MRV (MRVE3) conclui venda estratégica de terrenos nos EUA por US$ 18,3 milhões e reforça caixa da Resia
Em um movimento decisivo para a sua estratégia de desalavancagem e otimização de portfólio internacional, a MRV (MRVE3) anunciou ao mercado, na noite de quinta-feira (22), a conclusão bem-sucedida da venda de dois terrenos nos Estados Unidos. A operação, realizada por meio de sua subsidiária norte-americana Resia, movimentou o montante de US$ 18,3 milhões — o equivalente a aproximadamente R$ 97 milhões na cotação atual.
Este desinvestimento é um sinal claro de que a MRV (MRVE3) segue firme em seu plano de reciclagem de ativos (asset recycling), visando estancar a queima de caixa de sua operação internacional e retomar a geração de valor para o acionista. A transação ocorre em um momento crucial, onde o mercado observa com lupa a capacidade da companhia de entregar o guidance de vendas e reduzir sua exposição à dívida em dólar.
Nesta análise aprofundada, a Gazeta Mercantil detalha os impactos financeiros dessa venda para a MRV (MRVE3), o contexto do mercado imobiliário americano e as perspectivas para os papéis da construtora na B3 em 2026.
Detalhes da Operação: Onde e Quanto?
Os ativos alienados pela MRV (MRVE3), através da Resia, estão estrategicamente localizados no chamado “Sun Belt” americano, região que concentra o crescimento demográfico e econômico dos EUA. Trata-se de terrenos em Marine Creek, no estado do Texas, e em Tucker, na Geórgia.
O valor de US$ 18,3 milhões já havia sido precificado no balanço anterior sob a rubrica de impairment (ajuste no valor recuperável de ativos). Isso significa que, contabilmente, a MRV (MRVE3) já havia reconhecido que esses terrenos valiam menos do que o valor de face original, limpando o balanço de “ativos problemáticos” antes mesmo da venda.
A concretização do negócio, portanto, não gera um novo impacto negativo no resultado (P&L), mas traz um efeito extremamente positivo para o Fluxo de Caixa Livre (FCF). Para o investidor da MRV (MRVE3), a notícia é música para os ouvidos: dinheiro novo entrando no caixa, reduzindo a necessidade de novos aportes da matriz brasileira na operação americana.
A Estratégia da Resia: De “Cash Burn” para “Cash Cow”?
A Resia, subsidiária da MRV (MRVE3) nos Estados Unidos, foi por muito tempo considerada a “joia da coroa” da companhia, com uma tese de crescimento exponencial baseada na construção de moradias multifamiliares para locação (multifamily). No entanto, com a disparada dos juros pelo Federal Reserve (Fed) nos últimos dois anos, o custo de capital aumentou e o mercado de transações imobiliárias nos EUA congelou.
Isso transformou a Resia em uma consumidora de caixa, pressionando os resultados consolidados da MRV (MRVE3). A venda anunciada hoje faz parte de uma revisão estratégica profunda. A meta da companhia é levantar cerca de US$ 800 milhões com um plano robusto de desinvestimentos.
Até o momento, a MRV (MRVE3) já conseguiu liquidar ao menos US$ 167 milhões em ativos, somando terrenos e empreendimentos performados. Embora ainda distante da meta total, a venda dos terrenos no Texas e na Geórgia demonstra que há liquidez no mercado americano para os ativos da Resia, desde que precificados corretamente.
Para o acionista da MRV (MRVE3), a mensagem é de disciplina de capital. A empresa está disposta a vender terrenos (onde ainda não construiu) para fazer caixa, reduzir dívidas e focar apenas nos projetos com maior Taxa Interna de Retorno (TIR).
O Contexto do 4T25 e a Virada para 2026
Para entender a relevância dessa venda, é preciso olhar para o retrovisor recente. No quarto trimestre de 2025 (4T25), a MRV (MRVE3) reportou que a Resia não havia realizado vendas significativas de ativos. Esse hiato resultou em um consumo de caixa (cash burn) de US$ 25,6 milhões apenas naquele trimestre.
O mercado puniu as ações da MRV (MRVE3) diante dessa queima de caixa, temendo que a operação americana continuasse a drenar os recursos gerados pela operação brasileira (Minha Casa Minha Vida), que vive um excelente momento.
Contudo, a direção da MRV (MRVE3), liderada pelo CEO Rafael Menin, havia sinalizado que algumas vendas estavam “engatilhadas” para o primeiro trimestre de 2026. A confirmação da venda de US$ 18,3 milhões valida a palavra da gestão e recupera a credibilidade junto aos analistas de sell-side.
Segundo a empresa, a expectativa para 2026 é de uma reversão relevante da tendência. A projeção é que a subsidiária norte-americana da MRV (MRVE3) pare de queimar caixa (após o consumo de US$ 50 milhões em 2025) e passe a ter uma geração neutra ou positiva, dependendo da velocidade dos cortes de juros nos EUA.
