Ex-presidente do BRB demonstrou preocupação com quebra do Master em meio a negociações bilionárias
A investigação conduzida pela Polícia Federal (PF) sobre operações financeiras envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master trouxe à tona novos elementos que reforçam a complexidade e a gravidade do caso. Uma anotação apreendida durante diligências no banco público revelou que o então presidente da instituição, Paulo Henrique Costa, expressou preocupação explícita com uma possível insolvência do Master, banco privado que mantinha negociações avançadas com o BRB.
O conteúdo da anotação, posteriormente citado em depoimento à PF, indica que a compra de carteiras de crédito do Master pelo BRB era tratada como medida necessária para evitar a quebra da instituição privada. O episódio ocorreu em um contexto de forte escrutínio regulatório, suspeitas de fraude bilionária e intervenção direta do Banco Central (BC), culminando na liquidação do Master e na prisão de seu controlador.
Anotação apreendida e alerta interno
De acordo com os autos da investigação, a anotação apreendida fazia referência a uma reunião estratégica para discutir a aquisição de carteiras de crédito do Master. O texto atribuído ao ex-presidente do BRB indicava que a continuidade das compras seria fundamental para a sobrevivência do banco privado.
O trecho destacado pela PF aponta que “faz-se necessário efetuar as compras de carteiras”, sob o argumento de que os créditos teriam sido previamente verificados e que, sem essas operações, o Master enfrentaria uma situação de colapso financeiro. A frase passou a ser um dos pontos centrais da apuração, por sugerir possível atuação do banco público como mecanismo de sustentação indireta de uma instituição privada em dificuldades.
A preocupação com a quebra do Master aparece, portanto, não apenas como uma leitura de risco de mercado, mas como um fator que influenciava decisões estratégicas de grande impacto financeiro.
Operação Compliance Zero e atuação da PF
A apreensão da anotação ocorreu em novembro, durante a deflagração da Operação Compliance Zero, conduzida pela PF. A ação foi desencadeada dois meses após o Banco Central rejeitar formalmente a venda do Banco Master para o BRB, operação que havia sido anunciada publicamente como um movimento de expansão do banco estatal.
A investigação ganhou força após o BC identificar inconsistências relevantes nas carteiras de crédito envolvidas. Segundo a autoridade monetária, havia indícios de fraude em um volume estimado em R$ 12,2 bilhões pagos pelo BRB, o que levou à determinação de substituição dos ativos e à revisão completa das operações.
O caso da quebra do Master passou, então, a ser analisado sob a ótica da governança, do risco sistêmico e do uso de recursos de uma instituição controlada pelo governo do Distrito Federal.
Depoimento e linha de defesa do ex-presidente
Chamado a depor no fim do ano passado, Paulo Henrique Costa foi questionado diretamente sobre o teor da anotação. Em sua defesa, o ex-presidente do BRB afirmou que a declaração não poderia ser interpretada como uma tentativa de “salvar” o Master.
Segundo ele, o contexto da anotação estava relacionado ao processo de substituição das carteiras de crédito, que já havia sido determinado pelo Banco Central. Costa sustentou que a intenção era ganhar tempo para que essa substituição ocorresse de forma ordenada, minimizando riscos ao próprio BRB.
Em seu depoimento, o executivo afirmou que, na condição de gestor máximo do banco público, sua prioridade era proteger a instituição e garantir que as operações fossem concluídas dentro de parâmetros aceitáveis de segurança. Ainda assim, a menção explícita à quebra do Master reforçou as suspeitas de que a situação financeira do banco privado já era considerada crítica à época.
Estratégia de expansão do BRB
Outro ponto abordado por Costa em seu depoimento foi a estratégia de crescimento do BRB. Ao assumir a presidência da instituição, em 2019, ele encontrou um banco com atuação concentrada no Distrito Federal e pouca relevância no mercado nacional.
Segundo o ex-presidente, a aproximação com o Master surgiu como uma oportunidade para acelerar a expansão do BRB em segmentos nos quais o banco público não possuía presença competitiva, como o atendimento a médias e grandes empresas e a atuação no mercado de capitais.
A aquisição de carteiras e a tentativa de compra do controle do Master faziam parte dessa estratégia. No entanto, o avanço das investigações revelou que a fragilidade do banco privado era maior do que se supunha inicialmente, culminando no risco concreto de quebra do Master.
Negociação bilionária e retirada de ativos
A operação de compra do Master foi anunciada em março, com valor estimado em R$ 2 bilhões. No decorrer das negociações, porém, surgiram questionamentos sobre a qualidade e a veracidade dos ativos incluídos no negócio.
Com o aprofundamento da análise regulatória e o surgimento de suspeitas de fraude, mais de R$ 50 bilhões em ativos acabaram sendo retirados da operação. O movimento esvaziou significativamente a transação e evidenciou a deterioração da situação financeira do Master.
O cenário reforçou o alerta interno já manifestado anteriormente sobre a possibilidade de quebra do Master, agora confirmada pelas autoridades monetárias.
Liquidação do Master e consequências
Em 18 de novembro, o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master, encerrando definitivamente suas operações. A decisão foi tomada diante da incapacidade da instituição de honrar compromissos e da constatação de irregularidades graves em suas carteiras.
O controlador do banco, Daniel Vorcaro, foi preso no contexto das investigações e, posteriormente, passou a utilizar tornozeleira eletrônica. O caso ganhou grande repercussão no mercado financeiro, levantando debates sobre fiscalização, governança e responsabilidade de gestores.
A quebra do Master tornou-se um símbolo dos riscos associados a operações complexas envolvendo instituições públicas e privadas, especialmente quando há falhas de controle e supervisão.
Impactos institucionais e questionamentos
O episódio gerou questionamentos profundos sobre o papel do BRB, a atuação de seus dirigentes e os limites da expansão de bancos públicos em mercados altamente competitivos. A utilização de recursos públicos em operações que, direta ou indiretamente, poderiam sustentar instituições privadas em dificuldade passou a ser amplamente debatida.
A anotação apreendida pela PF é vista por investigadores como um indício relevante de que a situação do Master era conhecida internamente e que havia preocupação concreta com sua solvência. Mesmo com as explicações apresentadas, o tema da quebra do Master permanece central na investigação.
Governança e lições para o sistema financeiro
O caso reforça a importância de estruturas robustas de governança, compliance e gestão de riscos, especialmente em bancos controlados pelo poder público. A tentativa de expansão acelerada, quando não acompanhada de controles rigorosos, pode expor instituições a riscos elevados e comprometer sua credibilidade.
A atuação do Banco Central, ao barrar a operação e determinar a substituição de ativos, foi decisiva para conter danos maiores ao sistema financeiro. Ainda assim, o episódio deixa lições relevantes sobre a necessidade de transparência e diligência em operações bilionárias.
A quebra do Master, associada às suspeitas de fraude e às decisões estratégicas do BRB, continuará sendo analisada como um dos casos mais emblemáticos do setor bancário recente.






