Dólar em queda: Entenda os fatores macroeconômicos, os impactos na inflação e os riscos no horizonte de 2026
O mercado financeiro brasileiro iniciou o ano de 2026 sob uma nova dinâmica cambial, marcada por uma reversão de expectativas que surpreendeu analistas e investidores. Após encerrar o ano de 2024 pressionado, atingindo a máxima nominal de R$ 6,20, a moeda norte-americana inverteu o sinal e engatou uma trajetória de desvalorização frente ao real. O fenômeno do dólar em queda não é um evento isolado, mas sim o resultado de uma complexa equação que envolve a política monetária dos Estados Unidos, o diferencial de juros no Brasil e o apetite global por risco.
Para compreender a sustentabilidade desse movimento, que trouxe a cotação de volta aos patamares observados em maio de 2024, é necessário dissecar os fundamentos que estão drenando a força da divisa americana e impulsionando o fluxo de capitais para países emergentes. O cenário atual reflete diretamente no bolso do consumidor, na estratégia das empresas listadas na Bolsa e nas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom). Contudo, o horizonte não está livre de nuvens: o calendário eleitoral de 2026 e as incertezas fiscais permanecem como variáveis-chave que podem alterar essa rota.
O Cenário Internacional e a Perda de Força da Moeda Americana
O primeiro vetor que explica o dólar em queda reside fora das fronteiras brasileiras. A economia dos Estados Unidos, que por anos atuou como um aspirador de liquidez global devido às altas taxas de juros, começa a emitir sinais de mudança de ciclo. A expectativa de cortes nos juros pelo Federal Reserve (o banco central americano) retirou parte da atratividade dos Treasuries (títulos do tesouro americano), historicamente considerados o investimento mais seguro do mundo.
Além da questão monetária, o aumento das incertezas políticas nos Estados Unidos tem pesado sobre a moeda. Quando a maior economia do mundo enfrenta turbulências internas ou externas — como o acirramento de guerras comerciais —, o dólar tende a perder, momentaneamente, seu status inabalável de “porto seguro”. Segundo a análise de Otávio Araújo, consultor-sênior da Zero Markets Brasil, esse movimento de perda de protagonismo do dólar como ativo de refúgio é crucial para entender o fluxo atual.
Investidores globais, ao perceberem que o rendimento nos EUA tende a cair, iniciam um movimento de realocação de portfólio. Cresce a disposição para assumir riscos em busca de retornos mais elevados (yields), o que favorece diretamente as moedas de países emergentes. É neste contexto que o real brasileiro se valoriza, beneficiando-se de um ambiente de liquidez internacional que busca novos destinos para rentabilizar o capital.
O Brasil como Destino de Capital: O Fenômeno do Carry Trade
Se o cenário externo fornece o “empurrão”, os fundamentos internos do Brasil funcionam como o “imã” para a entrada de dólares. O principal atrativo continua sendo o diferencial de juros. Com a taxa básica (Selic) operando em seu maior patamar em quase duas décadas, o Brasil oferece um prêmio de risco extremamente sedutor para o capital estrangeiro.
Este cenário fomenta a estratégia conhecida no mercado financeiro como carry trade. Nesta operação, investidores internacionais captam recursos em países com taxas de juros baixas (como Japão ou, até recentemente, os próprios EUA) e aplicam esses valores em mercados que pagam juros reais elevados, como o Brasil. Para realizar essa operação, o investidor precisa vender dólares e comprar reais, o que aumenta a oferta da moeda americana no mercado local e, consequentemente, pressiona o dólar em queda.
O reflexo desse fluxo é visível não apenas no câmbio, mas também no mercado de capitais. A Bolsa brasileira (B3) tem renovado recordes sucessivos, superando pela primeira vez a barreira psicológica e técnica dos 180 mil pontos. A entrada maciça de capital estrangeiro para a compra de ações brasileiras retroalimenta o ciclo de valorização do real, criando um círculo virtuoso de curto prazo que sustenta as cotações atuais.
Impactos na Economia Real: Consumo e Inflação
A movimentação do dólar em queda ultrapassa as telas dos terminais de investimento e chega à economia real, afetando diretamente o poder de compra das famílias e a formação de preços. Marcio Riauba, head da Mesa de Operações da StoneX Banco de Câmbio, destaca que a valorização do real atua como um amortecedor inflacionário importante.
Produtos que possuem alta sensibilidade cambial ou que são integralmente importados sentem o efeito imediato. Eletrônicos, eletrodomésticos de linha branca e, fundamentalmente, insumos farmacêuticos e medicamentos, tendem a sofrer menos reajustes. Em alguns casos, é possível observar até mesmo uma deflação nesses itens à medida que os estoques são renovados com um custo de importação menor.
Para o consumidor final, o alívio também é perceptível no setor de serviços e lazer. Gastos com viagens internacionais, que haviam se tornado proibitivos com o dólar acima de R$ 6,20, voltam a caber no orçamento de parte da classe média. Passagens aéreas, pacotes turísticos e despesas em moeda estrangeira (como cartões de crédito e assinaturas de serviços de streaming) pesam menos.
