Silas Malafaia controla entidade que o defendeu em investigação da PF
O nome de Silas Malafaia voltou a ocupar o centro do debate político e religioso no Brasil. O pastor evangélico, um dos líderes mais influentes do segmento, foi incluído pela Polícia Federal em um inquérito que apura tentativas de obstrução da Justiça em processos contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Pouco após a revelação, uma entidade religiosa divulgou nota em sua defesa. O detalhe que chama a atenção: a própria organização é controlada pelo pastor.
Esse episódio reacende discussões sobre a mistura entre religião, política e influência institucional, elementos que marcam a trajetória de Silas Malafaia e reforçam a sua presença no cenário público brasileiro.
A entidade que defendeu Malafaia
No último domingo (17), o Cimeb (Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos) publicou uma nota em repúdio à inclusão de Silas Malafaia no inquérito da PF. O documento, assinado por 26 pastores, alegava perseguição religiosa e política contra o líder evangélico.
O Cimeb foi fundado em 2001 e tem como presidente justamente Silas Malafaia. Documentos oficiais mostram que os contatos da entidade junto à Receita Federal são da Editora Central Gospel, empresa pertencente ao pastor. O endereço registrado também coincide com a sede da Avec (Associação Vitória em Cristo), braço beneficente de sua igreja, localizada na Taquara, Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Assim, fica claro que a instituição que saiu em defesa de Malafaia é, na prática, um braço do próprio grupo controlado por ele.
Quem assinou a nota em apoio a Silas Malafaia
Entre os pastores que assinaram a manifestação de solidariedade estão aliados históricos de Silas Malafaia no meio evangélico.
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Claudio Duarte – líder do Ministério Projeto Recomeçar, na Baixada Fluminense, e presença frequente em eventos organizados por Malafaia. Duarte também tem livros publicados pela Central Gospel, editora do pastor.
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Jabes Alencar – conferencista conhecido, figura de destaque em congressos evangélicos.
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Michael Aboud – líder da Igreja Embaixada do Reino de Deus, em Santa Catarina, que já esteve ao lado de Malafaia em outras situações polêmicas. Ambos figuraram na Operação Timóteo, em 2016, quando Malafaia foi indiciado por lavagem de dinheiro.
A proximidade entre os signatários da nota e o pastor reforça a percepção de que a manifestação tem caráter mais pessoal do que institucional.
Por que Silas Malafaia entrou na mira da PF
A Polícia Federal incluiu Silas Malafaia no inquérito que investiga a suposta articulação para pressionar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) a não condenarem Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de Estado em 2022.
A PF apura os crimes de:
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Coação no curso do processo;
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Obstrução de investigação de organização criminosa;
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Tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
Segundo os investigadores, Malafaia teve papel ativo na convocação e organização de manifestações em apoio a Bolsonaro, como a ocorrida em 3 de agosto, que contou com a participação remota do ex-presidente por videochamada. Esse ato foi considerado pelos investigadores mais uma etapa da pressão sobre o STF.
A partir desse evento, Bolsonaro teve a prisão domiciliar decretada, o que ampliou o foco sobre os aliados envolvidos na mobilização.
A relação de Malafaia com Bolsonaro
A ligação entre Silas Malafaia e Jair Bolsonaro não é nova. Durante o governo do ex-presidente, o pastor foi um dos principais apoiadores e atuou como interlocutor junto ao segmento evangélico.
Mesmo após o fim do mandato de Bolsonaro, Malafaia se manteve como uma voz ativa em sua defesa, participando de atos públicos, entrevistas e declarações em apoio ao ex-presidente e contra decisões do STF.
Esse alinhamento político-religioso tem colocado Malafaia cada vez mais sob os holofotes das investigações que cercam o entorno bolsonarista.
A Operação Timóteo e os antecedentes de Malafaia
Não é a primeira vez que o nome de Silas Malafaia aparece em investigações policiais. Em 2016, ele foi indiciado na Operação Timóteo, que apurava um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo royalties da exploração mineral.
Embora tenha negado envolvimento direto, documentos da época apontavam a ligação entre o pastor e suspeitos da operação. Esse histórico contribui para a atual percepção de que Malafaia está novamente sob risco jurídico.
O papel de Eduardo Bolsonaro e a conexão com os EUA
Outro elemento que reforça a complexidade do caso é a participação do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro. A PF apura sua articulação nos Estados Unidos junto ao governo Donald Trump, reivindicando tarifas comerciais contra o Brasil e apoiando sanções a autoridades brasileiras, como o ministro Alexandre de Moraes.
esse elo internacional ampliou o escopo das investigações, conectando política externa, economia e a atuação de líderes religiosos como Silas Malafaia, que aparecem ao lado de Bolsonaro nessa rede de influência.
Religião, política e poder
A trajetória de Silas Malafaia mostra como religião e política se entrelaçam no Brasil contemporâneo. Pastor, empresário, comunicador e aliado de figuras políticas de destaque, ele construiu um império que combina púlpito, mídia e influência institucional.
A defesa pública vinda de uma entidade controlada por ele mesmo evidencia a concentração de poder e reforça o debate sobre até que ponto líderes religiosos podem mobilizar estruturas religiosas para atuar em causas políticas e jurídicas.
Como o caso afeta a imagem de Malafaia
Do ponto de vista político, o caso fragiliza a imagem de Silas Malafaia junto a setores da sociedade que criticam a mistura de religião com poder institucional.
Por outro lado, entre seus seguidores, a narrativa de perseguição pode fortalecer sua posição, já que o discurso de vitimização religiosa encontra eco em parte do eleitorado evangélico.
Especialistas acreditam que a postura do pastor, longe de recuar, deve ser de enfrentamento, reforçando sua estratégia de comunicação combativa e alinhada ao bolsonarismo.
Perspectivas para o inquérito
O inquérito da PF envolvendo Silas Malafaia ainda está em andamento e pode trazer novos desdobramentos. Entre os cenários possíveis estão:
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Avanço das investigações com oferecimento de denúncia;
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Conexão com outras operações ligadas ao bolsonarismo;
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Impactos políticos sobre a relação entre igrejas evangélicas e o STF.
Enquanto isso, o pastor deve continuar usando sua rede de influência para mobilizar apoio e contestar as acusações.
O caso de Silas Malafaia é emblemático para entender a dinâmica entre religião, política e poder no Brasil. Ao mesmo tempo em que lidera uma das maiores frentes evangélicas do país, ele também se vê cada vez mais próximo do centro de investigações policiais de grande repercussão.
A defesa feita por uma entidade controlada por ele mesmo expõe a força de sua estrutura, mas também amplia os questionamentos sobre independência institucional e uso de influência religiosa em disputas políticas e judiciais.
O desenrolar das investigações dirá se a trajetória de Malafaia sofrerá impactos irreversíveis ou se o pastor conseguirá, mais uma vez, se posicionar como voz ativa em meio às turbulências políticas do país.






