China ignora pressão dos EUA e fecha 2025 com recorde histórico no superávit comercial
A economia global testemunhou, no encerramento de 2025, uma demonstração de força e resiliência sem precedentes vinda do Oriente. Em um cenário marcado pelo retorno de tensões protecionistas e pela sombra de novas guerras tarifárias, o superávit comercial da China atingiu um patamar recorde de quase US$ 1,2 trilhão. Este resultado, divulgado nesta quarta-feira (14) pela administração alfandegária chinesa, não apenas supera todas as expectativas de mercado, mas também reconfigura o tabuleiro geopolítico, desafiando abertamente as políticas de contenção econômica lideradas pelos Estados Unidos e pelo governo de Donald Trump.
O impressionante superávit comercial da China — especificamente US$ 1,189 trilhão — é um número que fala por si. Para colocar em perspectiva, o saldo positivo da balança comercial chinesa é comparável ao Produto Interno Bruto (PIB) inteiro de economias robustas que figuram entre as 20 maiores do mundo, como a Arábia Saudita. A conquista deste marco financeiro ocorre em um momento de extrema volatilidade, onde as fricções comerciais, tecnológicas e geopolíticas se intensificaram desde o retorno dos Republicanos à Casa Branca no ano passado.
A Estratégia de Diversificação e o Superávit Comercial da China
O crescimento exponencial do superávit comercial da China não é fruto do acaso, mas o resultado de uma estratégia meticulosa desenhada por Pequim. Diante das barreiras impostas por Washington, os formuladores de políticas econômicas chinesas orquestraram um pivô estratégico, desviando o foco das exportações para mercados alternativos e emergentes. O “Sul Global” — compreendendo o Sudeste Asiático, a África e a América Latina — tornou-se o destino preferencial dos produtos manufaturados chineses.
Essa manobra permitiu que o superávit comercial da China continuasse a crescer, mesmo com as portas do mercado norte-americano se fechando parcialmente. Ao ganhar escala global nessas novas frentes, os produtores chineses conseguiram amortecer o impacto das tarifas punitivas dos EUA. A diversificação dos parceiros comerciais funcionou como um escudo, garantindo que a máquina de exportação asiática não apenas continuasse operando, mas acelerasse seu ritmo.
Segundo Wang Jun, vice-ministro da administração alfandegária da China, a capacidade do país de resistir a riscos externos foi “significativamente aprimorada” graças a essa base de parceiros mais ampla. O superávit comercial da China, portanto, deixa de ser dependente de uma única relação bilateral e passa a refletir a onipresença da manufatura chinesa em todos os cantos do globo.
O Paradoxo da Demanda Interna e a Capacidade Excedente
Analistas internacionais apontam, contudo, que o recorde no superávit comercial da China esconde fragilidades estruturais na segunda maior economia do mundo. Fred Neumann, economista-chefe para a Ásia do HSBC, observa que a competitividade extraordinária da economia chinesa é uma faca de dois gumes. Se por um lado ela reflete ganhos reais de produtividade e uma crescente sofisticação tecnológica — visível na qualidade dos veículos elétricos e eletrônicos exportados —, por outro, ela denuncia uma demanda doméstica anêmica.
A crise persistente no setor imobiliário chinês e a confiança abalada do consumidor local criaram um cenário de capacidade excedente. As fábricas chinesas produzem muito mais do que a população local consome. Para escoar essa produção e manter os empregos, a única saída é a exportação agressiva, o que infla diretamente o superávit comercial da China.
Essa dinâmica coloca uma pressão imensa sobre os formuladores de políticas em Pequim. A grande questão para 2026 é por quanto tempo a economia de US$ 19 trilhões poderá sustentar esse modelo. O superávit comercial da China serve, atualmente, como a principal alavanca para compensar a lentidão interna, enviando produtos cada vez mais baratos para o exterior. No entanto, essa estratégia tem um limite político e diplomático.
Tensões Globais e o Risco de Retaliação
O aumento vertiginoso do superávit comercial da China está acendendo alertas vermelhos não apenas em Washington, mas também em Bruxelas, Nova Délhi e até mesmo em Brasília. O fluxo incessante de manufaturados chineses baratos é visto por muitos governos como uma ameaça às suas indústrias nacionais. Neumann alerta que o desequilíbrio gerado pelo superávit comercial da China pode elevar as tensões com parceiros comerciais, especialmente aqueles que também dependem de exportações industriais e veem seus mercados invadidos.
À medida que 2026 se aproxima, a China enfrenta o desafio hercúleo de afastar as preocupações globais sobre suas práticas comerciais. O excesso de capacidade industrial, financiado por subsídios estatais implícitos ou explícitos, é o ponto central das críticas. Se o mundo decidir fechar as portas de forma coordenada para proteger suas indústrias, o superávit comercial da China poderá sofrer um revés significativo, obrigando o país a lidar com seus problemas internos de demanda sem a válvula de escape das exportações.
Dados de Dezembro: Um Final de Ano Forte
Os números de dezembro de 2025 confirmam a tendência de alta. As remessas externas cresceram 6,6% em termos de valor na comparação anual, uma aceleração em relação à alta de 5,9% registrada em novembro. Esse desempenho superou largamente as previsões de economistas consultados pela Reuters, que esperavam um aumento modesto de 3,0%. Esse impulso final foi crucial para consolidar o recorde anual do superávit comercial da China.
