Anatomia de um Rombo Bilionário: Como o Caso Master e BRB Expõe Fragilidades na Governança do Sistema Financeiro Nacional
O sistema financeiro brasileiro atravessa um momento de tensão institucional e contábil. O que inicialmente parecia ser uma operação de cessão de crédito mal sucedida transformou-se em um dos episódios mais complexos e preocupantes da década para a supervisão bancária. O Caso Master e BRB ganhou novos e dramáticos contornos após investigações preliminares indicarem que o Banco Master utilizou fundos estruturados, compostos majoritariamente por empréstimos em atraso e ativos de liquidez duvidosa, para liquidar uma dívida bilionária com o Banco de Brasília (BRB).
A engenharia financeira utilizada para maquiar o risco e transferir prejuízos de uma instituição privada para um banco controlado pelo Estado levanta questionamentos severos sobre a eficácia dos mecanismos de compliance, a auditoria de fundos de investimento e a própria atuação do regulador. O rombo, inicialmente estimado em R$ 2,6 bilhões pelo Banco Central (BC), possui potencial para escalar significativamente, dada a natureza tóxica dos ativos que agora residem no balanço do banco estatal.
A Gênese da Crise: Cessão de Crédito e Indícios de Fraude
Para compreender a magnitude do Caso Master e BRB, é necessário revisitar a origem da transação. Em novembro, a autoridade monetária identificou irregularidades substanciais em carteiras de crédito que totalizavam cerca de R$ 12 bilhões, vendidas pelo Banco Master ao BRB. A auditoria do regulador apontou indícios de fraude na originação e classificação desses créditos, o que motivou uma determinação imediata: o desfazimento do negócio e o ressarcimento ao banco público.
O BRB reportou ao mercado ter recuperado aproximadamente R$ 10 bilhões. No entanto, a análise qualitativa desse “ressarcimento” revela o cerne do problema atual. Diferentemente de uma devolução em caixa (dinheiro vivo ou reservas bancárias), o pagamento foi efetuado através da transferência de cotas de oito fundos de investimento. A investigação interna do BRB agora revela que esses veículos foram utilizados como “moeda podre”, transferindo para o Estado o risco de inadimplência que deveria ter permanecido no setor privado.
O Fundo Jeitto: A Dinâmica do Crédito Inadimplente
O maior ativo transferido no âmbito do Caso Master e BRB é o Fundo Jeitto, focado em direitos creditórios. Com uma carteira nominal superior a R$ 1 bilhão, o fundo apresenta uma deterioração contábil alarmante. Dados de dezembro de 2025 indicam que R$ 952 milhões da carteira estavam em situação de inadimplência, exigindo um provisionamento massivo de R$ 873 milhões para cobertura de perdas prováveis (PCLD).
A estrutura deste fundo revela falhas graves de governança. Os créditos originados pelo próprio Banco Master possuíam cláusulas de recompra automática para operações com atraso superior a 90 dias. Contudo, esse mecanismo de proteção — essencial para a classificação de risco do fundo — deixou de ser executado ainda no primeiro semestre de 2025. Sem a recompra, o fundo transformou-se em um depósito de créditos vencidos.
Ao aceitar cotas deste fundo como pagamento, o BRB importou uma carteira de crédito colapsada. A suspensão de novas aquisições de direitos creditórios pelo fundo Jeitto apenas confirmou a inviabilidade operacional do veículo. No contexto do Caso Master e BRB, isso significa que o “ressarcimento” contabilizado pelo banco público pode, na realidade, valer uma fração do valor de face, exigindo baixas contábeis futuras que impactarão o patrimônio líquido do banco estatal.
A Exposição à Volatilidade Acionária: O Fator Ambipar
A complexidade do Caso Master e BRB não se restringe a empréstimos não pagos. A engenharia do ressarcimento envolveu também a transferência de risco de mercado através de participações acionárias em empresas em dificuldades. O fundo Kyra, com carteira avaliada em R$ 882 milhões, e o fundo Texas I, são exemplos claros dessa estratégia.
A composição destes fundos está fortemente atrelada a ações da Ambipar, companhia do setor de gestão ambiental que enfrenta um processo de recuperação judicial e uma crise de confiança no mercado de capitais. A desvalorização dos papéis da empresa foi brutal: de um patamar superior a R$ 10, as ações despencaram para a casa dos centavos.
A utilização de fundos mono-ativo (concentrados em uma única tese de investimento) para quitar dívidas bancárias é uma prática que, embora não ilegal per se, carrega um risco de concentração inaceitável para um banco de varejo como o BRB. No Caso Master e BRB, a incorporação desses fundos significa que o banco público se tornou, involuntariamente, um acionista relevante de uma empresa em recuperação judicial, ficando exposto à volatilidade diária da bolsa e à incerteza sobre a reestruturação da companhia. O patrimônio líquido do fundo Texas I, por exemplo, colapsou de R$ 600 milhões para pouco mais de R$ 100 milhões em meses, evidenciando a volatilidade que foi transferida para o balanço do BRB.
Conflitos de Interesse e Ativos Imobiliários Ilíquidos
Um dos aspectos mais sensíveis do Caso Master e BRB envolve a transferência de ativos imobiliários ligados diretamente à família do controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. O fundo Supreme Realty, com carteira estimada em R$ 737 milhões, foi utilizado na operação de ressarcimento.
