Gestoras de cripto se adaptam à queda do bitcoin e reforçam estratégia para proteger ativos
O mercado de criptomoedas segue enfrentando um período de volatilidade intensa, e as gestoras especializadas em criptoativos no Brasil têm buscado estratégias robustas para não encolher junto com o bitcoin. A desvalorização do ativo digital desde o último trimestre de 2025 impactou diretamente o patrimônio líquido de fundos de investimento atrelados a criptomoedas, mas também trouxe lições importantes sobre disciplina financeira, gestão de caixa e adaptação do perfil do investidor.
Mesmo com a queda no preço do bitcoin, as gestoras brasileiras têm mostrado resiliência, ajustando suas operações para proteger receitas, otimizar portfólios e manter o interesse dos investidores, tanto do varejo quanto institucionais, em seus produtos. Este cenário evidencia a necessidade de abordagem estratégica, diversificação e educação financeira, elementos fundamentais para sobreviver em mercados voláteis como o das criptomoedas.
Hashdex: educação do investidor e robustez financeira
A Hashdex, maior gestora de criptos do Brasil, com R$ 4,87 bilhões em Assets under Management (AuM) e mais de 341 mil investidores, tem ajustado suas operações diante das oscilações do bitcoin. Entre maio e agosto de 2025, meses em que a cripto disparava, os fundos da casa registraram resgates, enquanto a captação voltou a crescer a partir de outubro, quando a moeda digital começou a cair.
“O que estamos vendo é que a nossa base de clientes acredita na tese e está rebalanceando a alocação. Mas tentamos ser bem conservadores na gestão do nosso caixa para ter uma posição financeira bem robusta, independentemente do cenário de preço de cripto”, afirmou Samir Kerbage, CIO da Hashdex.
A gestora também tem aproveitado esse período para revisar seu portfólio de produtos. Alguns fundos, que já completam mais de três anos, passam por ajustes para alinhar a oferta com o perfil atual dos investidores, que migraram do varejo para institucionais, com maior tolerância a flutuações de mercado e foco em estratégias de longo prazo.
QR Asset: diversificação e ETFs como estratégia
Outra gestora de destaque no mercado cripto é a QR Asset, que administra R$ 650 milhões em AuM e atende cerca de 50 mil investidores. A casa concentra seu portfólio em Exchange Traded Funds (ETFs), atrelados a índices de criptomoedas, além de fundos de gestão ativa que seguem modelos quantitativos.
Segundo Theodoro Fleury, sócio e gestor de investimentos da QR Asset, os fundos de gestão ativa conseguiram mitigar parte da queda do bitcoin, apresentando desvalorização menor do que a observada no mercado: enquanto o BTC caiu cerca de 30% em 2026, o produto caiu apenas 10%.
“Sempre fomos uma casa enxuta, muito responsáveis do lado do custo, o que ajuda muito em momentos como esse de mercado. O que temos tentado fazer para mitigar o risco é alavancar a captação dos fundos de gestão ativa, dado que os modelos estão funcionando, para que essa parte seja um percentual maior do todo. E, assim, nos dar maior margem de segurança”, disse Fleury.
A estratégia de diversificação, associada à disciplina financeira, permite que a QR Asset continue a gerar receita mesmo em um cenário de baixa do bitcoin, enquanto reforça a sustentabilidade do negócio frente à volatilidade histórica das criptomoedas.
Entendendo o momento: bear market ou inverno cripto?
O mercado de criptoativos, especialmente o bitcoin, tem apresentado quedas expressivas desde 2025, levantando dúvidas sobre a possibilidade de um novo “inverno cripto”. Esse termo é usado pela indústria para descrever períodos prolongados de baixa consecutiva, nos quais os ativos digitais não conseguem recuperar valor e a confiança dos investidores é testada.
No entanto, especialistas das gestoras brasileiras alertam que o cenário atual não se compara ao do último inverno cripto de 2022, quando o bitcoin caiu para US$ 16 mil após bater US$ 69 mil em 2021, e a indústria enfrentou crises graves como a quebra da corretora FTX e o colapso da stablecoin Luna.
Segundo Samir Kerbage, da Hashdex, “é preciso fazer uma distinção técnica entre um inverno cripto e um bear market. Estamos definitivamente em um mercado de baixa, mas a infraestrutura do mercado e os fundamentos seguem robustos, a adoção institucional não parou, assim como a evolução regulatória”.
