Ibovespa hoje opera atento a juros na Europa, dados de emprego nos EUA e balanço do Bradesco
O mercado financeiro brasileiro inicia os negócios desta quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026, sob forte expectativa em relação ao cenário macroeconômico internacional e à continuidade da temporada de balanços corporativos domésticos. O desempenho do Ibovespa hoje depende diretamente da digestão, por parte dos investidores, das decisões de política monetária do Banco Central Europeu (BCE) e dos novos dados sobre o mercado de trabalho nos Estados Unidos. No front interno, a atenção se volta para a divulgação da balança comercial e, após o fechamento do pregão, para os números do Bradesco, que podem ditar o rumo do setor financeiro nos próximos dias.
Na sessão anterior, o principal índice da bolsa brasileira registrou uma retração expressiva de 2,14%, encerrando aos 181.708,23 pontos. O movimento de correção foi impulsionado por uma combinação de aversão ao risco fiscal e resultados trimestrais que levantaram dúvidas sobre a saúde da carteira de crédito dos grandes bancos, em um ambiente de taxa Selic a 15% ao ano. A agenda desta quinta-feira carrega o potencial de oferecer novos vetores de direção ou aprofundar a cautela observada na véspera.
Decisão do BCE e a sinalização de Christine Lagarde
O ponto focal da manhã na Europa é a decisão de política monetária do Banco Central Europeu. A autoridade monetária da zona do euro define os novos rumos das taxas de juros, um evento que tradicionalmente provoca volatilidade nos mercados globais, afetando o fluxo de capitais para países emergentes como o Brasil. A decisão, aguardada para as 10h15 (horário de Brasília), vem acompanhada de grande expectativa quanto ao comunicado oficial e, principalmente, à entrevista coletiva da presidente da instituição, Christine Lagarde.
Investidores monitoram cada palavra de Lagarde em busca de pistas sobre os próximos passos do ciclo monetário europeu. A manutenção ou alteração das taxas de juros na Europa altera a atratividade dos títulos de dívida do velho continente em comparação aos Treasuries americanos e aos títulos de mercados emergentes. Para o Ibovespa hoje, uma postura mais dura (hawkish) do BCE poderia significar uma redução na liquidez global, pressionando ativos de risco. Por outro lado, uma sinalização de flexibilização monetária poderia destravar fluxos de investimento, beneficiando commodities e ações de países em desenvolvimento.
A economia europeia tem apresentado sinais mistos de atividade e inflação persistente em certos setores, o que torna a decisão desta quinta-feira particularmente complexa. O mercado busca entender se o BCE priorizará o combate à inflação ou o estímulo ao crescimento econômico, uma dicotomia que tem pautado as discussões entre os dirigentes do banco central. A reação do euro frente ao dólar será um termômetro imediato dessa interpretação, com reflexos diretos na cotação do dólar frente ao real.
Mercado de trabalho nos EUA: Jolts e o radar do Fed
Nos Estados Unidos, a agenda econômica é dominada pelos indicadores de emprego, variáveis cruciais para as decisões do Federal Reserve (Fed). O relatório Jolts (Job Openings and Labor Turnover Survey), referente ao mês de dezembro, será divulgado às 12h00 e deve mostrar o número de vagas em aberto na maior economia do mundo. A projeção de consenso aponta para 7,175 milhões de vagas, um leve aumento em relação aos 7,146 milhões do mês anterior.
O Jolts é monitorado de perto pelos dirigentes do Fed como um indicador da demanda por mão de obra. Um número muito acima do esperado poderia indicar que o mercado de trabalho continua aquecido, pressionando salários e, consequentemente, a inflação. Isso reforçaria a tese de que os juros americanos precisam permanecer elevados por mais tempo, o que tende a ser negativo para o Ibovespa hoje, pois fortalece o dólar e drena recursos de bolsas emergentes.
Simultaneamente, às 10h30, são divulgados os pedidos semanais de auxílio-desemprego, com previsão de 211 mil solicitações, frente às 209 mil da semana anterior. Estes dados ganham relevância adicional após o relatório ADP, divulgado na quarta-feira, ter mostrado a criação de apenas 22 mil vagas no setor privado em janeiro de 2026 — um número drasticamente abaixo das expectativas. Essa divergência nos dados cria um cenário de incerteza: enquanto o ADP sugere um esfriamento agudo, o Jolts pode indicar resiliência. A leitura cruzada desses indicadores será determinante para as apostas na curva de juros americana e para o comportamento dos ativos de risco globais.
O setor bancário e a repercussão dos resultados do Santander
No cenário doméstico, o setor financeiro continua sendo o protagonista, ainda repercutindo os números apresentados pelo Santander Brasil. O banco abriu a temporada de balanços do quarto trimestre de 2025 com um lucro recorde de R$ 4,1 bilhões. No entanto, o mercado reagiu negativamente à qualidade desse resultado, focando no aumento das provisões para devedores duvidosos e na elevação da inadimplência.
A reação intempestiva das ações do setor na sessão de quarta-feira, que puxou o Ibovespa hoje para baixo, reflete o receio de que o cenário de juros altos — com a Selic estacionada em 15% ao ano — esteja deteriorando a capacidade de pagamento das famílias e empresas de forma mais acelerada do que o previsto. O lucro contábil, embora robusto, foi ofuscado pela prudência dos investidores quanto à sustentabilidade das margens bancárias em um ambiente de crédito restrito.
Essa cautela contaminou os papéis de outros grandes bancos, como Itaú Unibanco e Bradesco, criando um efeito dominó na bolsa brasileira. O setor financeiro possui o maior peso na composição do índice, e qualquer oscilação negativa nesse segmento tem o poder de anular ganhos em outros setores, como commodities ou varejo. A análise detalhada das linhas de balanço do Santander serviu como um “aviso” para o mercado, que agora exige prêmios de risco maiores para manter posições no setor bancário.
