Câmara dos Deputados avança para votar a regulamentação do trabalho por aplicativo até março
O Congresso Nacional vive um dos momentos políticos mais intensos do início de 2026 com a tramitação e debates em torno da regulamentação do trabalho por aplicativo, tema que mobiliza deputados, governo, plataformas digitais e representantes dos trabalhadores. A pauta de votação ganhou destaque nesta semana após declaração pública de avanço sobre o Projeto de Lei Complementar (PLP) nº 152/25, que busca estabelecer regras claras para a atuação de motoristas, entregadores e demais profissionais que prestam serviços por meio de aplicativos no Brasil.
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), sinalizou a intenção de colocar o texto em votação ainda no primeiro semestre, com foco em aprovar o projeto até a primeira quinzena de março. Em publicações nas redes sociais e encontros com parlamentares, o parlamentar enfatizou que o processo será conduzido com diálogo amplo e com “equilíbrio e critério técnico” para que a Câmara entregue uma legislação “equilibrada e eficaz”.
A proposta, fruto de articulações entre o Legislativo e o Executivo, integra as prioridades legislativas de 2026 e representa uma tentativa de regulamentar uma realidade que já envolve milhões de trabalhadores em todo o país.
O que está em jogo com a regulamentação do trabalho por aplicativo
A regulamentação do trabalho por aplicativo busca responder a uma série de desafios da economia digital e das plataformas que mediam serviços de transporte de pessoas, entrega de mercadorias e outras atividades. A ausência de um marco regulatório específico tem levado a conflitos jurídicos, questionamentos sobre direitos trabalhistas e debates sobre a autonomia desses trabalhadores.
O PLP 152/25, de autoria do deputado Luiz Gastão (PSD-CE), está em análise na Comissão Especial da Câmara especialmente criada para examinar o tema. O colegiado é presidido pelo deputado Joaquim Passarinho (PL-PA), com relatoria do deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE).
Entre os principais pontos em discussão estão:
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Formalização da relação de trabalho entre plataformas digitais e trabalhadores, sem caracterizar vínculo empregatício tradicional, mas com garantias mínimas claras às partes;
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Garantias de autonomia, vedando imposição de jornada mínima ou penalidades por recusar serviços;
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Limitação das taxas cobradas pelas plataformas, especialmente em serviços de transporte remunerado de passageiros;
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Regras de proteção previdenciária e contribuição ao Regime Geral de Previdência Social;
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Definição de direitos fundamentais como mecanismos de defesa contra bloqueio injustificado de contas e transparência nos algoritmos que regulam a distribuição de corridas e entregas.
Esses pontos demonstram a complexidade envolvida na regulamentação e a necessidade de conciliar interesses de trabalhadores, usuários e empresas do setor, em um contexto de rápida evolução tecnológica e impacto econômico significativo.
Agenda legislativa e pressão política
A intenção de Hugo Motta é clara: pautar a votação da regulamentação do trabalho por aplicativo ainda no início de março, como uma das prioridades da pauta da Câmara em 2026. Essa estratégia ocorre em meio a outras pautas sensíveis no Congresso Nacional, como o fim da escala 6×1 e propostas de reforma administrativa, que também demandam negociação entre governo e parlamento.
O presidente da Casa tem mantido interlocuções com ministros do governo federal e lideranças partidárias para construir consenso em torno do PLP 152/25 e garantir que a matéria possa avançar com maior rapidez possível. Trata-se de um esforço político para convergir posições divergentes e alinhar o Legislativo com os interesses de modernização da legislação trabalhista, sem sacrificar direitos essenciais dos trabalhadores envolvidos.
O governo federal, por sua vez, tem mostrado disposição em acompanhar a tramitação e em articular ajustes que possam tornar a proposta mais palatável para os diferentes atores sociais envolvidos. Essa interlocução reflete a importância do tema no debate sobre o futuro das relações de trabalho no Brasil, especialmente em um país onde a economia digital tem crescido de forma acelerada e os impactos sociais dessa expansão ainda não foram integralmente absorvidos pelas leis vigentes.
Impactos econômicos e sociais da regulamentação do trabalho por aplicativo
A discussão sobre a regulamentação do trabalho por aplicativo tem forte impacto sobre o cenário econômico brasileiro e sobre o mercado de trabalho formal e informal. A cada ano, milhões de brasileiros recorrem a plataformas digitais para complementar renda ou como principal fonte de emprego, especialmente em áreas urbanas. A ausência de um marco regulatório específico resultou em insegurança jurídica, falta de garantias claras e disputas frequentes em tribunais.
Especialistas em direito do trabalho e economia ressaltam que a legislação vigente foi construída em uma realidade anterior à proliferação das plataformas digitais e, por isso, carece de adaptação para refletir a nova dinâmica de prestação de serviços mediada por aplicativos. A regulamentação tende a gerar impactos nas:
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Condições de remuneração e autonomia dos trabalhadores;
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Custos operacionais das plataformas, que dependem de modelos flexíveis de atuação;
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Relação entre direitos trabalhistas tradicionais e novas formas de trabalho autônomo;
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Previsibilidade jurídica para usuários, empresas e profissionais que atuam em plataformas digitais.
Uma regulamentação equilibrada pode, portanto, representar um divisor de águas para a consolidação de um mercado de trabalho mais justo, ao mesmo tempo em que preserva a capacidade de inovação das plataformas digitais que hoje movimentam bilhões de reais no país.
Dilemas e resistências no processo de aprovação
Apesar do consenso sobre a necessidade de regulamentação, o PLP 152/25 encontra resistências de diversos setores. As plataformas digitais, por exemplo, alertam que certas exigências podem encarecer os serviços para o consumidor final e impactar negativamente a dinâmica de oferta de trabalho flexível. Representantes dessas empresas defendem que alterações profundas no modelo de negócios podem inviabilizar a operação em larga escala.
Trabalhadores, por sua vez, reivindicam proteção mínima e maior transparência, sem que a regulamentação acabe por restringir sua autonomia e flexibilidade na escolha dos horários e serviços a serem prestados.
Parlamentares envolvidos no debate apontam que a construção do texto deve ocorrer com base em amplo diálogo, considerando impactos sociais e econômicos, para que a futura lei seja eficaz, justa e sustentável. Essa postura tem sido reforçada por Hugo Motta, que em suas declarações públicas destacou a necessidade de ouvir “todos os lados e argumentos” antes de submeter a proposta à votação no Plenário da Câmara.
O que esperar da votação em março
Se cumprida a previsão do presidente da Câmara, a votação da regulamentação do trabalho por aplicativo deve ocorrer até a primeira quinzena de março, marcando um passo decisivo na modernização das leis que regem o trabalho no Brasil. A expectativa é de que a matéria avance tecnicamente na Comissão Especial e chegue ao Plenário com um substitutivo que contemple garantias essenciais, assegurando equilíbrio entre proteção social e inovação econômica.
Analistas políticos observam que a aprovação do PLP 152/25 poderá abrir caminho para regulamentações adicionais em áreas correlatas da economia digital, fortalecendo o papel do Legislativo brasileiro em acompanhar a evolução das relações de trabalho no século XXI.









