O Banco Digimais, instituição controlada por grupo ligado a Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, entrou no centro de uma crise de confiança no mercado financeiro após a divulgação de suspeitas de que teria usado fundos de investimento para retirar de seus balanços carteiras de crédito com alta inadimplência. O caso envolve operações com FIDCs, questionamentos de auditoria, investigação da Polícia Federal e ocorre em meio ao processo de venda da instituição ao BTG Pactual (BPAC11).
Segundo documentos analisados pelo Estadão e reproduzidos por veículos do mercado financeiro, o Banco Digimais teria transferido créditos problemáticos para fundos nos quais o próprio banco ou empresas ligadas ao controlador mantinham participação. Especialistas afirmam que esse tipo de estrutura pode reduzir a transparência sobre os riscos reais da instituição quando não há efetiva transferência econômica das perdas.
A suspeita central é que as operações tenham melhorado artificialmente indicadores financeiros do Banco Digimais ao retirar créditos vencidos das demonstrações públicas. Em um dos pontos citados nas apurações, o banco teria deixado de declarar pelo menos R$ 480 milhões em créditos vencidos que deveriam reduzir o lucro informado pela instituição. Com a estrutura, o Banco Digimais declarou lucro de R$ 31 milhões ao fim de 2025.
O caso ganhou peso adicional porque o Banco Digimais está em processo de venda ao BTG Pactual (BPAC11). O banco de André Esteves assinou acordo para adquirir o controle da instituição em abril, em operação ainda sujeita à aprovação do Banco Central e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Banco Digimais atua em crédito de maior risco
O Banco Digimais não está entre as instituições mais conhecidas do varejo bancário brasileiro, mas possui atuação relevante em nichos específicos de crédito, especialmente financiamento de veículos usados e crédito consignado. Esses segmentos podem apresentar maior risco de inadimplência, dependendo do perfil dos clientes, das garantias e das condições de concessão.
A instituição nasceu como Banco Renner, ligada historicamente à família fundadora das Lojas Renner. Em 2020, após aquisição por grupo vinculado a Edir Macedo, passou a operar sob a marca Banco Digimais.
No financiamento de veículos, o banco construiu presença em operações com carros usados e antigos. Esse mercado costuma ser avaliado com cautela por grandes instituições financeiras, porque combina bens de menor liquidez, maior dificuldade de recuperação em caso de inadimplência e clientes frequentemente expostos a taxas mais elevadas.
Segundo relatos de mercado citados nas apurações, o Banco Digimais teria adotado uma política de crédito mais flexível do que a praticada por grandes bancos. Esse modelo pode ampliar a carteira e gerar receita por meio de juros mais altos, mas também aumenta o risco de perdas quando a inadimplência avança.
Em operações de financiamento de veículos usados, a rentabilidade depende de uma combinação delicada: taxa cobrada do cliente, qualidade da garantia, capacidade de recuperação do bem, perfil do tomador e nível de provisões. Quando a inadimplência cresce acima do esperado, o impacto pode atingir diretamente o resultado e o patrimônio da instituição.
FIDCs estão no centro das suspeitas
O ponto central das suspeitas envolve o uso de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, conhecidos como FIDCs. Esses fundos são veículos que compram direitos creditórios, como parcelas de financiamentos, contratos bancários, recebíveis comerciais e dívidas de clientes.
A estrutura é legal e amplamente utilizada no mercado financeiro brasileiro. Em condições normais, os FIDCs ajudam bancos e empresas a antecipar receitas, melhorar liquidez, transferir risco de crédito e acessar investidores interessados em carteiras de recebíveis.
O problema apontado por especialistas no caso do Banco Digimais não está na existência dos FIDCs, mas na forma como eles teriam sido usados. Segundo as informações divulgadas, carteiras de crédito inadimplentes teriam sido vendidas a fundos nos quais o próprio banco ou empresas relacionadas mantinham exposição.
Quando uma instituição vende ativos para uma estrutura ligada a ela mesma, a transação exige análise rigorosa. Auditores e reguladores precisam avaliar se houve efetiva transferência de risco, se o preço seguiu condições normais de mercado e se os efeitos contábeis refletiram a substância econômica da operação.
Sem essa transparência, a venda de carteiras a fundos pode melhorar a aparência do balanço sem reduzir de fato a exposição às perdas. Em bancos, esse ponto é particularmente sensível, porque investidores, clientes e reguladores dependem dos balanços para avaliar solvência, qualidade da carteira e capacidade de absorver prejuízos.
Operação “Zé com Zé” acendeu alerta no mercado
No mercado financeiro, operações em que uma instituição negocia ativos com estruturas controladas ou financiadas por ela mesma são chamadas informalmente de “Zé com Zé”. A expressão descreve transações em que, na prática econômica, comprador e vendedor continuam ligados ao mesmo grupo de interesse.
