As ações das principais construtoras negociadas na B3 dispararam nesta sexta-feira, 9 de outubro, em uma sessão marcada pela combinação de prévias operacionais do terceiro trimestre e nova queda dos juros futuros de longo prazo. Por volta das 11h54, a MRV (MRVE3) liderava o movimento com alta de 10,73%, a R$ 7,12, enquanto Cury (CURY3) avançava 6,77%, para R$ 33,61, e Tenda (TEND3) subia 6,14%, negociada a R$ 31,38. O setor voltou ao centro das atenções porque está entre os mais sensíveis às expectativas para juros no Brasil.
O movimento ocorreu mesmo depois de o IPCA de setembro subir 0,82%, acima da expectativa mediana dos analistas consultados pela Reuters, de 0,73%. Em condições normais, uma inflação acima do esperado tende a pressionar a curva de juros, pois reduz o espaço para cortes da Selic. Nesta sexta-feira, porém, a parte longa da curva operava em queda, refletindo principalmente a reavaliação do risco fiscal feita por investidores após novas pesquisas para o segundo turno presidencial.
Datafolha e AtlasIntel divulgaram levantamentos mostrando Flávio Bolsonaro (PL) numericamente à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Parte dos participantes do mercado tem associado uma eventual mudança de governo à possibilidade de uma política fiscal mais restritiva a partir de 2027, embora Flávio ainda não tenha apresentado um plano detalhado capaz de sustentar essa expectativa. A queda dos prêmios de longo prazo beneficiou diretamente as incorporadoras, cujos resultados e avaliações em Bolsa são fortemente influenciados pelo custo do crédito e pela taxa utilizada para trazer seus fluxos de caixa futuros a valor presente.
MRV sobe mais de 10% após vendas recordes
A MRV apresentou os números mais fortes de crescimento comercial entre as três empresas. A divisão de incorporação registrou vendas líquidas de R$ 3,037 bilhões no terceiro trimestre, avanço de 29,6% em relação ao mesmo período de 2025. Foram comercializadas 11.015 unidades, com preço médio de aproximadamente R$ 276 mil, alta de 3,1% na comparação anual.
A MRV&Co também informou geração consolidada de caixa de R$ 456 milhões no trimestre, resultado impulsionado pela monetização de ativos ligados à Resia e à Luggo e pela contribuição da Urba. A produção da incorporadora chegou a 11.258 unidades, outro indicador de manutenção de um ritmo operacional elevado.
O dado de caixa, entretanto, exige uma leitura mais detalhada. A greve dos funcionários da Caixa Econômica Federal afetou os repasses imobiliários no fim de setembro e, segundo a própria MRV, reduziu em aproximadamente R$ 80 milhões a geração de caixa que seria registrada pela operação de incorporação. O banco público desempenha papel central no financiamento dos compradores atendidos pela companhia, especialmente nos segmentos de habitação econômica.
A MRV Incorporação terminou o período com geração de caixa reportada de R$ 130 milhões. Em bases ajustadas, retirando determinados efeitos financeiros, o desempenho ficou muito mais próximo da estabilidade, o que explica por que analistas consideraram a prévia operacional positiva nas vendas, mas menos uniforme na geração recorrente de caixa.
Queda dos juros muda percepção sobre setor imobiliário
A força das ações nesta sexta-feira não pode ser explicada apenas pelos números trimestrais. As incorporadoras já vinham se beneficiando desde o primeiro turno da eleição da forte queda dos contratos de Depósito Interfinanceiro de vencimentos mais longos, utilizados pelo mercado como referência para as expectativas de juros nos próximos anos.
A relação é particularmente importante no setor imobiliário. Juros elevados encarecem o financiamento das famílias, aumentam o custo de capital das empresas e tornam investimentos de renda fixa mais competitivos em relação às ações. Também elevam a taxa utilizada pelo mercado para descontar os lucros que as construtoras poderão produzir no futuro, reduzindo o valor atribuído a esses resultados no presente.
Quando as taxas longas caem, o mecanismo funciona no sentido contrário. Mesmo que a Selic corrente não seja alterada imediatamente, uma redução relevante dos juros projetados para os próximos anos pode melhorar o valor atribuído às incorporadoras e alimentar uma reprecificação rápida das ações.
