Estratégia de Crescimento: Como os FIIs Utilizam a Troca de Cotas para Superar Juros Altos e Riscos de Liquidez
O cenário macroeconômico brasileiro, marcado pela persistência de taxas de juros em patamares elevados, impôs desafios significativos para a indústria de renda variável, exigindo adaptações estratégicas dos gestores de portfólio. Nesse contexto adverso para captações tradicionais, o mercado de FIIs (Fundos de Investimento Imobiliário) demonstrou resiliência e criatividade ao intensificar o uso de um mecanismo específico para manter a rota de crescimento: a aquisição de ativos mediante a troca de cotas.
Esta modalidade, que ganhou tração robusta nos últimos meses, configura-se como uma alternativa eficiente à emissão de novas ofertas públicas (follow-ons) ou à alavancagem financeira, permitindo que os FIIs continuem a expandir seus patrimônios e diversificar riscos sem a necessidade de acessar o mercado de capitais em momentos de liquidez restrita ou descontos excessivos sobre o valor patrimonial.
Segundo relatório recente divulgado pelo banco BTG Pactual, essa tendência não é apenas um movimento tático de curto prazo, mas uma evolução estrutural na forma como os FIIs realizam fusões, aquisições e incorporações (M&A). Contudo, embora a estratégia apresente benefícios operacionais claros, ela carrega riscos intrínsecos — como o chamado overhang — que exigem a atenção redobrada do investidor pessoa física e institucional.
A Dinâmica dos FIIs em Cenário de Selic Elevada
Para compreender a relevância da troca de cotas, é fundamental analisar o ambiente em que os FIIs operam atualmente. Com a taxa Selic em dois dígitos, o custo de oportunidade do capital torna-se elevado. Investidores tendem a migrar para a renda fixa, pressionando as cotas dos fundos imobiliários no mercado secundário (B3) para baixo. Isso frequentemente resulta em FIIs negociando com deságio em relação ao seu Valor Patrimonial (VP).
Nesse cenário, realizar uma emissão de novas cotas para captar dinheiro e comprar imóveis torna-se proibitivo ou prejudicial ao cotista antigo, pois a emissão abaixo do valor patrimonial gera diluição de valor. É aqui que a estratégia de troca de cotas se consolida como uma solução de engenharia financeira vital para os FIIs.
Ao invés de captar dinheiro no mercado para pagar um vendedor, o fundo comprador oferece suas próprias cotas como moeda de troca. O vendedor do imóvel (ou do fundo incorporado) recebe participação no fundo adquirente. Essa operação, segundo a avaliação do BTG Pactual, cresceu exponencialmente tanto na compra direta de ativos físicos (tijolo) quanto em processos complexos de incorporação entre fundos.
Eficiência Operacional e Proteção do Patrimônio
A análise do banco de investimento destaca que a troca de cotas trouxe ganhos relevantes de eficiência para a indústria de FIIs. A principal vantagem reside na preservação da estrutura de capital. Ao evitar a tomada de dívida (alavancagem) para aquisições, os fundos mantêm seus balanços saudáveis, sem comprometer o fluxo de caixa futuro com o pagamento de juros da dívida — um fator crítico em tempos de crédito caro.
Além disso, as transações via permuta de cotas costumam ser realizadas a valor patrimonial. Isso neutraliza o efeito negativo do deságio de mercado, protegendo o cotista minoritário da diluição que ocorreria em uma oferta pública tradicional feita a valor de mercado.
Outro ponto nevrálgico apontado pelos analistas Daniel Marinelli e Matheus Oliveira, do BTG, é a celeridade. Ofertas públicas de FIIs são processos morosos, burocráticos e caros (envolvendo taxas de estruturação e distribuição). A troca de cotas, por ser uma transação privada ou uma assembleia de incorporação, permite uma alocação de recursos muito mais rápida. Isso favorece o crescimento inorgânico e a diversificação do portfólio dos FIIs, que conseguem capturar oportunidades imobiliárias de forma ágil.
O Alerta do BTG: Precificação e Risco de Overhang
Apesar das evidentes vantagens estratégicas, o movimento não é isento de “efeitos colaterais”. O relatório do BTG Pactual lança luz sobre os riscos que acompanham essa modalidade de crescimento dos FIIs. O primeiro ponto de sensibilidade é a precificação.
Como o pagamento é feito em ativos (cotas) e não em dinheiro, o vendedor do imóvel muitas vezes exige um prêmio de liquidez. Ele entende que, para transformar aquelas cotas em dinheiro vivo, precisará vendê-las no mercado secundário, podendo sofrer com a volatilidade ou falta de liquidez momentânea. Esse prêmio pode encarecer a aquisição para o fundo comprador.
No entanto, o risco mais monitorado pelo mercado é o overhang. Esse fenômeno ocorre quando o volume de cotas recebidas pelo vendedor é desproporcional à liquidez diária do fundo comprador. Imagine que um vendedor receba R$ 100 milhões em cotas de um dos FIIs envolvidos, mas esse fundo negocia apenas R$ 2 milhões por dia na bolsa. Se o vendedor decidir liquidar sua posição rapidamente, ele inundará o mercado com ordens de venda.