Expectativa pelo balanço do Bradesco e projeções de mercado
É neste clima de apreensão que o mercado aguarda, para após o fechamento do pregão desta quinta-feira, a divulgação dos resultados do Bradesco referentes ao quarto trimestre de 2025. A projeção média dos analistas aponta para um lucro líquido na casa de R$ 6,4 bilhões. Mais do que o número final, o foco estará na qualidade da carteira de crédito, nas despesas com provisões (PDD) e no guidance (projeções) para o ano de 2026.
O desempenho das ações do Bradesco durante o pregão regular do Ibovespa hoje deve refletir um posicionamento defensivo dos investidores. Se o mercado antecipar que os problemas de inadimplência observados no Santander são sistêmicos, o papel poderá sofrer pressão vendedora mesmo antes da divulgação oficial. Por outro lado, uma leitura de que o Bradesco possui uma carteira mais defensiva ou garantida poderia trazer algum alívio.
O resultado do Bradesco é considerado um divisor de águas para a temporada. Caso os números venham em linha ou acima do esperado, com controle de inadimplência, isso poderia estancar a sangria do setor bancário iniciada na véspera. Contudo, uma decepção nos números ou nas projeções poderia reforçar a tese de que 2026 será um ano desafiador para a rentabilidade dos bancos brasileiros, exigindo revisões para baixo no preço-alvo das ações e pressionando o índice Ibovespa no curto prazo.
Cenário fiscal e ruídos políticos pressionam o prêmio de risco
Além da microeconomia dos balanços, a macroeconomia brasileira impõe desafios adicionais ao Ibovespa hoje. O mercado segue digerindo as recentes aprovações de medidas que elevam os gastos públicos, gerando dúvidas sobre a trajetória da dívida bruta e o cumprimento das metas fiscais. A percepção de risco fiscal elevado é o principal fator para a manutenção da taxa Selic em patamares de 15%, um nível contracionista que encarece o investimento produtivo e o consumo.
A incerteza é amplificada por ruídos políticos envolvendo a sucessão e indicações para diretorias do Banco Central. A autonomia da autoridade monetária é vista pelos investidores como um pilar fundamental para a ancoragem das expectativas de inflação. Qualquer sinalização de interferência política ou de indicações que não sigam critérios estritamente técnicos tende a elevar a curva de juros futuros (DI), encarecendo o custo do dinheiro e penalizando o mercado de ações.
Na sessão de quarta-feira, a curva de juros abriu, refletindo esse prêmio de risco. Para hoje, a atenção continua voltada para Brasília. Declarações de membros da equipe econômica ou do Executivo sobre a condução da política fiscal podem gerar volatilidade intradia. O mercado exige clareza sobre como o governo pretende equilibrar as contas públicas diante do aumento de despesas aprovado, e a ausência de um plano concreto de corte de gastos mantém os investidores locais na defensiva.
Balança comercial e fluxo cambial
Na agenda de indicadores domésticos, o destaque é a divulgação da balança comercial de janeiro pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), prevista para as 15h00. A projeção de mercado aponta para um superávit de US$ 4,8 bilhões. Embora seja um resultado positivo, ele representa uma desaceleração em relação ao superávit de US$ 9,63 bilhões registrado no período anterior, refletindo a sazonalidade e a dinâmica dos preços das commodities.
Os dados da balança são fundamentais para entender o fluxo de entrada de dólares no país. Um superávit robusto ajuda a conter a valorização da moeda americana frente ao real, atuando como um contrapeso às pressões externas e fiscais. O comportamento das exportações, especialmente do complexo soja e minério de ferro, será analisado de perto para avaliar a resiliência do setor externo brasileiro diante de uma possível desaceleração global.
Para o operador de câmbio e para o investidor do Ibovespa hoje, a balança comercial oferece pistas sobre a liquidez cambial. Se os números surpreenderem positivamente, podem oferecer algum alívio para a cotação do dólar, reduzindo a pressão inflacionária via produtos importados e permitindo, em tese, um cenário menos tenso para a política monetária futura. Caso contrário, um resultado fraco poderia somar-se às preocupações fiscais, pressionando o real.
Perspectivas para a sustentabilidade do nível de 180 mil pontos
O fechamento recente aos 181.708 pontos coloca o índice em uma zona de suporte técnico importante. A perda deste patamar poderia desencadear ordens de venda automáticas (stop loss), acelerando a correção para níveis inferiores. A capacidade do Ibovespa hoje de se sustentar acima dos 180 mil pontos dependerá crucialmente da blindagem do mercado doméstico aos ruídos externos e da recepção aos dados corporativos.
Analistas gráficos e fundamentais observam que, apesar dos lucros nominais crescentes das empresas, o valuation (preço justo) das ações brasileiras está sendo comprimido pelo custo de oportunidade da renda fixa. Com a Selic a 15%, o prêmio exigido para migrar para a renda variável é alto. Para que a bolsa volte a atrair capital estrangeiro e local de forma consistente, é necessário não apenas resultados corporativos sólidos, mas uma sinalização clara de convergência fiscal e inflacionária que permita vislumbrar o início de um ciclo de corte de juros.
O desdobramento da sessão desta quinta-feira servirá como um teste de estresse para a confiança do investidor. A combinação da decisão do BCE, dos dados de emprego americanos e do balanço do Bradesco cria um “tripé” de eventos que ditará a volatilidade. Se o cenário externo for benigno e o balanço do banco agradar, há espaço para uma recuperação técnica. Entretanto, a fragilidade demonstrada na véspera indica que o mercado está sensível e com baixa tolerância a notícias negativas, mantendo o viés de cautela como a tônica dominante no curto prazo.






