Petrobras rebaixada pelo BBI: dividendos mais modestos e risco político mudam a leitura sobre a estatal
A decisão do Bradesco BBI de rever sua recomendação para a Petrobras trouxe novos elementos ao debate sobre o papel da estatal no portfólio dos investidores em 2026. A Petrobras rebaixada pelo BBI, que passou de outperform para marketperform, reflete uma avaliação mais cautelosa diante de dividendos menos atrativos no curto prazo, limitações de valorização após forte alta e a persistência do risco político associado ao controle estatal da companhia.
Embora o banco tenha elevado o preço-alvo das ações, o movimento de rebaixamento sinaliza que, na visão dos analistas, o momento de forte assimetria positiva ficou para trás. A Petrobras segue gerando caixa, negociando com desconto relevante frente a pares globais e mantendo papel central no setor de óleo e gás, mas o balanço entre risco e retorno tornou-se menos favorável após a valorização expressiva registrada no início do ano.
Revisão de recomendação e novos preços-alvo
O relatório que colocou a Petrobras rebaixada pelo BBI chama atenção por um ponto aparentemente contraditório: ao mesmo tempo em que o banco adota uma postura neutra para as ações, ele eleva o preço-alvo de PETR4 de R$ 40 para R$ 45 e o do ADR PBR de US$ 15 para US$ 17. A leitura, porém, é técnica e consistente com o cenário traçado pelos analistas.
Segundo o BBI, a alta acumulada de cerca de 21% das ações da Petrobras em 2026 antecipou boa parte dos gatilhos positivos esperados para o papel. Com isso, o potencial adicional de valorização ficou mais limitado, especialmente em um ambiente de preços do petróleo mais estáveis e com menor prêmio geopolítico embutido.
No mesmo movimento, o banco rebaixou a recomendação da colombiana Ecopetrol para underperform, reforçando uma postura mais seletiva em relação às petroleiras estatais da América Latina.
Valorização recente reduz assimetria positiva
Um dos principais argumentos para a Petrobras rebaixada pelo BBI é o desempenho recente das ações. A arrancada no início do ano reposicionou a estatal em termos de valuation, reduzindo o espaço para revisões positivas adicionais sem mudanças estruturais relevantes.
O BBI trabalha com um preço de longo prazo do Brent Crude em US$ 65 por barril, patamar considerado suficiente para sustentar a geração de caixa da Petrobras, mas não necessariamente para justificar múltiplos mais elevados de forma consistente. Além disso, parte da recente valorização do petróleo foi atribuída a um prêmio geopolítico que, na avaliação do banco, pode se dissipar com relativa rapidez.
Esse cenário limita o upside das ações no curto e médio prazo, reforçando a decisão de adotar uma recomendação neutra.
Dividendos entram no centro da análise
O tema dos dividendos é central para entender por que a Petrobras rebaixada pelo BBI mesmo com fundamentos ainda sólidos. O banco considera que o novo preço-alvo embute um dividend yield “justo” de aproximadamente 9% ao ano no horizonte de cinco anos, patamar ainda atrativo, mas inferior ao que já foi praticado pela companhia em ciclos anteriores.
Para 2026, a estimativa do BBI é de um dividend yield mais próximo de 6,5%, abaixo da média de pares nos Estados Unidos, estimada em 7%, e também inferior ao yield projetado para a Vale, em torno de 8%. Essa diferença reduz a atratividade relativa da Petrobras para investidores focados em renda.
Além disso, há incertezas relacionadas ao volume de distribuição no curto prazo, especialmente diante de pressões de investimento, obrigações não recorrentes e decisões estratégicas influenciadas pelo controlador.
Valuation segue descontado, mas com ressalvas
Mesmo com a Petrobras rebaixada pelo BBI, o banco reconhece que a estatal continua negociando a múltiplos descontados em relação à média global. A estimativa é de que a companhia esteja avaliada a cerca de 3,7 vezes EV/Ebitda em 2026, o que representa um desconto de aproximadamente 29% frente a pares internacionais.