Impacto na Alavancagem e Valuation da MRV (MRVE3)
A venda de terrenos é uma ferramenta rápida de desalavancagem. Ao transformar terra em dinheiro (R$ 97 milhões), a MRV (MRVE3) melhora seus índices de liquidez corrente e reduz a pressão sobre a alavancagem financeira (Dívida Líquida/EBITDA).
Analistas de mercado têm apontado que a ação da MRV (MRVE3) negocia com um desconto excessivo, muitas vezes ignorando o valor intrínseco da operação brasileira, justamente por causa do “risco Resia. À medida que a Resia executa seu plano de vendas, esse desconto de holding deve diminuir, destravando valor para o papel.
Se a MRV (MRVE3) conseguir atingir a meta de US$ 800 milhões em vendas nos próximos ciclos, a empresa poderá não apenas zerar a dívida da subsidiária, mas também repatriar dividendos para o Brasil, o que seria um gatilho poderoso para a valorização das ações.
O Mercado Imobiliário no Texas e Geórgia
A escolha de vender terrenos no Texas e na Geórgia não é aleatória. Essas regiões, apesar de sofrerem com a alta de juros, continuam apresentando fundamentos demográficos sólidos. A migração de empresas e famílias da Califórnia e Nova York para o “Sun Belt” sustenta a demanda por terrenos.
Ao vender agora, a MRV (MRVE3) aproveita essa demanda residual. A decisão de vender os terrenos, em vez de construir neles, indica uma postura de cautela. A MRV (MRVE3) prefere garantir o caixa agora do que assumir o risco de construção (construction risk) em um ambiente de custos de obra ainda elevados nos EUA.
Essa postura conservadora é bem vista por credores e detentores de bonds da empresa. Mostra que a MRV (MRVE3) não vai crescer a qualquer custo (“growth at all costs”), mas sim priorizar a saúde do balanço (“balance sheet health”).
Governança e Transparência na MRV (MRVE3)
O comunicado ao mercado feito na noite de quinta-feira reforça o compromisso da MRV (MRVE3) com a transparência. Detalhar que o valor da venda já estava considerado no impairment é uma prática de boa governança, evitando que o mercado crie expectativas falsas sobre lucros extraordinários contábeis.
Rafael Menin, CEO da MRV (MRVE3), tem sido vocal em afirmar que a tese da Resia permanece válida no longo prazo. O déficit habitacional nos EUA é estrutural, estimado em milhões de moradias. A MRV (MRVE3) possui a tecnologia construtiva e o know-how para atender essa demanda. O ajuste atual é tático, visando atravessar a tempestade dos juros altos, para que a empresa esteja posicionada quando o ciclo econômico virar.
O Que Esperar das Ações da MRV (MRVE3)?
Para o investidor posicionado em MRV (MRVE3), a notícia é um alívio. Ela confirma que os ativos da Resia têm liquidez e valor de mercado, afastando cenários mais pessimistas de “write-off” (baixa contábil) total.
No curto prazo, a entrada de R$ 97 milhões ajuda no capital de giro. No médio prazo, a continuidade desse plano de desinvestimentos é o principal catalisador (trigger) para a ação. O mercado quer ver a MRV (MRVE3) cumprindo a promessa de vendas trimestre a trimestre.
Se a operação Brasil continuar performando bem — com o Minha Casa Minha Vida turbinado e margens em recuperação — e a operação EUA parar de sangrar caixa, a MRV (MRVE3) tem tudo para passar por uma reprecificação (re-rating) significativa em 2026.
Riscos no Radar
Apesar da boa notícia, o investidor de MRV (MRVE3) deve permanecer atento aos riscos:
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Câmbio: A volatilidade do dólar afeta a conversão dos resultados.
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Juros Americanos: Se o Fed demorar a cortar juros, o mercado de Real Estate nos EUA pode continuar travado, dificultando novas vendas pela Resia.
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Execução: A MRV (MRVE3) precisa vender mais. US$ 18,3 milhões é um bom começo, mas é uma fração da meta de US$ 800 milhões.
Um Passo na Direção Certa
A conclusão da venda dos terrenos nos EUA por US$ 18,3 milhões é uma vitória tática importante para a MRV (MRVE3). Ela materializa a estratégia de defesa de caixa e demonstra que a gestão está agindo rápido para corrigir a rota da subsidiária internacional.
Em um ano que promete ser de recuperação para o setor de construção civil, a MRV (MRVE3) dá sinais de que está arrumando a casa para entregar valor aos seus acionistas. A operação brasileira é o motor, mas o saneamento da operação americana é o freio de mão que precisava ser solto. Com a venda de hoje, a MRV (MRVE3) solta um pouco mais esse freio e acelera rumo a um 2026 mais promissor.
A Gazeta Mercantil continuará acompanhando cada passo do plano de desinvestimentos da MRV (MRVE3) e seus impactos no mercado financeiro.






