Private equity avança sobre Wall Street em meio à disputa global por talentos e recuperação de fusões e aquisições
O private equity está vivendo um momento de intensa movimentação no mercado internacional. Com capital mais difícil de obter e juros elevados que desafiaram o setor nos últimos anos, gigantes globais desse segmento passaram a disputar os melhores talentos com bancos de investimento, enquanto a atividade de fusões e aquisições começa a mostrar sinais de recuperação.
A corrida por profissionais especializados, o fortalecimento das operações em regiões estratégicas e a expectativa de cortes de juros nos principais mercados estão remodelando a dinâmica do setor. Wall Street, que tradicionalmente fornecia mão de obra para o private equity, agora enfrenta forte concorrência para reter seus analistas e executivos mais promissores.
Recrutamento em alta no private equity
No primeiro semestre de 2025, o private equity registrou um salto nas contratações, especialmente em áreas como captação de recursos, relações com investidores e marketing. O movimento reflete a necessidade das gestoras de se posicionarem para um novo ciclo de expansão, mesmo após um período de compasso de espera provocado por juros altos e volatilidade global.
Relatórios de consultorias especializadas apontam que, após dois anos de retração, o setor voltou a contratar de forma consistente. Esse esforço é estratégico: manter equipes de captação robustas é essencial para atrair recursos de fundos de pensão, family offices e investidores institucionais, em um momento de liquidez mais restrita.
Fusões e aquisições ganham novo fôlego
Apesar de oscilações recentes, a atividade de buyouts voltou a dar sinais de vida em 2025. No entanto, a turbulência tarifária global ainda limita o ritmo dos negócios. Dados mostram que, em abril, o valor das operações ficou 24% abaixo da média do primeiro trimestre, enquanto o número de transações caiu 22%.
Mesmo assim, o acúmulo de empresas em carteira e a expectativa de cortes de juros nos próximos trimestres sustentam a perspectiva de recuperação gradual. As gestoras seguem com quase US$ 1 trilhão em “dry powder”, capital ainda não alocado, pronto para ser investido assim que as condições de mercado se tornarem mais favoráveis.
Expansão internacional e corrida global por talentos
A expansão geográfica é um denominador comum entre os grandes players de private equity. Gigantes como Apollo, Warburg Pincus e Carlyle estão reforçando suas operações no Japão e no Sudeste Asiático, regiões que têm atraído fluxos crescentes de capital.
Na Índia, novos escritórios e contratações em centros como Mumbai mostram o avanço da indústria. Já na Europa, a queda sucessiva dos juros pelo Banco da Inglaterra cria um ambiente mais propício para operações de captação e saídas estratégicas.
Na América do Norte, a busca por jovens talentos já superou os níveis de 2022 e 2023. Gestoras de growth equity e megafundos estão entrevistando candidatos com anos de antecedência, muitas vezes antes mesmo de concluírem a faculdade, em uma estratégia de antecipação ao mercado de trabalho.
Disputa com Wall Street
A guerra por talentos ganhou intensidade, atingindo diretamente os bancos de investimento. Historicamente, o private equity absorvia analistas de Wall Street, mas agora a disputa se tornou mais agressiva.
Goldman Sachs e JPMorgan passaram a impor regras rígidas para conter a evasão de profissionais. No caso do JPMorgan, analistas que aceitarem ofertas externas antes de completarem 18 meses podem ser demitidos. Já o Goldman exige declarações trimestrais de lealdade para tentar conter a migração.
Essas medidas refletem a pressão que o private equity exerce sobre os bancos, oferecendo carreiras com maior potencial de ganhos no longo prazo.
Remuneração e incentivos: vantagem para o private equity
Embora os salários de entrada sejam semelhantes entre bancos de investimento e private equity, a grande diferença surge nos níveis mais altos. Isso se deve ao carried interest, participação nos lucros dos fundos, que pode multiplicar os ganhos de executivos experientes.
Enquanto um diretor executivo de banco pode receber entre US$ 1,5 milhão e US$ 2 milhões anuais em salário e bônus, gestores de private equity podem alcançar entre US$ 20 milhões e US$ 30 milhões em ganhos ao longo do tempo. Esse diferencial explica por que tantos profissionais preferem migrar para o setor de investimentos privados.
Desafios para empresas menores
Nem todas as firmas de private equity têm condições de competir nessa corrida. As gigantes multiestratégia conseguem contratar e expandir mesmo em cenários desafiadores, enquanto gestoras menores enfrentam dificuldades para captar recursos e até reduzem equipes. Essa bifurcação tende a se aprofundar, com concentração de capital e talentos nos maiores fundos do mercado.
O futuro do private equity
A disputa global por talentos, a expansão internacional e a recuperação gradual das operações de fusões e aquisições indicam que o private equity continuará em evidência nos próximos anos.
Com quase US$ 1 trilhão em capital disponível para investir e a perspectiva de juros mais baixos, o setor deve intensificar sua presença em mercados estratégicos e consolidar seu papel de protagonista na transformação empresarial global.
No entanto, a pressão sobre Wall Street e a disputa acirrada por profissionais indicam que essa trajetória não será isenta de conflitos. Para os jovens analistas e executivos em ascensão, trata-se de um momento único para escolher entre carreiras tradicionais nos bancos ou o potencial de ganhos exponenciais no universo dos investimentos privados.






