Brasil e Trump: seis recados do governo brasileiro à Casa Branca na disputa comercial
A relação entre Brasil e Trump ganhou novos contornos em agosto de 2025, quando o governo norte-americano decidiu abrir uma investigação formal contra o país sul-americano com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. A medida veio logo após o anúncio de Donald Trump, em julho, de impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros que entram no mercado americano.
Em resposta, o governo brasileiro apresentou seis argumentos centrais em defesa de suas políticas econômicas e comerciais, buscando evitar sanções ainda mais duras. A disputa revela tensões crescentes entre Brasília e Washington e pode se transformar em um dos embates mais relevantes do comércio internacional no próximo ano.
Abertura da investigação e riscos para o Brasil
A decisão dos EUA de investigar o Brasil com base na Seção 301 marca um ponto crítico nas relações bilaterais. Esse mecanismo legal permite que Washington adote medidas unilaterais caso considere que outro país pratica ações injustas ou desleais contra empresas norte-americanas.
Se as acusações forem confirmadas, os EUA poderão aplicar novas barreiras comerciais, inclusive restrições mais severas a produtos brasileiros. O processo deve durar no mínimo um ano, mas a ameaça já causa preocupação em setores estratégicos da economia nacional, como agronegócio, energia e indústria de base.
Seis argumentos do Brasil contra as acusações dos EUA
O governo brasileiro preparou uma defesa detalhada para contestar as alegações de Donald Trump. O documento foi entregue oficialmente ao USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) e servirá de base para audiências públicas previstas para dezembro de 2025.
A seguir, os seis recados do Brasil a Trump no centro da disputa:
1. Comércio digital e sistema de pagamentos Pix
Um dos pontos levantados por Washington é que o Brasil supostamente favorece plataformas nacionais no comércio digital e em serviços de pagamento, com destaque para o Pix. O governo americano alega que a ferramenta daria vantagem indevida a empresas brasileiras, prejudicando a competitividade.
O Brasil rebateu dizendo que o Pix é uma infraestrutura pública, aberta e acessível também a estrangeiros. Além de promover concorrência, inclusão financeira e redução de custos, o sistema não restringe a participação de companhias internacionais.
O governo ainda destacou que sua Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) está em linha com normas internacionais, como o GDPR da União Europeia, e que decisões judiciais sobre conteúdos digitais não impõem responsabilidade automática a plataformas, exigindo ordem judicial na maioria dos casos.
2. Tarifas preferenciais
Os EUA acusam o Brasil de privilegiar países como México e Índia, em detrimento do comércio com empresas norte-americanas.
A resposta brasileira destacou que 73,7% das exportações dos EUA entram no Brasil com tarifa zero e que os acordos comerciais assinados seguem as regras da OMC (Organização Mundial do Comércio) para países em desenvolvimento.
Ou seja, não haveria discriminação, mas sim políticas comerciais consistentes com práticas globais.
3. Aplicação das leis anticorrupção
Washington também levantou dúvidas sobre a eficácia da aplicação das leis anticorrupção no Brasil, sugerindo que empresas americanas poderiam ser prejudicadas por suposta seletividade.
O governo brasileiro negou categoricamente essa acusação. Ressaltou que sua política é baseada em esforços imparciais e consistentes para combater a corrupção, sem qualquer direcionamento contra companhias dos EUA.
4. Propriedade intelectual e pirataria
Os Estados Unidos criticaram a demora na análise de patentes e a suposta falta de proteção contra a pirataria, citando a tradicional Rua 25 de Março, em São Paulo, como exemplo de comércio de produtos falsificados.
Na defesa, o Brasil afirmou que segue padrões internacionais de proteção à propriedade intelectual e que busca equilibrar a defesa dos direitos autorais com o acesso público, especialmente em áreas como saúde.
O governo também destacou operações regulares contra falsificação em centros comerciais populares e avanços em cooperação internacional para combater a pirataria.
5. Etanol e barreiras comerciais
Outro ponto sensível envolve o etanol. Washington afirma que as tarifas brasileiras criam desequilíbrio no setor.
Brasília respondeu destacando que a tarifa aplicada ao etanol norte-americano é de 18%, bem inferior à que os EUA aplicam ao combustível brasileiro, que chega a 52,5%. Portanto, não haveria injustiça, mas sim reciprocidade diante de políticas restritivas do próprio governo americano.
6. Meio ambiente e desmatamento
Por fim, os EUA apontaram falhas no controle ambiental brasileiro, alegando que o desmatamento descontrolado gera vantagem competitiva indevida em cadeias de produção agrícola.
O governo brasileiro rebateu ressaltando medidas recentes para combater o desmatamento ilegal, fiscalizar cadeias de abastecimento e garantir que produtos exportados não tenham origem em áreas irregulares.
Brasil e Trump: próximos passos da disputa
O processo de investigação deve avançar com a análise do relatório brasileiro e, posteriormente, em audiências públicas em Washington previstas para dezembro de 2025.
Caso o USTR conclua que o Brasil adota práticas anticompetitivas, os EUA poderão impor novas tarifas, barreiras alfandegárias ou restrições de acesso ao mercado americano.
O governo brasileiro, por sua vez, aposta no diálogo diplomático para evitar o agravamento da crise, mas já avalia medidas alternativas, como o fortalecimento de relações comerciais com outros parceiros estratégicos, a exemplo de China, União Europeia e Argentina.
Impactos econômicos e políticos da disputa
A tensão entre Brasil e Trump vai além do comércio. Ela pode afetar o câmbio, os investimentos estrangeiros e a imagem internacional do país. Analistas afirmam que o risco de retaliações comerciais pode impactar setores como agronegócio, tecnologia e energia renovável.
No campo político, a disputa será utilizada internamente por ambos os lados. Para Trump, serve como bandeira de defesa da indústria americana em um contexto de campanha eleitoral. Para o governo brasileiro, é uma oportunidade de reafirmar soberania e projetar o país como defensor do comércio justo e equilibrado.
O embate entre Brasil e Trump ainda está em seus primeiros capítulos. De um lado, os EUA utilizam a Seção 301 como instrumento de pressão e ameaçam impor novas barreiras. De outro, o Brasil apresenta uma defesa robusta em seis pontos, rejeitando as acusações e defendendo sua política comercial, digital, ambiental e anticorrupção.
Os próximos meses serão decisivos para definir se essa disputa resultará em um acordo negociado ou se evoluirá para uma guerra comercial mais ampla. Em um mundo cada vez mais marcado por tensões geopolíticas, o desfecho terá repercussões que vão além da relação bilateral, podendo influenciar todo o comércio internacional.






