Caso Epstein: Documentos Revelam Contatos com Modelos Brasileiras e Investigação do MPF no RN
Novos documentos divulgados pelas autoridades dos Estados Unidos sobre o caso Epstein expõem uma rede de contatos mantida pelo criminoso sexual condenado com mulheres brasileiras ligadas ao universo da moda. As mensagens revelam pedidos de fotos, repasses financeiros, organização de viagens e referências a cidades como São Paulo, Paris e Nova York, indicando a complexidade das interações que se estenderam por anos.
As informações, liberadas recentemente pelo governo americano, foram parcialmente retiradas do ar após a identificação de possíveis vítimas. Apesar da divulgação, os documentos não detalham a ocorrência de crimes específicos, já que as conversas não apresentam ações ilegais de forma explícita. Por essa razão, os nomes das brasileiras citadas permanecem preservados, evitando exposição indevida de pessoas envolvidas indiretamente nos registros.
O caso Epstein reacende discussões sobre a rede internacional de exploração sexual e a forma como criminosos utilizam recursos financeiros e influência social para se aproximar de jovens mulheres, muitas vezes em situação vulnerável. A análise dos documentos oferece indícios de estratégias de manipulação, abordagens insistentes e organização meticulosa de viagens, festas e encontros.
Contatos com Modelos Brasileiras Desde 2006
Os registros indicam que Epstein manteve trocas de mensagens com modelos brasileiras desde pelo menos 2006, antes de sua primeira prisão nos Estados Unidos. Em diversos trechos, ele aparece sendo convidado para festas, falando sobre viagens ao Brasil e solicitando que interlocutoras apresentassem outras mulheres durante sua estadia no país.
Em um dos diálogos, uma mulher afirma ter “algo” para ele, e Epstein responde: “Estou esperando por foto.” Em outra mensagem, datada de dezembro do mesmo ano, ele escreve: “Princesa, onde você está? Estarei em São Paulo nesta semana. Quem está lá?” Essas interações sugerem planejamento prévio e coordenação de encontros em diferentes cidades, demonstrando o padrão de comportamento do criminoso e a extensão de sua rede de contatos.
Analistas apontam que tais registros podem indicar a intenção de Epstein de explorar jovens mulheres por meio de conexões estabelecidas no mercado da moda. A comunicação estruturada em várias cidades, incluindo São Paulo, Paris e Nova York, revela que o alcance internacional do caso Epstein não se limitava aos Estados Unidos, mas envolvia múltiplos países com grande concentração de modelos e profissionais do setor.
Repasses Financeiros e Pedidos de Fotos
Além dos contatos pessoais, os documentos indicam episódios de auxílio financeiro oferecido por Epstein a mulheres brasileiras. Em 2012, ele manteve uma sequência de mensagens com uma modelo, que agradecia repetidas vezes pelo apoio. Em fevereiro daquele ano, a interlocutora escreveu: “Meu amor, obrigada por tudo. Você é incrível. Obrigada por se importar comigo. Espero te ver em breve.”
Em julho, voltou a expressar gratidão: “Sinto muito sua falta, obrigada por tudo, por sempre estar perto de mim. Você é o melhor. Não se esqueça de que você vive no meu coração.”
Esses diálogos revelam como Epstein consolidava relações através de presentes, dinheiro e viagens, criando uma dependência emocional e financeira em suas interlocutoras. Em uma outra troca, ele questiona sobre a possibilidade de viagem da modelo e oferece transporte em avião particular, além de propor transferência bancária. A interlocutora forneceu dados de uma instituição financeira no Brasil, evidenciando que o alcance da rede do caso Epstein incluía movimentações financeiras transnacionais.
Especialistas em segurança cibernética e crimes financeiros apontam que tais transações e mensagens podem constituir indícios de práticas de aliciamento e exploração sexual. A forma como Epstein estruturava esses contatos, combinando finanças, viagens e relações sociais, é típica de redes de exploração sofisticadas, reforçando a gravidade do caso Epstein no cenário internacional.
Investigação do MPF no Rio Grande do Norte
Um dos episódios citados nos documentos passou a ser analisado pelo Ministério Público Federal (MPF) em Natal, Rio Grande do Norte. O procurador-chefe Gilberto Barroso de Carvalho Júnior relatou em ofício interno que recebeu informações sobre o possível aliciamento de uma mulher residente na região para fins de atos sexuais nos Estados Unidos com Epstein.
A troca de ofícios começou após jornalistas locais noticiarem menções a uma mulher de Natal nas mensagens divulgadas. Os e-mails, datados de 2011, não confirmam aliciamento nem informam a idade da citada, mas demonstram interesse de Epstein após ela ser apresentada por uma conhecida, que também tentou sugerir outras amigas.
Os documentos detalham organização para emissão de passaporte, planejamento de viagem aos EUA e pedidos explícitos de fotos em lingerie ou biquíni. Diante dessas evidências, o caso foi encaminhado à Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e Contrabando de Imigrantes.
A investigação brasileira evidencia como o caso Epstein transcende fronteiras e exige cooperação internacional entre órgãos de segurança, Justiça e autoridades de imigração. A atuação do MPF no Rio Grande do Norte mostra a importância de unidades especializadas para prevenir e responsabilizar crimes de natureza transnacional, em especial aqueles relacionados à exploração sexual.
