Vendas da BYD despencam em janeiro e mostram pior desempenho doméstico em quase dois anos
A BYD, maior montadora de veículos elétricos da China, registrou em janeiro o menor volume de vendas domésticas desde fevereiro de 2024, sinalizando desafios crescentes em meio à desaceleração do mercado automotivo chinês e à intensificação da concorrência local. As ações da empresa seguem trajetória de perdas e caminham para a sexta semana consecutiva de baixa na bolsa, refletindo a preocupação de investidores com o cenário interno e internacional do setor de carros elétricos.
O resultado frágil do primeiro mês do ano ocorre em um contexto de redução da demanda interna na China, aliado à sobreprodução de veículos que afeta tanto o mercado doméstico quanto as exportações. Especialistas destacam que fatores regulatórios, mudanças na política fiscal e competição acirrada pressionam a performance das montadoras locais, inclusive líderes consolidadas como a BYD.
Janeiro registra retração em meio a mudanças fiscais
Em janeiro, a BYD vendeu apenas 83.249 carros elétricos a bateria, dentro de um total de 205.518 veículos, incluindo híbridos plug-in, marcando o menor volume mensal desde fevereiro de 2024, quando a empresa havia comercializado 121.748 unidades.
O desempenho negativo acompanha mudanças significativas na política fiscal chinesa. A partir de 1º de janeiro de 2026, o governo restabeleceu um imposto de compra de 5% para veículos de nova energia, após mais de uma década de isenção total ou parcial da alíquota padrão de 10%. Essa medida reduziu incentivos financeiros para consumidores, impactando diretamente a demanda por veículos elétricos e híbridos no país.
Segundo Tu Le, fundador da consultoria Sino Auto Insights, “sabemos que as vendas de veículos elétricos vão desacelerar, mas ainda não temos clareza sobre a magnitude dessa queda. Teremos uma visão mais precisa após o fechamento do primeiro trimestre.”
O Ano-Novo Lunar, celebrado em datas móveis conforme o calendário agrícola, também influencia os resultados iniciais do ano, tornando os indicadores de janeiro tradicionalmente voláteis no setor automotivo.
Concorrência acirrada pressiona líderes do setor
Além das mudanças fiscais, a BYD enfrenta uma concorrência doméstica cada vez mais intensa. Montadoras como Aito, Leapmotor, Nio e Xiaomi vêm registrando crescimento expressivo nas entregas, mesmo em um período de retração do mercado.
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A Aito, cuja linha utiliza tecnologia da Huawei, entregou mais de 40 mil unidades em janeiro, alta de 80% em relação ao mesmo período do ano anterior.
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A Leapmotor e a Nio registraram 32.059 e 27.182 veículos vendidos, respectivamente.
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A Xiaomi aumentou suas entregas para 39 mil carros, embora o número ainda tenha ficado abaixo das mais de 50 mil unidades registradas em dezembro de 2025.
De acordo com especialistas, a BYD mantém liderança no mercado devido a décadas de investimento e estratégia robusta, mas enfrenta pressões de rivais que conquistam fatias crescentes do segmento de entrada, tradicionalmente território forte da empresa.
Cameron Johnson, sócio da consultoria Tidalwave Solutions, observa que, caso a deterioração continue, Pequim pode ser forçada a restaurar subsídios ou adotar novas medidas de incentivo, buscando sustentar a indústria de carros elétricos e evitar impacto econômico mais amplo.
Histórico de crescimento da BYD
Apesar das dificuldades recentes, a trajetória da BYD é marcada por avanços significativos. No verão de 2024, mais da metade dos carros de passeio vendidos na China eram veículos de nova energia, com a BYD superando a Tesla para se tornar a maior vendedora mundial de carros elétricos a bateria. Ao final do ano, a empresa comercializou 2,26 milhões de unidades, crescimento de quase 28% em relação a 2023.
Em 2025, a empresa consolidou sua posição, mas janeiro de 2026 trouxe sinais de resfriamento do crescimento doméstico, refletindo fatores externos e internos, incluindo a intensificação da concorrência e ajustes de políticas governamentais.
Exportações e impacto internacional
A BYD também enfrentou retração nas exportações em janeiro, com 100.482 veículos enviados para o exterior, ante 133.172 em dezembro de 2025. A empresa planeja aumentar vendas internacionais em cerca de 25% em 2026, visando 1,3 milhão de unidades, mas os resultados iniciais do ano indicam que metas ambiciosas dependerão da recuperação da demanda externa e da adaptação à competição global.
