Pela primeira vez na história, um F-35 — o caça furtivo de quinta geração considerado o mais avançado do arsenal americano — foi atingido durante operações de combate sobre o Irã. O incidente representa uma ruptura simbólica e estratégica sem precedentes na guerra iniciada pelos EUA e Israel contra a teocracia iraniana.
O incidente que mudou o cálculo da guerra
Era o 20º dia de guerra quando a notícia chegou ao mundo com o impacto de uma onda de choque. Um F-35, o caça de quinta geração que os Estados Unidos apresentam ao mundo como símbolo de invulnerabilidade tecnológica, foi atingido em combate sobre o espaço aéreo do Irã. O piloto conseguiu pousar a aeronave avariada em segurança, em um ponto não identificado no Oriente Médio, mas o dano simbólico — e possivelmente estratégico — já estava feito.
O incidente foi revelado pela rede CNN. Tim Hawkins, porta-voz do Comando Central das Forças Armadas americanas (CENTCOM), confirmou o episódio com contenção: declarou apenas que “o incidente está sob investigação”. Em Washington, no entanto, a reverberação foi imediata. A hipótese mais provável é de que o F-35 tenha sido atingido por fogo antiaéreo iraniano — exatamente o tipo de cenário que tanto Donald Trump quanto o primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu afirmavam categoricamente ser impossível, dada a alegada supremacia absoluta da coalizão americano-israelense nos céus do conflito.
A realidade, como frequentemente acontece na guerra, revelou-se mais complexa do que a retórica política.
Por que o F-35 era considerado invulnerável
Para entender a dimensão do ocorrido, é necessário compreender o que representa o F-35 no arsenal militar ocidental. Desenvolvido pela Lockheed Martin, o caça multifunção de quinta geração é o resultado de décadas de investimento em tecnologia furtiva, eletrônica embarcada de ponta e capacidade de combate em múltiplos ambientes. Sua característica mais celebrada é a capacidade de operar de forma praticamente invisível a radares convencionais — daí o termo “furtivo”.
O programa F-35 é o mais caro da história militar americana, com estimativas que ultrapassam US$ 1,7 trilhão ao longo de seu ciclo de vida. Cada unidade, dependendo do pacote de aquisição, custa no mínimo US$ 100 milhões — o equivalente a cerca de R$ 525 milhões. Existem três variantes em operação: o F-35A, de decolagem e pouso convencionais; o F-35B, de decolagem curta e pouso vertical; e o F-35C, otimizado para operações em porta-aviões.
Na atual guerra contra o Irã, o F-35 opera principalmente a partir de dois pontos estratégicos: a Base Aérea de Muwaffaq Salti, na Jordânia, e o porta-aviões USS Abraham Lincoln — este na sua versão naval, o F-35C. Além disso, cerca de 20 unidades do modelo F-35B, de decolagem vertical, estão a caminho da região a bordo do navio de desembarque anfíbio USS Tripoli, deslocado do Japão especificamente para este conflito.
Israel é outro operador significativo do caça na região, com ao menos 39 dos 50 aparelhos encomendados em atividade. Nesta guerra, um F-35 israelense registrou sua primeira vitória aérea contra avião tripulado, ao derrubar um aparelho de treinamento de fabricação russa sobre território iraniano.
O que pode ter atingido o caça
A questão técnica central do incidente ainda está sendo investigada: o que exatamente atingiu o F-35? A hipótese mais provável aponta para fogo antiaéreo iraniano — seja de sistemas de mísseis terra-ar, seja de artilharia antiaérea convencional ou portátil.
Embora a estrutura de defesa aérea iraniana tenha sido duramente golpeada nas primeiras semanas do conflito, especialistas em aviação militar apontam que sistemas de lançamento móveis e portáteis são difíceis de neutralizar completamente em campanhas de bombardeio. A altitude a que o F-35 voava no momento do incidente permanece desconhecida — informação que seria crucial para determinar que tipo de armamento poderia tê-lo alcançado.
A Guarda Revolucionária iraniana publicou nas suas redes um vídeo — sem autenticidade confirmada — que supostamente mostra imagens de infravermelho de um projétil atingindo um caça. Sites especializados em monitoramento de tráfego aéreo identificaram, no horário aproximado do incidente, um helicóptero americano voando em padrão de busca e salvamento no leste da Arábia Saudita — o que levantou especulações sobre a possibilidade de o avião ter caído e o piloto ter se ejetado, embora a versão oficial americana confirme pouso de emergência bem-sucedido.
Vale o registro histórico: este foi o primeiro incidente do tipo com um F-35 em combate, mas não o primeiro com um caça furtivo. Em 1999, durante a guerra da Otan contra a Sérvia, um F-117 Nighthawk americano — o pioneiro das aeronaves de tecnologia stealth — foi abatido por um míssil soviético S-125 operado pelos sérvios. O episódio revelou que a invisibilidade ao radar tem limites, especialmente quando os operadores de defesa aérea utilizam frequências específicas e tecnologias alternativas de detecção.