Esse tipo de operação não é automaticamente ilegal. O problema surge quando a estrutura reduz a clareza sobre quem carrega o risco final dos ativos ou quando permite retirar perdas do balanço sem uma transferência real de exposição.
No caso do Banco Digimais, a suspeita é que carteiras de crédito com alta inadimplência tenham sido vendidas para FIDCs e deixado de aparecer de forma direta nas demonstrações financeiras da instituição. Especialistas ouvidos nas apurações afirmam que isso poderia ter reduzido a visibilidade de perdas relevantes.
A discussão é contábil, regulatória e econômica. Uma carteira inadimplente não deixa de representar risco apenas porque foi transferida para um fundo. Se o banco continua cotista, patrocinador, financiador ou economicamente exposto ao veículo, o risco permanece dentro do mesmo perímetro econômico.
Por isso, o caso tem impacto sobre a confiança. Instituições financeiras dependem de demonstrações transparentes para captar recursos, negociar com investidores, atrair compradores e manter credibilidade junto ao Banco Central.
Fundo Tabor teria quase 60% de inadimplência
Um dos fundos citados nas apurações é o Tabor, que teria comprado carteiras de financiamento de veículos do Banco Digimais. Em abril de 2026, o fundo tinha cerca de R$ 960 milhões em carteiras de crédito, dos quais R$ 575 milhões estavam inadimplentes.
A proporção equivale a quase 60% da carteira, nível considerado crítico por especialistas do mercado financeiro. Além disso, mais de R$ 200 milhões estariam ligados a parcelas vencidas há até 720 dias, prazo que reduz significativamente a expectativa de recuperação integral dos créditos.
Em uma carteira de crédito, o tempo de atraso é decisivo. Quanto mais antigo o vencimento, menor tende a ser a probabilidade de recuperação, especialmente quando a garantia envolve veículos antigos, de menor valor ou de difícil revenda.
A inadimplência elevada em fundos que compram carteiras bancárias também exige atenção sobre o valor das cotas. Se os créditos têm baixa chance de recuperação, o fundo pode precisar reconhecer perdas, reduzir valor patrimonial e afetar investidores expostos à estrutura.
A questão central é saber se esses riscos foram adequadamente refletidos nas demonstrações financeiras do Banco Digimais. Caso o banco continuasse economicamente exposto ao fundo, a retirada dos créditos do balanço poderia não representar redução real do risco.
Fundo Hermon envolve operação de R$ 741 milhões
Outro ponto citado nas apurações envolve o fundo Hermon. Segundo os documentos analisados, a holding ligada a Edir Macedo teria comprado R$ 741 milhões em cotas desse fundo que pertenciam ao Banco Digimais.
Auditores teriam feito ressalvas sobre a operação, apontando características consideradas incomuns para padrões de mercado. Entre os pontos mencionados estão ausência de remuneração compatível, dependência de aportes futuros e dificuldade de avaliar a liquidez dos ativos.
O fundo Hermon estaria relacionado a direitos ligados a uma disputa judicial antiga envolvendo indenizações associadas à criação da antiga Vale do Rio Doce durante o governo de Getúlio Vargas. Por depender de decisão judicial, o ativo teria prazo incerto de realização e valor efetivo difícil de mensurar.
Ativos judiciais podem ter valor econômico, mas costumam exigir avaliação conservadora. O risco está na diferença entre o valor registrado contabilmente e o montante que poderá ser efetivamente recuperado, caso a disputa tenha desfecho favorável.
Para uma instituição financeira em processo de venda, esse tipo de operação aumenta a complexidade da diligência. O comprador precisa examinar não apenas a carteira de crédito, mas também fundos, cotas, ativos judiciais, transações entre partes relacionadas e potenciais contingências.
Polícia Federal investiga suspeitas de fraude
As revelações também aumentaram a pressão sobre o Banco Digimais no campo regulatório. Segundo informações divulgadas, a Polícia Federal investiga suspeitas de fraude envolvendo operações financeiras da instituição.
Até o momento, detalhes oficiais do inquérito não foram amplamente divulgados. Por envolver investigação em curso, o caso deve ser tratado com cautela. Pessoas físicas e jurídicas citadas têm direito à defesa, e eventuais responsabilidades dependem da conclusão das autoridades competentes.
Investigações sobre operações financeiras em bancos costumam atrair atenção do Banco Central, especialmente quando envolvem balanços, provisões, partes relacionadas, qualidade de ativos e eventual impacto sobre depositantes.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também pode acompanhar estruturas envolvendo fundos de investimento, conforme a natureza dos veículos, os investidores afetados e a existência de eventuais falhas de divulgação.
