Trump e Milei: os bastidores da ajuda dos EUA que influenciou as eleições na Argentina
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, admitiu nesta segunda-feira (27) que seu governo deu “muita ajuda” ao presidente da Argentina, Javier Milei, para garantir o sucesso nas eleições legislativas argentinas. Segundo o líder norte-americano, Washington teria oferecido um pacote financeiro de até US$ 40 bilhões em apoio ao país vizinho, combinando acordos de swap cambial e investimentos em dívida soberana.
A declaração, feita durante viagem oficial à Ásia, gerou forte repercussão internacional e reacendeu o debate sobre o peso da influência dos EUA na política e economia da América do Sul. Trump classificou a vitória do partido de Milei como uma “grande conquista” e reafirmou seu alinhamento com o governo argentino, que desde o início do mandato tem adotado uma agenda econômica liberal e medidas de austeridade severas.
O pacote bilionário que fortaleceu Milei
De acordo com informações oficiais, o pacote anunciado por Trump incluiu duas linhas de apoio financeiro:
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Um acordo de swap cambial de US$ 20 bilhões, que forneceu liquidez imediata para estabilizar o peso argentino;
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Uma proposta de investimento em dívida soberana no mesmo valor, voltada à recompra de títulos e recomposição das reservas cambiais do país.
O total de US$ 40 bilhões representou uma das maiores injeções financeiras dos Estados Unidos em um parceiro latino-americano nas últimas décadas. Segundo Trump, parte do plano foi supervisionada diretamente pelo secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, responsável por desenhar os mecanismos de financiamento e monitorar a aplicação dos recursos.
O impacto da medida foi imediato. Após o anúncio, os títulos da dívida argentina registraram forte valorização nos mercados internacionais, e o risco-país teve uma queda expressiva. Esse movimento contribuiu para restaurar temporariamente a confiança dos investidores e garantiu a Milei um discurso de vitória não apenas política, mas também econômica.
A convergência ideológica entre Trump e Milei
O apoio de Trump a Milei não é apenas econômico, mas também político. Ambos compartilham um discurso nacionalista, liberal e anti-establishment, com forte apelo popular. O norte-americano considera o argentino um aliado estratégico na região e, em diversas ocasiões, o elogiou publicamente como “um reformador corajoso que está consertando 100 anos de políticas ruins”.
A parceria entre os dois líderes reflete uma reconfiguração geopolítica na América do Sul, com os EUA buscando aproximar-se de governos de direita e reduzir a influência de China e Rússia sobre países com economias fragilizadas.
Milei, por sua vez, encontrou em Trump uma figura que legitima seu projeto de ajuste econômico radical, que inclui cortes de gastos públicos, privatizações e abertura comercial acelerada. O presidente argentino, que enfrenta forte oposição interna, vê na relação com Washington uma forma de atrair investimentos externos e estabilizar a moeda sem depender do Fundo Monetário Internacional (FMI).
O papel do Tesouro americano e de Scott Bessent
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, desempenhou papel central na construção do plano de resgate. Segundo o próprio Trump, Bessent foi responsável por estruturar o pacote de forma a permitir liquidez imediata sem comprometer as reservas norte-americanas.
O objetivo do plano foi criar uma “ponte” de financiamento para sustentar as reformas de Milei e evitar o colapso das reservas cambiais da Argentina, que vinham caindo rapidamente devido à alta dos juros globais e à desvalorização do peso.
Bessent argumentou que Milei “está revertendo um século de políticas equivocadas” e que a assistência dos EUA foi crucial para “dar tempo ao novo governo de mostrar resultados concretos”.
A estratégia foi vista como uma aposta arriscada por parte do Tesouro americano, mas os resultados iniciais — como a valorização dos títulos argentinos e o fortalecimento do câmbio — reforçaram a visão de que o plano obteve sucesso de curto prazo.
A Fitch e o impacto no crédito argentino
A agência Fitch Ratings confirmou que o apoio dos Estados Unidos ajudou a impedir um rebaixamento da nota de crédito da Argentina. No entanto, a instituição alertou que o país ainda enfrenta vulnerabilidades estruturais e precisa adotar medidas mais amplas para reconstruir reservas internacionais e garantir estabilidade de longo prazo.
O endosso de Trump e a injeção bilionária de capital externo criaram uma janela de alívio para o governo Milei, mas economistas destacam que o sucesso duradouro dependerá da capacidade de o presidente argentino manter superávits fiscais, controlar a inflação e atrair novos investidores privados.