O histórico de perdas americanas neste conflito
O incidente com o F-35 não é a primeira perda americana na atual guerra, mas é certamente a mais emblemática. Antes deste episódio, os EUA já haviam perdido três caças F-15E Strike Eagle — abatidos, ao que tudo indica, por um F/A-18 do Kuwait, em um episódio que levanta suspeitas de fogo amigo intencional. Um piloto árabe estaria preso sob suspeita de ter agido deliberadamente. Todos os seis aviadores americanos a bordo dos três aparelhos sobreviveram.
Houve ainda, na semana anterior ao incidente com o F-35, a queda de um avião-tanque KC-135 Stratotanker no norte do Iraque, aparentemente após colisão com outra aeronave do mesmo modelo durante operação de reabastecimento aéreo. Nesse acidente, os seis tripulantes morreram — a maior baixa americana em um único incidente desde o início do conflito.
Israel, por sua vez, não registrou nenhuma perda de equipamento até o momento.
O mercado de armas aquecido pela guerra
Enquanto o incidente com o F-35 ainda era assimilado pelos analistas militares, o Departamento de Estado americano anunciou a aprovação de uma das maiores vendas de armamentos da história recente do Oriente Médio: mais de US$ 16 bilhões — aproximadamente R$ 84 bilhões — em sistemas de defesa e armamentos para países do Golfo Pérsico que estão sob ataque de retaliação iraniana.
Os Emirados Árabes Unidos lideram a lista de compradores, com um pedido de US$ 8,4 bilhões que inclui sistemas de radar para defesa antiaérea, mísseis ar-ar para seus caças F-16 e drones de última geração. O Kuwait, que ironicamente viu um de seus pilotos envolvido no incidente de fogo amigo contra aviões americanos, fechou um contrato semelhante, de US$ 8 bilhões. A Jordânia, país anfitrião de uma das principais bases do F-35 na região, também recebeu aprovação para aquisições não detalhadas publicamente.
A região do Oriente Médio já era, antes desta guerra, uma das maiores compradoras globais de armamentos. Segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, seis dos dez países que mais investem proporcionalmente em defesa — em relação ao PIB — estão no Oriente Médio. A guerra acelerou essa tendência de forma dramática.
O cenário remete ao alerta histórico feito pelo presidente Dwight Eisenhower ao deixar o cargo, em 1961, quando advertiu para os riscos do que chamou de “complexo industrial-militar” — a interdependência entre a política externa americana e os interesses da indústria de defesa. Décadas depois, a lógica segue intacta: uma guerra iniciada pelos americanos gera uma demanda imediata por armamentos que só a indústria americana pode suprir, em contratos que se contam em dezenas de bilhões de dólares.
No ano passado, Trump autorizou a venda do F-35 para a Arábia Saudita — uma decisão que o governo Joe Biden havia vetado para os Emirados Árabes Unidos por preocupações relacionadas à transferência de tecnologia sensível e à influência chinesa na região. O preço do caça para parceiros internacionais também nunca fica abaixo de US$ 100 milhões por unidade.
O que a invulnerabilidade do F-35 representava — e o que sua ruptura significa
Há algo além do estratégico e do geopolítico neste episódio. Há uma narrativa que foi rompida.
O F-35 não era apenas um avião. Era um argumento. Uma afirmação de supremacia tecnológica absoluta que os EUA e seus aliados utilizavam como pano de fundo para justificar a superioridade ocidental nos céus de qualquer conflito. Trump e Netanyahu haviam construído parte da confiança pública nesta guerra sobre a premissa de que os adversários simplesmente não tinham capacidade de ameaçar seriamente a coalizão no ar.
O incidente de 19 de março de 2026 não derrubou esse argumento inteiramente — um avião avariado que pousa em segurança é muito diferente de um caça abatido em chamas. Mas abriu uma fissura. Mostrou que a defesa antiaérea iraniana, mesmo degradada, retém alguma capacidade de resposta. Mostrou que nenhuma aeronave é absolutamente invulnerável. E mostrou que, na guerra, as certezas dos gabinetes raramente sobrevivem intactas ao contato com a realidade dos céus.
A guerra que ainda não encontrou seu teto
O 20º dia de um conflito que começou com ataques coordenados americano-israelenses contra a infraestrutura nuclear e militar iraniana deixa um cenário em que as perdas se acumulam de ambos os lados — ainda que de forma assimétrica. O Irã sangra, mas golpeia. Os EUA dominam os céus, mas não de forma absoluta.
O F-35 avariado, pousando numa base não identificada do Oriente Médio, é a imagem desta guerra em miniatura: uma supremacia tecnológica inegável, mas não ilimitada, enfrentando um adversário que perdeu muito, mas não perdeu tudo.
A investigação segue. A guerra, também.