Theodoro Fleury, da QR, reforça que o momento atual não implica ostracismo da indústria. Apesar da queda do bitcoin, o apetite por criptoativos continua, e os investidores institucionais mantêm sua presença, diferenciando este período de uma fase de estagnação ou colapso do setor.
Ciclos do bitcoin e impacto no mercado
Historicamente, o bitcoin segue ciclos de quatro anos, ligados ao halving, evento que reduz pela metade a recompensa dos mineradores e cria escassez do ativo. Após o halving, o ativo tende a experimentar altas expressivas até alcançar o pico do ciclo, seguido por desvalorizações que se estendem até o próximo evento de escassez.
O último halving ocorreu em 2024, e a cotação recorde do bitcoin chegou a US$ 126 mil cerca de 76 semanas após o evento, dentro da lógica cíclica observada desde 2016. A atual baixa de preço se insere nesse contexto histórico, sendo considerada uma correção natural do ciclo e não necessariamente indicativa de um inverno cripto prolongado.
“O bitcoin caiu sozinho agora, enquanto todos os outros ativos tidos como reserva de valor estão batendo recordes. Dá a impressão de que a queda aconteceu por motivos próprios e não por fatores macro”, explicou Fleury. Essa visão reforça que, apesar da volatilidade, a cripto mantém fundamentos sólidos, apoiados na adoção institucional e em avanços regulatórios.
Rebalanceamento de portfólio e comportamento do investidor
Outro fator que contribui para a resiliência das gestoras é a mudança de perfil do investidor. Nos últimos anos, o mercado de criptomoedas migrou do varejo para os investidores institucionais, que utilizam a volatilidade como oportunidade para realizar lucros e rebalancear portfólios.
Na Hashdex, clientes têm aproveitado a queda do bitcoin para comprar na baixa e vender na alta, ajustando posições de acordo com a oscilação do mercado. “O feedback que temos dos clientes é de que nada mudou na tese, eles continuam acreditando, apenas fizeram um rebalanceamento das posições para colocar parte do lucro no bolso”, comentou Kerbage.
Esse comportamento mostra maturidade do mercado e destaca a importância da educação financeira, da gestão de risco e da disciplina na manutenção da estratégia de investimentos em criptomoedas.
Perspectivas para gestoras de cripto
O momento atual reforça a necessidade de gestão conservadora, diversificação e inovação no mercado de criptoativos. Gestoras como Hashdex e QR Asset demonstram que é possível proteger receitas, manter captação e preservar confiança dos investidores mesmo em períodos de baixa do bitcoin.
A consolidação de produtos, revisão de portfólio e adoção de estratégias de gestão ativa e ETFs são práticas essenciais para que as casas continuem a crescer, mesmo quando o preço do bitcoin oscila negativamente. O foco em liquidez, fluxo de caixa robusto e comunicação clara com investidores são diferenciais que sustentam a operação das gestoras brasileiras frente à volatilidade histórica das criptomoedas.
O papel do mercado regulatório e da adoção institucional
Outro fator crítico para a sustentabilidade do mercado de cripto no Brasil é a evolução regulatória e o aumento da adoção institucional. Diferente de ciclos anteriores, em que quedas profundas do bitcoin levaram à retração de fundos e redução de investimentos, hoje a infraestrutura está mais madura, e a participação institucional fortalece a liquidez e a estabilidade do mercado.
Essa maturidade permite que gestoras possam planejar a longo prazo, mantendo produtos disponíveis, inovando em estratégias de gestão de risco e continuando a captar recursos, mesmo em momentos de baixa dos preços das criptomoedas.
Cenário futuro do bitcoin e do mercado cripto brasileiro
Embora o bitcoin tenha apresentado queda significativa desde 2025, o mercado brasileiro de criptomoedas continua a demonstrar resiliência. As gestoras têm capacidade de adaptação, o que garante que fundos possam seguir operando de forma eficiente, protegendo investidores e mantendo a atratividade do setor.
Especialistas acreditam que o momento atual é uma correção cíclica e não o início de um novo inverno cripto prolongado. Com a combinação de gestão ativa, educação financeira, disciplina e diversificação, o mercado brasileiro se posiciona de forma estratégica para enfrentar volatilidades futuras do bitcoin e de outros criptoativos.
O cenário reforça que, mesmo em períodos de baixa, a indústria de criptomoedas apresenta oportunidades para investidores institucionais e de varejo que entendem os ciclos do bitcoin, valorizam a análise de risco e buscam retornos consistentes no médio e longo prazo.