Referência à Prisão de 2008 e Viagens Internacionais
Entre os registros, consta uma mensagem de 28 de junho de 2008, poucos dias antes de Epstein se declarar culpado por acusações ligadas à solicitação de prostitutas menores de idade. Em um trecho, ele comenta: “vai para a cadeia por um ano, começando na segunda. Te desejo boa sorte.”
Outro e-mail, intitulado “Save the Date”, reúne nomes e contatos de diversas modelos brasileiras e empresários do setor da moda. Em mensagens posteriores, Epstein menciona deslocamentos entre países, incluindo Paris e o Brasil, solicitando que mulheres fossem apresentadas a ele durante suas viagens.
As viagens internacionais, aliadas à coordenação de contatos e eventos, reforçam o caráter global do caso Epstein, evidenciando como o criminoso explorava brechas legais e redes de relacionamento internacional. Especialistas em direito internacional destacam que documentos desse tipo podem servir de base para investigações futuras e litígios em múltiplos países.
Jean-Luc Brunel e Passagem pelo Rio Grande do Norte
Os documentos também citam Jean-Luc Brunel, agente francês de modelos e parceiro de Epstein. Uma das mensagens menciona Natal, quando Brunel informa ter estado na cidade em 2010. Brunel foi encontrado morto na prisão em Paris em 2022, onde permanecia detido desde o início de investigações por assédio sexual e estupro contra jovens entre 15 e 18 anos, acusações que ele negava.
A inclusão de Brunel nos registros reforça a dimensão internacional do caso Epstein e demonstra que a rede de exploração não se limitava a um único indivíduo, mas contava com agentes e intermediários especializados em manipular jovens mulheres para fins de exploração sexual.
Cobranças e Pressão por “Trocas”
Outro e-mail, de 2010, mostra Epstein cobrando uma mulher endividada em US$ 26 mil relacionada a uma casa em Nova York. A interlocutora, cujo nome foi ocultado, mencionava participação em um desfile com “supermodelos brasileiras” e solicitava ajuda financeira. Epstein criticava a frequência dos pedidos: “Acho que é hora de você perceber que toda vez que fala comigo, você me pede algo.”
Ele ainda acrescentava: “Seria bom se, de vez em quando, você desse algo em troca ou oferecesse algo.” A interlocutora respondia alegando não conhecer muitas garotas e expressava vontade de cooperar, ao que Epstein replicava reclamando de falta de gratidão: “Você nunca manda nem um agradecimento. Você nunca manda nem um biscoito. Não é assim que um amigo se comporta.”
Este padrão de cobrança e exigência demonstra como Epstein mantinha controle psicológico sobre suas vítimas e interlocutoras, reforçando elementos típicos de exploração e manipulação emocional em redes de abuso.
Continuidade das Apurações e Repercussão Internacional
Os documentos divulgados pelas autoridades americanas continuam sendo analisados por veículos internacionais e brasileiros. No Brasil, o MPF segue acompanhando o caso envolvendo Natal, com envio de material para a unidade especializada em investigar tráfico internacional de pessoas e contrabando de imigrantes. A divulgação reacendeu debates sobre a atuação de Epstein, a rede de contatos internacionais e a responsabilização de envolvidos.
O caso Epstein demonstra como documentos liberados recentemente podem revelar a complexidade de redes de exploração, envolvendo modelos brasileiras e intermediários internacionais. A investigação no Rio Grande do Norte evidencia a dimensão do problema e reforça a importância de unidades especializadas no combate a crimes transnacionais.
Além de implicações legais, o caso também levanta questões éticas sobre a responsabilidade de agências de modelos, empresários e intermediários na proteção de jovens profissionais. A análise de mensagens e e-mails comprova que o caso Epstein não era apenas um fenômeno individual, mas parte de um esquema organizado com alcance global.
Impacto no Cenário da Moda e Repercussão Midiática
O envolvimento de modelos brasileiras e a participação de intermediários internacionais, como Jean-Luc Brunel, geram preocupação sobre os padrões de segurança no mercado da moda. Agências, organizadores de eventos e empresas do setor têm sido alertados sobre a necessidade de implementar protocolos mais rigorosos para proteger jovens talentos.
A mídia internacional também acompanha o desdobramento do caso Epstein, reforçando a atenção sobre o tráfico internacional de pessoas e exploração sexual. As investigações brasileiras, especialmente em Natal, se tornam referência na cooperação transnacional, servindo de exemplo para outros países que lidam com crimes similares.
O caso evidencia ainda como a divulgação de documentos e registros digitais pode fornecer pistas essenciais para rastrear operações ilegais e responsabilizar os envolvidos. O impacto midiático também cria pressão sobre autoridades e instituições financeiras, que podem ser chamadas a justificar a movimentação de recursos ligados a redes de exploração.
Panorama Legal e Próximos Passos
O Ministério Público Federal, por meio da unidade especializada em tráfico internacional, continua monitorando o material enviado pelos Estados Unidos. Além disso, a análise das mensagens reforça a importância de protocolos de proteção de menores e de medidas preventivas no âmbito internacional.
O caso Epstein segue sendo estudado por especialistas em direito internacional e combate à exploração sexual, com foco na cooperação entre países, rastreamento financeiro e responsabilização de intermediários. A investigação no Rio Grande do Norte é um exemplo de como o Brasil participa ativamente do esforço global para coibir redes de exploração e proteger possíveis vítimas.