Foi esse efeito que permitiu ao setor subir mesmo diante de um IPCA acima das previsões. A inflação de setembro acumulou alta de 4,58% em 12 meses e voltou a reforçar a necessidade de cautela do Banco Central. No pregão, porém, investidores deram mais peso à percepção sobre o risco fiscal de longo prazo do que ao impacto imediato do indicador de preços.
Tenda vende R$ 1,29 bilhão, mas distratos aumentam
A Tenda encerrou o terceiro trimestre com vendas líquidas consolidadas de R$ 1,29 bilhão, crescimento de 4,4% na comparação anual. O resultado inclui a marca Tenda e a divisão Alea, dedicada a casas industrializadas.
Na operação principal, a companhia lançou 11 empreendimentos, somando R$ 1,52 bilhão em Valor Geral de Vendas, alta de 2,3% sobre o mesmo trimestre do ano passado. O preço médio das unidades lançadas atingiu R$ 271,2 mil, avanço de 15,7% e novo recorde da empresa. A Alea lançou outros três projetos, com VGV de R$ 119 milhões.
O ponto menos favorável foi o crescimento dos distratos. A relação entre cancelamentos e vendas brutas chegou a 19,5%, ante 12,5% no terceiro trimestre de 2025. Parte do aumento foi relacionada às dificuldades de transferência dos financiamentos em meio à greve da Caixa, que reduziu a velocidade dos repasses.
O efeito tende a ser especialmente importante para companhias concentradas no Minha Casa, Minha Vida, porque a Caixa ocupa uma posição dominante no financiamento dessa faixa do mercado. Quando o banco demora a concluir uma transferência, a unidade pode permanecer mais tempo no balanço da construtora e, em alguns casos, o comprador pode desistir da operação.
Cury mantém vendas fortes e gera R$ 253,6 milhões em caixa
A Cury também apresentou crescimento no terceiro trimestre. As vendas líquidas totais alcançaram R$ 2,035 bilhões, aumento de 11,4% em relação ao mesmo período do ano passado. Considerando apenas a participação econômica da companhia nos projetos, as vendas ficaram próximas de R$ 1,8 bilhão, expansão de 10,7%.
Os lançamentos totalizaram R$ 2,12 bilhões em VGV, crescimento anual de 6,9%, distribuídos por oito empreendimentos e 6.503 unidades. A parcela atribuível à Cury nos lançamentos somou aproximadamente R$ 1,86 bilhão.
A companhia encerrou o trimestre com geração operacional de caixa positiva de R$ 253,6 milhões, alta de 8,8% na comparação anual. O desempenho chamou a atenção porque a empresa conseguiu combinar crescimento de vendas com manutenção de caixa positivo mesmo diante dos problemas provocados pela paralisação da Caixa.
A velocidade de vendas bruta atingiu 43,6%, enquanto a VSO líquida ficou em 39,7%. A diferença reflete principalmente os cancelamentos de contratos, que também foram afetados pela menor velocidade dos repasses dos financiamentos.
Greve da Caixa distorce comparação do trimestre
A paralisação da Caixa aparece como um elemento comum nos números das construtoras voltadas ao segmento econômico. O efeito não ocorre necessariamente sobre a demanda por imóveis, mas sobre uma etapa importante da conclusão financeira das vendas.
Quando uma construtora fecha um contrato com um comprador que utilizará financiamento, parte relevante do dinheiro só entra efetivamente depois que o banco aprova e realiza o repasse. Se esse processo fica interrompido, a companhia pode apresentar boas vendas e, ao mesmo tempo, uma geração de caixa temporariamente inferior ao que seria esperado em condições normais.
Na MRV, a administração estimou diretamente um impacto de aproximadamente R$ 80 milhões no caixa do trimestre. Tenda e Cury também apontaram efeitos sobre transferências e distratos, embora o desempenho comercial tenha permanecido positivo.
Por isso, parte dos investidores está tratando os problemas observados em setembro como um choque operacional temporário, e não necessariamente como sinal de enfraquecimento da demanda. A confirmação dessa leitura dependerá da normalização dos repasses no quarto trimestre.