Do lado das importações, houve também uma surpresa positiva, com alta de 5,7%, superando a previsão de 0,9%. Zhiwei Zhang, economista-chefe da Pinpoint Asset Management, avalia que o forte crescimento das exportações ajuda a mitigar a fraca demanda doméstica. Para ele, com o mercado acionário em alta e uma relativa estabilidade nas relações entre EUA e China — apesar da retórica —, é provável que o governo chinês mantenha a postura de política macroeconômica inalterada no primeiro trimestre de 2026, confiando no superávit comercial da China como motor de crescimento.
O Setor de Terras Raras: Estratégia e Geopolítica
Um componente vital que impulsionou os números e a influência geopolítica chinesa foi a exportação de terras raras. Mesmo sob restrições governamentais iniciadas em abril, as exportações desses minerais estratégicos atingiram em 2025 o nível mais alto desde 2014. Esse movimento é contra-intuitivo, mas revela a complexidade da dependência mundial em relação à China.
O país exportou um total de 62.585 toneladas métricas do grupo de 17 elementos essenciais para a fabricação de tudo, desde smartphones e carros elétricos até mísseis e equipamentos de defesa. Isso representa um aumento anual de 12,9%. O controle sobre esses recursos é uma das cartas na manga de Pequim em sua disputa com o Ocidente. Embora a China tenha imposto controles de exportação em resposta às tarifas dos EUA, a demanda global falou mais alto, e os acordos firmados com a Europa e os próprios Estados Unidos permitiram a retomada dos embarques, contribuindo para o superávit comercial da China.
Em dezembro, houve uma queda mensal de 20% nas remessas, explicada pela formação de estoques antes do recesso de Natal, mas o volume ainda foi 32% maior do que no mesmo mês do ano anterior. A capacidade da China de manipular a oferta desses minerais continua sendo um fator de risco para a cadeia de suprimentos global e um elemento de barganha que sustenta a força do superávit comercial da China.
Desaceleração Automotiva no Horizonte de 2026
Apesar dos números robustos do comércio geral, sinais de fadiga começam a aparecer em setores-chave que foram motores do crescimento recente. A Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis (CAAM) emitiu projeções cautelosas para 2026. As vendas e as exportações de veículos devem desacelerar em meio à demanda fraca e incertezas externas.
A previsão é que as vendas de veículos cresçam apenas 1% neste ano, uma queda drástica em relação ao avanço de 9,4% registrado em 2025. O segmento de veículos elétricos e híbridos plug-in, a joia da coroa da indústria chinesa, também deve ver seu crescimento diminuir para 15,2%, ante os explosivos 28,2% do ano anterior.
As exportações de veículos, que foram vitais para o superávit comercial da China em 2025, devem avançar 4,3% em 2026. Embora positivo, esse número é modesto quando comparado à expansão de 21,1% observada no ano passado. Essa desaceleração reflete tanto a saturação de certos mercados quanto o aumento das barreiras tarifárias impostas pela União Europeia e outros países que tentam proteger suas indústrias automotivas da concorrência chinesa.
O Futuro do Superávit Comercial da China
Olhando para o futuro, a sustentabilidade do superávit comercial da China dependerá da habilidade de Pequim em navegar um ambiente internacional cada vez mais hostil. A dependência excessiva de exportações para manter o crescimento do PIB é uma vulnerabilidade que os rivais geopolíticos da China conhecem bem.
Se o governo Trump decidir escalar a guerra comercial para um nível de bloqueio total ou tarifas universais, e se a Europa seguir o mesmo caminho, a China terá que encontrar formas de estimular o consumo interno de maneira eficaz — algo que tem falhado em fazer nos últimos anos. Por enquanto, o superávit comercial da China de US$ 1,2 trilhão serve como um colchão financeiro gigantesco, permitindo ao país acumular reservas e investir em inovação tecnológica.
No entanto, o desequilíbrio que esse superávit gera na economia global é insustentável a longo prazo. O mundo não tem capacidade infinita para absorver a produção chinesa. A pressão para que a China valorize sua moeda ou altere suas práticas industriais deve aumentar. O superávit comercial da China é, ao mesmo tempo, um troféu de eficiência industrial e um alvo nas costas da economia chinesa.
O ano de 2025 entra para a história como o momento em que a China provou que pode continuar crescendo e exportando massivamente, independentemente de quem ocupa a Casa Branca. A estratégia de diversificação de mercados provou-se acertada, e o setor tecnológico chinês mostrou maturidade. Contudo, os desafios para 2026 são reais. Com o setor automotivo desacelerando e o mundo em alerta contra o “dumping” de produtos asiáticos, manter o superávit comercial da China nesses níveis estratosféricos exigirá mais do que apenas preços baixos; exigirá diplomacia e, talvez, uma reforma profunda no modelo de crescimento do país.
Por ora, os dados são incontestáveis: a China continua sendo a fábrica do mundo, e seu peso na balança comercial global é maior do que nunca. Resta saber como o Ocidente reagirá a esse domínio contínuo e quais serão as próximas jogadas na complexa partida de xadrez do comércio internacional.