O preço-alvo revisado pressupõe um múltiplo de 4,0 vezes EV/Ebitda, ainda com desconto de cerca de 20%. Esse deságio é considerado “justificado” pelo BBI em função do risco político, do custo de capital mais elevado e das particularidades do status de estatal, que podem afetar decisões de investimento, política de preços e distribuição de dividendos.
Risco político permanece no radar
O risco político é um elemento estrutural na tese da Petrobras rebaixada pelo BBI. Embora o banco não projete mudanças drásticas no curto prazo, a simples possibilidade de interferência do controlador nas diretrizes da companhia é suficiente para justificar um prêmio de risco adicional.
Decisões relacionadas a preços de combustíveis, investimentos em refino, transição energética e políticas de dividendos seguem sob escrutínio do mercado. Mesmo em períodos de maior previsibilidade, esse fator limita a disposição dos investidores a pagar múltiplos mais elevados pela estatal.
O que pode mudar a leitura do mercado
Apesar do rebaixamento, o BBI elenca fatores que poderiam “virar o jogo” e levar a uma reavaliação positiva da Petrobras. Entre eles estão uma nova rodada de alta do Brent, que aumentaria a geração de caixa; um fluxo forte e sustentado de capital para mercados emergentes; e eventuais mudanças nas diretrizes do controlador que reduzam a percepção de risco político.
Esses vetores funcionam como gatilhos potenciais, mas, no cenário base do banco, ainda não são suficientes para justificar uma recomendação de compra.
Divergência entre casas reforça debate
A leitura de que a Petrobras rebaixada pelo BBI não é consenso no mercado. O BTG Pactual, por exemplo, também mantém recomendação neutra, citando riscos de dividendos do quarto trimestre de 2025 ficarem abaixo do consenso e pressões relacionadas a capex e saídas não recorrentes, como itens ligados à PPSA e ao acordo Jubarte AIP.
Já o Goldman Sachs adota uma visão mais construtiva, mantendo recomendação de compra. O banco destaca um carregamento de dividendos próximo de 9% em 2026 e 2027 e aponta o fator eleições como possível catalisador para o papel. No setor, o Goldman demonstra preferência por PRIO e vê a Brava Energia como a empresa mais exposta a uma eventual alta adicional do petróleo.
Setor de óleo e gás em fase de maior seletividade
O movimento que levou à Petrobras rebaixada pelo BBI reflete um momento de maior seletividade no setor de óleo e gás. Com preços do petróleo mais estabilizados e valuations menos comprimidos, os analistas tendem a diferenciar com mais rigor empresas com maior alavancagem operacional ao Brent, estruturas de capital mais flexíveis e menor interferência estatal.
Nesse contexto, a Petrobras segue relevante, líquida e estrategicamente importante, mas passa a disputar espaço com companhias privadas que oferecem perfis de risco-retorno considerados mais atraentes por parte do mercado.
Reação esperada do investidor
Para o investidor, a Petrobras rebaixada pelo BBI não significa necessariamente um sinal de saída imediata do papel, mas sim um convite à reavaliação de expectativas. A tese de dividendos extraordinários perde força no curto prazo, enquanto o foco se desloca para geração de caixa sustentável, disciplina de investimentos e governança.
A decisão de manter, reduzir ou aumentar posição passa a depender mais do perfil do investidor e de sua tolerância a risco político do que de uma expectativa clara de valorização expressiva no curto prazo.
Petrobras segue sólida, mas sob novo enquadramento
O relatório do Bradesco BBI reposiciona a Petrobras em um enquadramento mais equilibrado entre fundamentos e riscos. A Petrobras rebaixada pelo BBI continua sendo uma das principais pagadoras de dividendos do mercado brasileiro, com valuation descontado e forte geração de caixa, mas já não oferece a mesma assimetria positiva observada em momentos anteriores.
O mercado, agora, acompanha com atenção os próximos passos da companhia, a dinâmica do petróleo no cenário internacional e, sobretudo, os sinais vindos do controlador, que seguem sendo determinantes para o humor dos investidores.