Construtoras estão entre as maiores beneficiadas pela queda dos DIs
A reação desta sexta-feira também mostra como as expectativas macroeconômicas podem se sobrepor aos dados individuais de cada empresa. MRV, Tenda e Cury apresentaram prévias diferentes, com pontos positivos e negativos específicos, mas todas avançaram fortemente no mesmo pregão.
Esse comportamento sugere que o fator setorial ganhou peso. A queda dos juros futuros reduz o custo de oportunidade de investir em ações e melhora a avaliação relativa das empresas que dependem de crédito para financiar seus clientes e projetos. Incorporadoras de baixa renda também podem se beneficiar indiretamente se juros menores ampliarem a capacidade de financiamento das famílias, embora as taxas efetivamente cobradas nos contratos dependam de outros fatores e das políticas habitacionais.
A relação não é automática. Uma redução dos DIs em poucos pregões não garante queda equivalente no custo dos financiamentos nem melhora imediata dos lucros das empresas. Para que a reprecificação das ações se sustente, o mercado precisará observar se a trajetória dos juros de longo prazo permanece mais baixa e se as companhias conseguem transformar as vendas atuais em geração de caixa e resultados.
Inflação e eleição colocam forças opostas sobre juros
O pregão desta sexta-feira tornou essa disputa particularmente evidente. Pela manhã, o IBGE informou que o IPCA subiu 0,82% em setembro, depois de uma deflação de 0,32% em agosto. Em 12 meses, a inflação acelerou para 4,58%.
O dado veio acima do consenso dos analistas e, isoladamente, tenderia a elevar os juros futuros. Ao mesmo tempo, duas pesquisas eleitorais divulgadas entre quinta e sexta-feira mostraram Flávio numericamente à frente de Lula no segundo turno, reforçando entre parte dos investidores a expectativa de mudança na condução fiscal a partir de 2027.
No Datafolha, Flávio registrou 52% dos votos válidos e Lula, 48%, com margem de erro de dois pontos percentuais. No AtlasIntel/Bloomberg, o senador apareceu com 52,8% dos válidos, contra 47,2% do presidente. São levantamentos realizados com metodologias e amostras diferentes e representam fotografias do momento das entrevistas, não previsões do resultado eleitoral.
O mercado financeiro, porém, ajusta preços à medida que essas informações alteram as probabilidades atribuídas pelos investidores aos diferentes cenários. Nesta sexta-feira, esse efeito foi suficiente para fazer a parte longa da curva de juros recuar mesmo diante da surpresa negativa da inflação.
Rali aumenta cobrança por resultados
A valorização das construtoras cria também uma exigência maior para os próximos balanços. À medida que os preços das ações incorporam expectativas de juros menores e melhora do ambiente econômico, aumenta a necessidade de as empresas confirmarem crescimento, geração de caixa e redução da alavancagem.
No caso da MRV, os R$ 456 milhões de geração consolidada e o salto de 29,6% nas vendas são os principais indicadores positivos, mas o mercado continuará acompanhando a qualidade do caixa da incorporação. Na Tenda, o aumento dos distratos e as condições de crédito da Caixa permanecem como pontos de atenção. A Cury chega ao período com vendas e geração de caixa mais consistentes, mas também depende da normalização dos repasses no segmento econômico.
O pregão desta sexta-feira, portanto, reúne dois movimentos distintos. As prévias do terceiro trimestre oferecem evidências concretas de crescimento das vendas, enquanto a queda dos juros futuros aumenta o valor que os investidores estão dispostos a pagar pelas expectativas de resultado dos próximos anos.
É essa combinação que colocou MRV, Tenda e Cury entre as maiores altas do mercado. O teste seguinte será verificar se a melhora da curva de juros continuará e se os números financeiros do terceiro trimestre, quando forem divulgados integralmente, confirmarão o otimismo que já chegou aos preços das ações.
Fontes:
MRV&Co — prévia operacional do terceiro trimestre de 2026
Construtora Tenda — prévia operacional do terceiro trimestre de 2026
Cury Construtora e Incorporadora — prévia operacional do terceiro trimestre de 2026
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo de setembro de 2026
Datafolha — pesquisa de intenção de voto para o segundo turno das eleições de 2026
AtlasIntel/Bloomberg — pesquisa de intenção de voto para o segundo turno das eleições de 2026








