão interna, especialmente negócios de menor porte, que enfrentam maior dificuldade de adaptação.
A ABF avalia que essa ausência de políticas pode gerar riscos e inconsistências, sobretudo diante da expansão de ferramentas automatizadas.
Metodologia do estudo e representatividade
A pesquisa foi realizada entre 8 de julho e 8 de agosto, por meio de questionário online, e reuniu 419 respondentes, representando mais de 64 mil operações de franquias no país. A amostra corresponde a cerca de 32% das operações do setor, garantindo forte representatividade estatística.
Com mais de 3,3 mil marcas e faturamento superior a R$ 273 bilhões, o franchising brasileiro é responsável por mais de 2% do PIB nacional e emprega diretamente cerca de 1,7 milhão de pessoas. Em um setor de tamanha complexidade, a adoção da inteligência artificial nas franquias tende a ganhar centralidade na estratégia de crescimento dos próximos anos.
Uma nova etapa da transformação digital
O estudo marca um momento importante para o franchising brasileiro. A inteligência artificial nas franquias já deixou de ser tendência para se tornar uma ferramenta estratégica. Mas a maturidade tecnológica ainda está em fase de consolidação.
A ABF defende que o avanço da tecnologia é inevitável, mas exige planejamento, capacitação, investimento e consciência ética. A expectativa é que, nos próximos anos, o setor avance para modelos mais integrados, com análises preditivas, automação inteligente e maior eficiência operacional.
Para especialistas, a IA se tornará uma peça-chave no posicionamento competitivo das marcas. E, à medida que a curva de aprendizado diminui, o franchising brasileiro deve se aproximar dos padrões globais de automação e inteligência digital.