A concorrência internacional também pressiona a empresa, com rivais locais e estrangeiros buscando consolidar presença em mercados estratégicos, enquanto a BYD investe em infraestrutura de recarga, armazenamento de energia e direção inteligente para manter sua liderança tecnológica.
Outras montadoras em destaque
A concorrência doméstica não para na linha premium. A Geely, com modelos Galaxy e Zeekr, vendeu mais de 270 mil carros em janeiro, consolidando-se na segunda posição do mercado chinês de veículos elétricos, atrás da BYD. A empresa projeta crescimento anual de 32% nas vendas de veículos de nova energia em 2026, com expectativa de alcançar 2,22 milhões de unidades.
Enquanto isso, a Xpeng entregou apenas 20.011 veículos, abaixo da média mensal de 35 mil unidades registrada em 2025, e a Li Auto caiu para 27.668 veículos, refletindo o impacto da retração do mercado doméstico e os efeitos do ajuste fiscal implementado no início do ano.
Impactos econômicos do setor automotivo
A desaceleração nas vendas de veículos de nova energia é percebida como sinal de alerta para a economia chinesa, especialmente em um momento em que o setor imobiliário enfrenta crise prolongada. Segundo dados da Associação Chinesa de Carros de Passeio, o crescimento anual das vendas de veículos de nova energia foi de apenas 2,6% em dezembro de 2025, marcando o terceiro mês consecutivo de perda de ritmo.
O setor automotivo responde por aproximadamente 30 milhões de empregos na China, ou mais de 10% do emprego urbano. Apesar disso, seu peso no investimento em ativos fixos é relativamente pequeno, representando 3,7% do total em 2025, enquanto o setor imobiliário corresponde a 23%.
Especialistas alertam que qualquer deterioração adicional do setor pode levar o governo a reavaliar políticas de incentivo, incluindo subsídios e benefícios fiscais, para sustentar o crescimento do segmento e evitar impactos econômicos mais amplos.
Perspectivas para 2026
A BYD ainda não divulgou metas anuais detalhadas para vendas domésticas em 2026, mas projeta expansão internacional significativa. Analistas projetam que a combinação de recuperação da demanda interna, ajustes estratégicos e inovação tecnológica será determinante para a manutenção da liderança da empresa.
Além disso, os ajustes regulatórios recentes e a intensificação da concorrência exigem que a montadora reforce estratégias de marketing, lançamento de novos modelos e expansão de infraestrutura de recarga, buscando consolidar posição tanto no mercado interno quanto externo.
Segundo Helen Liu, sócia da Bain & Company, “a pressão sobre o mercado automotivo chinês em 2026 será impulsionada por fatores regulatórios e competitivos, com consumidores possivelmente adiando compras enquanto as montadoras se tornam mais cautelosas”.
Cenário de competição e adaptação tecnológica
Para manter vantagem competitiva, a BYD tem investido em novas tecnologias, incluindo direção inteligente, armazenamento de energia e integração com sistemas de recarga rápida. A empresa também fortalece parcerias estratégicas e diversifica o portfólio de modelos elétricos e híbridos.
Mesmo diante da retração temporária das vendas, analistas apontam que a empresa mantém capacidade de liderança no mercado global de veículos elétricos, com diferenciais tecnológicos e operacionais que podem sustentar crescimento sustentável a médio prazo.
Desdobramentos do desempenho de janeiro para o mercado global
O desempenho frágil de janeiro não apenas afeta os resultados financeiros da BYD, mas também reflete tendências globais do mercado de carros elétricos, incluindo competição acirrada, pressão regulatória e volatilidade de demanda.
Especialistas do setor alertam que os resultados do primeiro trimestre de 2026 serão determinantes para avaliar se a retração é um fenômeno sazonal ou se indica um resfriamento estrutural do mercado. Ajustes nas políticas governamentais, recuperação do consumo interno e estratégias de exportação serão fatores-chave para o desempenho da indústria no médio prazo.
Apesar do recuo em janeiro, a BYD continua sendo referência no setor, com capacidade de inovação e adaptação tecnológica que pode garantir vantagem competitiva frente a concorrentes chineses e internacionais.