O caso reacende o debate sobre a supervisão de estruturas financeiras complexas. FIDCs têm função legítima no mercado, mas exigem governança, transparência e segregação de riscos, sobretudo quando há partes relacionadas envolvidas.
Venda ao BTG Pactual adiciona pressão ao caso
A crise de credibilidade do Banco Digimais ocorre no momento em que o BTG Pactual (BPAC11) avança na aquisição da instituição. O banco anunciou acordo para comprar o controle do Digimais em abril de 2026, em transação de valor não divulgado e ainda condicionada a aprovações regulatórias.
O interesse do BTG Pactual (BPAC11) estaria ligado à carteira de clientes, à estrutura operacional e à plataforma de crédito do Digimais. A aquisição pode fortalecer a estratégia do banco em serviços financeiros, crédito e expansão de base de clientes.
Ao mesmo tempo, as suspeitas sobre fundos, inadimplência e balanços tornam a operação mais sensível. Em aquisições de instituições financeiras, a diligência precisa avaliar qualidade da carteira, provisões, capital regulatório, riscos legais, contingências e passivos ocultos.
Segundo informações publicadas em abril, o negócio depende da aprovação do Banco Central e do Cade. Também foram citadas discussões envolvendo estruturação via Fundo Garantidor de Créditos (FGC), o que reforça a percepção de que a situação financeira do banco exige tratamento regulatório cuidadoso.
Para o BTG Pactual (BPAC11), a conclusão da compra dependerá da capacidade de mapear riscos, precificar contingências e obter aval dos reguladores. Para o Banco Digimais, o desafio é recuperar credibilidade e esclarecer a substância econômica das operações contestadas.
Clientes devem observar limites de proteção
Embora o caso tenha forte repercussão no mercado financeiro, especialistas recomendam cautela a clientes e investidores antes de qualquer decisão. Depósitos bancários contam com proteção do Fundo Garantidor de Créditos dentro dos limites estabelecidos pelas regras vigentes.
A cobertura do FGC é de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira, para produtos elegíveis. Essa proteção vale para instrumentos como depósitos à vista, CDBs, LCIs e LCAs, respeitadas as condições previstas pelo fundo.
A existência da garantia, porém, não elimina a necessidade de acompanhamento. Clientes com valores acima do limite de cobertura, investidores em produtos não cobertos ou pessoas expostas a instrumentos estruturados devem avaliar a composição de seus investimentos.
O caso também serve de alerta para a análise de rentabilidade. Produtos emitidos por bancos menores podem oferecer taxas mais altas, mas carregam maior risco de crédito. O investidor precisa observar balanços, ratings, auditorias, comunicados regulatórios e concentração por instituição.
Em momentos de incerteza, a transparência das informações se torna decisiva. Quanto menos claro for o nível real de inadimplência e de exposição a ativos problemáticos, maior tende a ser a percepção de risco.
Caso Digimais amplia debate sobre transparência bancária
O episódio envolvendo o Banco Digimais expõe uma discussão relevante para o sistema financeiro brasileiro: o uso de estruturas de securitização e fundos de crédito para administrar carteiras problemáticas sem reduzir a visibilidade dos riscos.
FIDCs cumprem papel importante no financiamento da economia. Eles permitem transformar recebíveis em recursos imediatos, ampliar fontes de crédito e conectar originadores a investidores. O risco surge quando esses instrumentos são usados para deslocar perdas de forma pouco transparente.
Operações entre partes relacionadas exigem padrão elevado de governança. A pergunta central para auditores e reguladores é se a transação ocorreu em condições normais de mercado e se a contabilização refletiu a realidade econômica, não apenas a forma jurídica.
No caso do Banco Digimais, a gravidade das suspeitas está na combinação de alta inadimplência, operações com fundos, questionamentos de auditoria, investigação policial e venda em andamento para o BTG Pactual (BPAC11).
O desfecho dependerá da atuação da Polícia Federal, do Banco Central, da CVM, dos auditores e dos órgãos responsáveis por aprovar a eventual mudança de controle. Até que haja conclusão oficial, o caso permanece como um dos episódios mais sensíveis do setor bancário brasileiro em 2026.
A crise coloca o Banco Digimais sob escrutínio e pressiona os envolvidos a explicar se as operações com FIDCs representaram gestão legítima de ativos ou se serviram para reduzir a visibilidade de perdas em carteiras de crédito deterioradas. Para o mercado, a resposta será decisiva para medir o alcance do problema e seus efeitos sobre clientes, investidores e a transação com o BTG Pactual (BPAC11).