Entretanto, o efeito mais estratégico do dólar em queda é macroeconômico: a descompressão da inflação. O câmbio é um dos principais canais de transmissão de preços em uma economia aberta. Com a moeda controlada, a inflação acumulada em 12 meses — que havia acelerado em 2024 e atingido picos em meados de 2025 — passou a mostrar sinais claros de desaceleração. Esse ambiente de preços mais comportados é a “janela de oportunidade” que o Banco Central aguarda para avaliar o início de um ciclo de corte na taxa Selic, o que poderia reaquecer a atividade econômica doméstica.
Vencedores e Perdedores na Bolsa de Valores
No mercado acionário, o dólar em queda redistribui as cartas, alterando a atratividade relativa entre diferentes setores da economia. Para o investidor, entender essa dinâmica é essencial para o rebalanceamento de carteira.
Setores Beneficiados: Empresas voltadas para o mercado interno (domestic cyclicals) são as grandes vencedoras. Companhias de varejo, construção civil, educação, saúde e transporte veem seus custos (muitas vezes dolarizados, como combustíveis e insumos) caírem ou estabilizarem, enquanto suas receitas em reais ganham poder de compra. Além disso, a perspectiva de queda de juros e inflação, impulsionada pelo câmbio, tende a aumentar o consumo das famílias, beneficiando diretamente o faturamento dessas empresas.
Setores Prejudicados: Por outro lado, o dólar em queda é um vento contrário para as empresas exportadoras. Gigantes do agronegócio, do setor de proteína animal, papel e celulose e mineração têm suas receitas formadas em moeda forte. Quando o real se valoriza, a conversão dessas receitas para o balanço local resulta em números menores. Simultaneamente, essas empresas enfrentam pressão em suas margens de lucro, pois seus custos em reais permanecem inalterados enquanto o faturamento cai na conversão. Segundo especialistas da StoneX, isso reduz a competitividade e a lucratividade dessas companhias no curto prazo.
Estratégias de Investimento: Renda Fixa e Realocação
A estabilidade trazida pelo dólar em queda também altera a lógica da Renda Fixa. Com a diminuição do risco de repiques inflacionários via câmbio, ativos prefixados e atrelados à inflação (IPCA+) ganham previsibilidade. No entanto, o investidor deve estar atento: se o dólar continuar caindo e a inflação ceder, a taxa Selic cairá, reduzindo a rentabilidade nominal oferecida pelos novos títulos emitidos.
Analistas sugerem que o momento atual pode ser propício para “realizar lucros” (vender ativos que valorizaram) em posições cambiais. Quem comprou dólar ou ativos no exterior como proteção quando a moeda estava acima de R$ 6,00 já capturou grande parte da valorização. Com a mudança de tendência, manter uma exposição cambial excessiva pode corroer a rentabilidade da carteira. A recomendação de especialistas, como Otávio Araújo, é de ajustes estratégicos, alinhando a exposição ao risco ao novo patamar de câmbio.
Riscos no Radar: O Fator Eleitoral de 2026 e o Fiscal
Apesar do otimismo corrente com o dólar em queda, analistas de mercado, como Bruno Shahini, da Nomad, alertam para a complacência. A trajetória da moeda não é linear e está sujeita a reversões abruptas, especialmente devido ao calendário político brasileiro.
A partir de abril de 2026, o Brasil entra oficialmente no clima da disputa eleitoral. Historicamente, períodos eleitorais geram volatilidade e ruído, reduzindo o peso dos fundamentos econômicos racionais na formação de preços. O mercado passa a operar com maior sensibilidade às pesquisas de intenção de voto e às declarações de candidatos sobre a condução da política econômica futura.
Nesse tabuleiro, a questão fiscal permanece como o “calcanhar de Aquiles”. O mercado exige sinais claros de compromisso com o equilíbrio das contas públicas. A ausência de um discurso sério e crível sobre o controle de gastos pode elevar rapidamente o chamado “prêmio de risco Brasil”. Se a confiança dos investidores for abalada por populismo fiscal ou incerteza política, o fluxo de capitais se inverte.
O risco de uma reversão na tendência de dólar em queda é real se o prêmio de risco subir. Isso funcionaria como um canal de transmissão negativa, reativando a inflação e forçando o Banco Central a manter os juros altos por mais tempo, abortando a recuperação econômica. Ademais, fatores externos pontuais, como o acirramento de guerras comerciais entre potências globais (EUA e China), podem gerar picos de volatilidade, como observado em pregões recentes onde a moeda voltou a testar patamares mais altos momentaneamente.
O fenômeno do dólar em queda no início de 2026 é um respiro bem-vindo para a economia brasileira, fruto de uma combinação feliz entre a mudança de ventos nos Estados Unidos e a atratividade dos juros locais. A queda da moeda americana abre espaço para o controle da inflação, o aumento do poder de compra e a valorização da Bolsa de Valores. No entanto, a sustentabilidade desse cenário depende intrinsecamente da manutenção da responsabilidade fiscal e da estabilidade durante o conturbado processo eleitoral que se avizinha. Para o investidor e para o gestor de empresas, a palavra de ordem é cautela: aproveitar as oportunidades do câmbio favorável sem desconsiderar as proteções contra as incertezas políticas que marcarão o segundo semestre.