A análise detalhada dos ativos deste fundo revela uma teia de transações com partes relacionadas. Parte significativa dos recursos está alocada em empreendimentos associados a Nathalia Vorcaro, irmã do controlador do Master. Os projetos incluem o desenvolvimento de um grande terreno em Contagem (MG) e um residencial do programa Minha Casa, Minha Vida.
A aceitação de ativos imobiliários em “dação em pagamento” exige, tradicionalmente, laudos de avaliação rigorosos e descontos de liquidez (haircuts). Imóveis em desenvolvimento carregam riscos de execução, licenciamento e demanda de mercado. Ao transferir esses projetos pelo valor de face (ou próximo a ele) para quitar uma dívida líquida, o Caso Master e BRB sugere uma violação dos princípios de prudência bancária. O BRB trocou recebíveis financeiros por tijolos em projetos geridos pela família do devedor, uma operação que amplia o risco moral (moral hazard) e a percepção de conflito de interesses.
Adicionalmente, o fundo CMX Realty, com R$ 118 milhões em carteira, concentra investimentos no projeto Pedra Histórica, em Brumadinho (MG). As conexões com o pai e o cunhado de Daniel Vorcaro reforçam a tese de que o banco utilizou o balanço do BRB para “limpar” a exposição da família controladora a projetos imobiliários de baixa liquidez.
O Impacto no Balanço do BRB e a Necessidade de Capital
A soma desses fatores coloca o Banco de Brasília em uma posição delicada. O Banco Central já ordenou a reserva de R$ 2,6 bilhões em provisões para cobrir o rombo inicial. Contudo, à medida que a qualidade real dos fundos Jeitto, Kyra, Texas I e Supreme Realty vem à tona, analistas de mercado estimam que essa provisão pode ser insuficiente.
Se o valor recuperável desses ativos for, de fato, muito inferior ao valor contábil registrado na operação de ressarcimento, o BRB será obrigado a reconhecer perdas adicionais. Isso afeta diretamente o Índice de Basileia da instituição (que mede a solvência do banco) e pode forçar o Governo do Distrito Federal, controlador do banco, a realizar aportes de capital. Em última instância, o Caso Master e BRB pode resultar em prejuízo para os cofres públicos.
A investigação independente, conduzida por escritório de advocacia especializado, é aguardada com ansiedade pelo mercado. O objetivo é realizar um “valuation” forense dos ativos recebidos. O BRB mantém a postura de que os impactos finais só serão conhecidos após essa apuração, mas a admissão de que o impacto pode ser “relevante” já sinaliza a gravidade da situação.
A Defesa das Instituições e o Ceticismo do Mercado
Em suas manifestações oficiais sobre o Caso Master e BRB, ambas as instituições tentam blindar suas reputações. O Banco Master sustenta que não houve ocultação de ativos e que as operações seguiram parâmetros técnicos vigentes. O argumento central é que os ativos estavam auditados e registrados em balanço.
O BRB segue linha similar, afirmando que os ativos integravam demonstrações financeiras auditadas e possuíam precificação formal. No entanto, o mercado financeiro opera com base na realidade econômica, não apenas na formalidade contábil. O fato de um ativo estar auditado não garante sua liquidez ou a manutenção de seu valor, especialmente quando se trata de crédito inadimplente ou ações de empresas em crise.
O episódio expõe uma fragilidade sistêmica: o uso de fundos de investimento estruturados (FIDCs, FIPs, FIIs) como veículos para empacotar riscos e transferi-los entre instituições com menor transparência do que a cessão direta de carteiras. O Caso Master e BRB deve provocar uma revisão regulatória sobre como esses ativos são contabilizados e aceitos como garantia ou pagamento no sistema interbancário.
Risco Sistêmico e a Resposta Regulatória
O desfecho do Caso Master e BRB terá repercussões que ultrapassam as fronteiras das duas instituições envolvidas. O episódio acende um alerta amarelo no Banco Central sobre a qualidade dos ativos que compõem o patrimônio de referência de bancos médios e estatais.
A tolerância regulatória com operações cruzadas de fundos deve diminuir. Espera-se que o regulador endureça as regras para a aceitação de ativos não-financeiros (como cotas de fundos imobiliários ou de participação) na liquidação de obrigações interbancárias. A transparência na “dação em pagamento” será, invariavelmente, um novo foco de supervisão.
Politicamente, a pressão sobre o BRB aumenta. Como banco público, sua gestão deve pautar-se pelo conservadorismo e pela proteção do patrimônio estatal. A absorção de ativos ligados à família de um controlador de banco privado, em condições de mercado questionáveis, fornece munição para órgãos de controle como o Tribunal de Contas e o Ministério Público.
Um Teste de Estresse para a Governança
O Caso Master e BRB não é apenas uma história de prejuízo financeiro; é um estudo de caso sobre falhas de governança corporativa e gestão de riscos. A confirmação de que o Master utilizou fundos carregados de inadimplência e ativos ilíquidos para quitar sua dívida com o Estado revela uma estratégia arrojada de transferência de passivos.
Para o sistema financeiro, resta a lição de que a solidez bancária não depende apenas de índices de capitalização, mas da qualidade intrínseca dos ativos que suportam esses números. A limpeza do balanço do BRB e a responsabilização pelas falhas de diligência na aceitação desses ativos serão os próximos capítulos desta novela corporativa. Até que os números finais da auditoria independente sejam revelados, a desconfiança pairará sobre a real extensão do dano causado pelo Caso Master e BRB à credibilidade do sistema bancário nacional.






