Daniel Vorcaro se desfez de frota aérea antes da prisão e reorganizou holding de aeronaves sob pressão de investigações
A decisão de Daniel Vorcaro de se desfazer do controle de sua principal holding de aeronaves às vésperas de ser preso pela Polícia Federal passou a ser analisada com atenção redobrada por investigadores e agentes do mercado financeiro. O movimento, formalizado apenas dois meses antes da detenção do ex-banqueiro, envolve a venda de 55% da Viking Participações, empresa responsável por ativos aéreos de alto valor, incluindo um jato executivo estimado em cerca de R$ 200 milhões.
A operação ocorreu em setembro de 2025, período em que o cerco institucional ao grupo empresarial de Daniel Vorcaro já se intensificava. Àquela altura, o Banco Master, instituição associada ao empresário, enfrentava uma crise profunda, marcada pelo veto do Banco Central à sua venda ao BRB e pela abertura de inquérito policial para apurar possíveis irregularidades.
A cronologia da venda e o contexto da prisão
Os registros oficiais indicam que a transferência do controle da Viking Participações foi concluída quando Daniel Vorcaro já se encontrava sob crescente pressão das autoridades. O negócio envolveu a venda de participação majoritária para o Stern Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia, administrado pela Reag, gestora com atuação relevante no mercado de ativos alternativos.
A coincidência temporal chamou a atenção dos investigadores: era justamente uma das aeronaves da Viking, um Falcon 7X, que Daniel Vorcaro planejava utilizar em uma viagem internacional no dia 17 de novembro de 2025. A viagem não ocorreu. Naquela data, o ex-banqueiro foi preso, permanecendo detido por 12 dias antes de ser solto.
Para autoridades que acompanham o caso, a reorganização societária da Viking e a alienação da frota aérea ocorreram em um momento sensível, quando o risco de medidas cautelares e bloqueios patrimoniais já era considerado elevado.
A Viking Participações no centro da estrutura patrimonial
Fundada em 2006, a Viking Participações sempre ocupou papel estratégico na estrutura empresarial de Daniel Vorcaro. A holding não apenas concentrava a propriedade de aeronaves de alto valor, como também funcionava como peça relevante na engrenagem patrimonial do grupo.
Além do Falcon 7X, a empresa detinha outras aeronaves executivas, utilizadas tanto para deslocamentos pessoais quanto para fins corporativos. A relevância desses ativos explica o interesse das autoridades em compreender os termos da venda e a efetiva transferência de controle da companhia.
O valor da transação, contudo, permanece desconhecido. Não há informações públicas sobre o montante pago pelo fundo Stern, o que amplia as dúvidas sobre as condições financeiras do negócio e seus reflexos patrimoniais para Daniel Vorcaro.
Mudança na governança e afastamento formal
Além da venda da participação majoritária, Daniel Vorcaro promoveu uma mudança relevante na governança da Viking. Ele renunciou formalmente ao cargo de administrador e indicou um administrador não-sócio para comandar a holding.
O nome escolhido foi Adriano Garzon Correa, personagem até então fora do radar do mercado financeiro. Seu histórico inclui participação em empresas já extintas, entre elas um escritório de despachante em Minas Gerais. A nomeação foi interpretada como mais um passo no distanciamento formal de Daniel Vorcaro da gestão direta dos ativos aéreos.
Apesar das tentativas de contato, o novo administrador não se manifestou publicamente sobre a reestruturação societária ou sobre sua atuação à frente da Viking.
A versão da defesa de Daniel Vorcaro
A defesa de Daniel Vorcaro sustenta uma narrativa distinta da apresentada por investigadores. Em nota, os advogados afirmam que o ex-banqueiro ainda seria o controlador da Viking Participações, alegando que a venda da participação majoritária foi acordada ainda em 2024.
Segundo essa versão, os registros realizados ao longo de 2025 na Junta Comercial de Minas Gerais seriam apenas desdobramentos burocráticos necessários para formalizar um acordo pré-existente. A defesa também afirma que a transação seguiu critérios comerciais regulares e que Daniel Vorcaro mantém disposição para colaborar com todas as investigações em curso.