Essa pressão vendedora cria um desequilíbrio entre oferta e demanda, forçando a cotação do fundo a cair no mercado secundário, independentemente da qualidade dos seus imóveis. O BTG alerta que, mesmo em cenários potenciais de queda de juros futuros, o efeito do overhang pode impactar de forma relevante e negativa o preço dos FIIs na tela do investidor.
Mecanismos de Proteção: Lock-up e Limites de ADTV
Para mitigar os riscos de overhang e proteger a base de cotistas, gestores de FIIs têm implementado cláusulas contratuais restritivas nas transações de troca de cotas. A mais comum é o lock-up (trava de negociação).
Por meio desse mecanismo, o vendedor que recebe as cotas fica impedido de vendê-las por um período determinado (por exemplo, 6, 12 ou 24 meses). Em outros casos, estabelecem-se limites de venda atrelados ao volume médio diário negociado (ADTV). O vendedor só pode vender, por dia, uma quantidade de cotas que corresponda a uma pequena porcentagem da liquidez do fundo, evitando choques de preço.
Contudo, os analistas do BTG ponderam que “nem sempre esses mecanismos são suficientes para evitar pressões no mercado secundário”. A simples expectativa de que um grande vendedor (um “tubarão”) possui uma posição massiva para desovar pode afugentar novos compradores, mantendo a cotação dos FIIs deprimida por longos períodos.
Consolidação do Mercado: Uma Tendência Irreversível
A visão de longo prazo para o setor de FIIs aponta para uma consolidação inevitável. O banco avalia que a aquisição via troca de cotas “veio para ficar”. A estrutura provou ser uma ferramenta adaptável e com alto potencial de geração de valor quando bem executada por gestoras profissionais.
A tendência é que FIIs maiores, com patrimônio robusto e alta liquidez (conhecidos como High Grade ou Large Caps do setor), continuem “engolindo” fundos menores ou monoativos. A liquidez elevada desses grandes fundos é, por si só, o melhor antídoto contra o risco de overhang, pois o mercado consegue absorver grandes volumes de venda sem distorções severas nos preços.
Casos recentes corroboram essa leitura de consolidação. Fundos de peso como BTLG11 (Logística), HGLG11 (Logística), VILG11 (Logística) e XPML11 (Shopping Centers) utilizaram ativamente esse modelo para expandir seus domínios nos últimos dois anos.
Raio-X das Transações: Quem Está Comprando Quem?
O levantamento do BTG Pactual detalha uma série de movimentações que exemplificam a intensidade dessa estratégia no universo dos FIIs. A lista abrange desde a aquisição pontual de imóveis até incorporações completas de outros fundos listados.
Entre os destaques de 2024 e 2025, observa-se uma forte atividade no setor logístico e de recebíveis. O BTLG11, gerido pelo BTG Pactual, realizou aquisições de imóveis e a incorporação do fundo SARE11, consolidando sua posição como um dos gigantes do setor. O HGLG11, gerido pela CSHG, manteve sua estratégia clássica de aquisição de ativos logísticos premium via troca de cotas, reforçando a qualidade do portfólio.
No segmento de papel (recebíveis), a consolidação também é evidente. O fundo PSEC11 protagonizou uma das maiores movimentações de concentração, incorporando múltiplos FIIs como BPFF11, HGFF11, BLMC11, BLMR11, MORC11 e MORE11. Esse tipo de movimento visa criar veículos de investimento maiores, mais líquidos e com menor custo administrativo proporcional, beneficiando a indústria de FIIs como um todo ao reduzir a fragmentação do mercado.
Outro player relevante citado é o XPML11, focado em shoppings, que utilizou a troca de cotas para aquisição de participação em empreendimentos e para a incorporação do FII RDLI11. O TRXF11, focado em renda urbana e varejo, também aparece como um exemplo claro dessa nova fase, utilizando a estratégia para adquirir imóveis de varejistas de grande porte.
O Futuro dos FIIs e a Perspectiva do Investidor
Olhando para o horizonte de médio prazo, a expectativa é que a troca de cotas continue sendo o motor de crescimento dos FIIs, especialmente enquanto a janela para emissões públicas de grande porte permanecer restrita pelos juros altos. Para o investidor, isso exige uma análise mais sofisticada.
Não basta mais olhar apenas para o Dividend Yield (rendimento de dividendos). É necessário entender a estratégia de alocação de capital do gestor. Os FIIs que conseguem crescer via troca de cotas sem destruir valor para o cotista, e que possuem liquidez suficiente para mitigar a pressão vendedora posterior, tendem a sair na frente.
A capacidade de execução da gestão torna-se um diferencial competitivo ainda mais crítico. Transações mal precificadas ou que não preveem mecanismos de proteção de liquidez podem penalizar o desempenho da cota no longo prazo. Por outro lado, a consolidação gera fundos mais robustos, com maior poder de barganha junto a inquilinos e maior resiliência em crises.
Em suma, a “moeda” dos FIIs deixou de ser apenas o dinheiro em caixa e passou a ser a própria cota. Essa transformação financeira permite que o mercado imobiliário brasileiro continue seu ciclo de institucionalização e profissionalização, mesmo diante de ventos macroeconômicos contrários. A troca de cotas não é apenas uma “saída de emergência” para a crise de liquidez, mas uma ferramenta de engenharia financeira que, segundo o BTG e analistas de mercado, moldará o futuro dos grandes portfólios imobiliários no Brasil.