A reação internacional
O anúncio provocou reações diversas na comunidade internacional. Governos da América Latina enxergaram o apoio como uma interferência direta dos EUA em processos eleitorais estrangeiros, enquanto aliados de Milei interpretaram o gesto como uma prova de confiança e reconhecimento internacional.
Na Europa, analistas do mercado financeiro consideraram o acordo um movimento de reposicionamento estratégico de Washington, com foco em conter a influência chinesa sobre as economias emergentes da região. A China, por sua vez, mantém estreitas relações comerciais com a Argentina, principalmente no setor de energia e infraestrutura.
Para a diplomacia norte-americana, a aliança entre Trump e Milei reforça a ideia de que os EUA pretendem reconstruir sua presença econômica e política na América do Sul, consolidando laços com governos de perfil liberal e de mercado aberto.
O contexto político argentino
A vitória legislativa de Milei garantiu ao seu partido uma base sólida no Congresso, abrindo caminho para a aprovação de reformas estruturais profundas. O presidente argentino defende uma agenda de redução drástica do Estado, com privatizações, desregulamentação de setores estratégicos e flexibilização trabalhista.
Contudo, as medidas de austeridade têm gerado protestos e resistência popular, especialmente entre sindicatos e movimentos sociais. O custo político das reformas é alto, mas o apoio norte-americano, tanto financeiro quanto simbólico, tem funcionado como um amortecedor para a imagem do governo.
Trump, ao destacar que “os EUA ganharam muito dinheiro com essa eleição”, sinalizou que o fortalecimento do mercado argentino também beneficiou investidores americanos, tornando o apoio duplamente vantajoso.
América do Sul no radar de Trump
Ao comentar o tema, Trump afirmou que seu governo está “se concentrando muito na América do Sul” e que pretende manter relações estreitas com países aliados ideologicamente. O reposicionamento estratégico dos EUA na região é visto como uma tentativa de reconstruir influência em um território historicamente disputado por outras potências, especialmente após anos de retração diplomática.
A aproximação com Milei é, portanto, parte de uma estratégia maior de reforço de presença em governos simpáticos ao livre mercado e alinhados à política externa americana. O gesto também serve de contraponto a líderes de esquerda que mantêm laços próximos com China e Rússia.
Milei e o desafio do equilíbrio
Com o apoio explícito de Trump, Javier Milei ganha fôlego para consolidar sua política econômica, mas enfrenta o desafio de equilibrar a credibilidade internacional com o descontentamento interno. O ajuste fiscal e as reformas estruturais têm impacto direto no poder de compra da população e na taxa de desemprego, que deve subir nos próximos trimestres.
Por outro lado, o respaldo financeiro norte-americano garante estabilidade cambial e confiança do mercado. Analistas avaliam que, se o plano de reformas tiver continuidade e atrair investimentos externos, a Argentina pode reconstruir sua base econômica e retomar o crescimento a partir de 2026.
A simbologia da aliança entre Trump e Milei
A relação entre Trump e Milei simboliza uma nova etapa da diplomacia interamericana. Ambos representam líderes de estilo confrontador, avessos a instituições multilaterais e defensores do nacionalismo econômico.
Para Washington, Milei é o exemplo de um aliado confiável em meio a um cenário de instabilidade política regional. Para Buenos Aires, Trump é o parceiro que garante acesso a crédito, investimentos e legitimidade no cenário global.
Essa aliança, no entanto, também carrega riscos: o excesso de dependência política e econômica dos EUA pode limitar a autonomia da Argentina em negociações com outros blocos, como Mercosul e União Europeia.
O novo eixo político-financeiro da América do Sul
A declaração de Donald Trump sobre a ajuda a Javier Milei reforça o papel central dos EUA na política econômica sul-americana e marca uma nova fase de realinhamento regional. Com a vitória legislativa e o respaldo financeiro americano, Milei fortalece seu poder interno e consolida um discurso de sucesso econômico.
Para Trump, a parceria representa uma vitória diplomática e estratégica, ampliando sua influência em um continente onde as potências ocidentais vinham perdendo terreno. A combinação de interesse político, ideológico e financeiro cria um novo eixo de poder entre Washington e Buenos Aires — um movimento que pode redefinir as relações hemisféricas nos próximos anos.