Essa divergência entre a leitura jurídica da defesa e a interpretação das autoridades amplia a complexidade do caso e tende a prolongar a análise dos documentos societários da holding.
Histórico de questionamentos regulatórios
A Viking Participações carrega um histórico que vai além do episódio mais recente. A empresa é citada em um processo administrativo aberto em 2020 pela CVM, relacionado a supostas irregularidades em um fundo imobiliário fechado.
Nesse processo, Daniel Vorcaro aparece como responsável pelo Banco Máxima, posteriormente rebatizado como Banco Master. Seu pai, Henrique Vorcaro, também figura entre os investigados, em conexão com outra empresa do grupo.
Esses antecedentes reforçam o interesse das autoridades em mapear a trajetória da Viking e compreender seu papel dentro do conjunto de negócios associados a Daniel Vorcaro.
Endereço comum e conexões empresariais
A sede da Viking, localizada na avenida Raja Gabaglia, em Belo Horizonte, é compartilhada por outras empresas ligadas ao universo empresarial de Daniel Vorcaro. Entre elas estão a Vinc e a FSW, companhias que também aparecem em diferentes frentes de investigação.
A FSW, por sua vez, possui como sócias a agência de turismo Belvitur e a Moriah, empresa ligada ao pastor Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. Zettel foi alvo de uma fase da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, e chegou a ser preso ao tentar deixar o país, sendo liberado horas depois.
Essas conexões ampliam o alcance das investigações e ajudam a explicar o interesse das autoridades em reconstruir a rede de relações empresariais do ex-banqueiro.
Uso da Viking em operações imobiliárias
Além da frota aérea, a Viking Participações também foi utilizada em operações imobiliárias que ganharam destaque público. Um dos episódios mais sensíveis envolve a doação de um apartamento avaliado em R$ 4,4 milhões a uma mulher que se apresentava publicamente como “sugar baby”.
A operação foi realizada por meio da estrutura da Viking e chamou a atenção pelo valor elevado e pela proximidade temporal com outros movimentos patrimoniais relevantes. O imóvel havia sido adquirido meses antes de uma empresa ligada ao pastor Fabiano Zettel, reforçando a percepção de circulação de ativos dentro de um mesmo círculo empresarial.
Para investigadores, essas transações ajudam a compor o mosaico patrimonial associado a Daniel Vorcaro, ainda que muitas delas não tenham valores divulgados oficialmente.
Silêncio da gestora e pontos em aberto
A Reag, gestora responsável pelo fundo Stern, não se manifestou publicamente sobre a aquisição da participação na Viking. O silêncio da gestora contribui para a falta de clareza sobre os objetivos do investimento e sobre o grau de influência efetiva do fundo na administração da holding.
Da mesma forma, não há informações detalhadas sobre eventuais cláusulas de governança, opções de recompra ou condições suspensivas associadas ao negócio. Esses pontos são considerados cruciais para determinar se Daniel Vorcaro manteve ou não influência relevante sobre os ativos após a venda formal.
Repercussões no mercado e próximos passos
O caso envolvendo Daniel Vorcaro e a venda da Viking Participações segue repercutindo no mercado financeiro e no meio jurídico. A combinação de crise bancária, investigações policiais e reorganização patrimonial coloca o episódio como um dos mais emblemáticos do setor financeiro brasileiro recente.
Para analistas, a apuração sobre a efetiva transferência de controle da holding de aeronaves será determinante para avaliar possíveis responsabilidades patrimoniais e eventuais medidas cautelares adicionais.
Investigações avançam sobre ativos de alto valor
À medida que as investigações avançam, a atenção se concentra nos ativos de maior valor associados a Daniel Vorcaro, especialmente aqueles que poderiam ser utilizados para garantir ressarcimentos ou cumprir decisões judiciais futuras. A frota aérea, pela sua liquidez e valor elevado, ocupa posição central nesse debate.
O desfecho da análise sobre a Viking Participações tende a influenciar não apenas o caso específico do ex-banqueiro, mas também a forma como operações semelhantes serão observadas pelas autoridades em situações de crise empresarial e institucional.






