Café brasileiro no centro da disputa comercial com os EUA
O café brasileiro está no centro de uma negociação crucial entre Brasil e Estados Unidos. O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) intensificou a articulação política e empresarial para que o produto seja incluído na lista de exceções das tarifas impostas pelo governo norte-americano. A medida faz parte da investigação da Seção 301 da Lei de Comércio, conduzida pelos EUA, que avalia supostas práticas desleais de parceiros internacionais.
A iniciativa busca evitar que o café seja penalizado com sobretaxas, uma vez que o Brasil é o maior exportador mundial do grão e responsável por abastecer grande parte do consumo norte-americano. Para o setor, garantir a competitividade do café brasileiro no mercado dos Estados Unidos é essencial não apenas para os produtores nacionais, mas também para a estabilidade da cadeia global de cafeterias e indústrias que dependem desse insumo.
Sustentabilidade como argumento estratégico
O Cecafé tem defendido que o café brasileiro deve ser visto como um aliado estratégico do mercado norte-americano. A National Coffee Association (NCA), entidade de referência nos Estados Unidos, reconhece a sustentabilidade da cafeicultura brasileira, que envolve desde grandes propriedades até a produção de pequenos agricultores.
Esse reconhecimento fortalece o pleito brasileiro de isenção tarifária, uma vez que o setor tem investido em práticas ambientais, rastreabilidade e programas de apoio a comunidades rurais. A defesa é clara: ao importar do Brasil, os EUA não apenas garantem qualidade, mas também incentivam práticas sustentáveis em escala global.
Impacto econômico do café nos Estados Unidos
O peso do café brasileiro na economia norte-americana vai além da importação. Estima-se que cada US$ 1 investido na compra do grão gere cerca de US$ 43 em valor agregado dentro do território norte-americano. O consumo chega a 76% da população, movimentando aproximadamente US$ 343 bilhões por ano, o que corresponde a 1,2% do PIB dos Estados Unidos.
Esse dado reforça que qualquer barreira tarifária impacta diretamente não apenas os importadores, mas todo o ecossistema de cafeterias, redes de fast food, supermercados e consumidores finais. A sobretaxa pode elevar o preço do café em até 50%, atingindo desde grandes redes até cafeterias de bairro que não possuem capacidade de estocar grandes volumes.
Pequenas cafeterias sob pressão
Entre os maiores prejudicados pelas tarifas estão as pequenas e médias cafeterias norte-americanas. Diferente das grandes redes, que conseguem manter estoques robustos e negociar preços em escala, os pequenos empreendedores dependem de compras frequentes.
Com a aplicação de sobretaxas, o custo do café brasileiro dispara e pressiona os preços ao consumidor final. Isso cria um efeito dominó: consumidores de baixa renda passam a gastar mais, cafeterias independentes perdem competitividade e, no longo prazo, o próprio consumo pode ser desestimulado.
Essa fragilidade reforça o argumento brasileiro de que manter o café fora da lista de tarifas é vantajoso não apenas para o Brasil, mas para a economia dos Estados Unidos.
Queda nas exportações para os EUA e busca por novos mercados
A estratégia de internacionalização do café brasileiro não se limita ao mercado norte-americano. Em agosto, as exportações para os EUA caíram 47% devido às barreiras tarifárias, enquanto o envio para a Alemanha aumentou 55%. Esse movimento reforça a importância da diversificação de destinos.
Além da Europa, o Cecafé aposta fortemente em mercados emergentes, como Ásia e Oceania. A China, tradicionalmente consumidora de chá, começa a incorporar o café em sua cultura urbana, abrindo uma oportunidade bilionária para os produtores brasileiros. Austrália, Japão e Coreia do Sul também aparecem como polos estratégicos para a expansão.
Café brasileiro como ativo global
A defesa da presença do café brasileiro no mercado internacional vai além de tarifas. O setor busca consolidar o país como fornecedor de referência em qualidade, sustentabilidade e diversidade de tipos de grão. Do arábica ao robusta, o Brasil tem se destacado por oferecer variedades capazes de atender desde o consumo premium até o de massa.
Essa versatilidade torna o café do Brasil um ativo estratégico para cafeterias, torrefadores e indústrias de bebidas prontas, que dependem de fornecedores confiáveis para manter seus negócios competitivos. Ao mesmo tempo, fortalece a imagem do país como líder mundial em produção agrícola.
Perspectivas e próximos passos
A expectativa é que as negociações avancem nas próximas semanas, com pressão tanto de exportadores brasileiros quanto de importadores e associações norte-americanas. O café brasileiro é um produto que, diferentemente de outras commodities, não compete diretamente com a produção local, o que pode facilitar a argumentação para sua inclusão na lista de exceções.
Enquanto isso, o setor segue investindo em inovação, logística e campanhas de promoção internacional. O objetivo é reduzir a dependência de um único mercado, mas sem abrir mão da posição estratégica conquistada nos Estados Unidos ao longo de décadas.






