Toffoli admite sociedade em empresa ligada a resort negociado com fundo relacionado ao caso Master
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli confirmou, por meio de nota oficial, que integra o quadro societário da empresa Maridt, companhia que vendeu participação no resort Tayayá, no interior do Paraná, a um fundo administrado por parente do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. A manifestação ocorre no momento em que Dias Toffoli atua como relator, no STF, da investigação sobre supostas irregularidades envolvendo o Banco Master e a tentativa de aquisição da instituição pelo BRB.
A declaração pública de Dias Toffoli foi divulgada após a Polícia Federal (PF) encaminhar ao presidente da Corte, ministro Edson Fachin, relatório com informações extraídas do celular de Vorcaro. O material, que tramita sob sigilo, menciona o nome de Dias Toffoli, o que levou Fachin a solicitar esclarecimentos formais ao relator sobre eventual conflito de interesse.
Em nota, Dias Toffoli afirmou que sempre declarou à Receita Federal os valores recebidos como dividendos e reforçou que jamais recebeu qualquer quantia de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado Fabiano Zettel, gestor ligado ao fundo Arleen, que adquiriu parte da participação no empreendimento hoteleiro.
Sociedade familiar e venda de participação no resort Tayayá
Segundo esclarecimentos apresentados por Dias Toffoli, a Maridt é uma sociedade anônima de capital fechado, administrada por familiares do ministro. Ele sustenta que sua participação se limitou à condição de acionista, sem exercer funções de gestão, o que é permitido pela Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar 35/1979).
A empresa integrou o grupo Tayayá Ribeirão Claro até fevereiro de 2025. A saída ocorreu em duas etapas: parte das cotas foi vendida ao Fundo Arleen em setembro de 2021, enquanto o saldo remanescente foi alienado à PHD Holding em fevereiro de 2025. De acordo com a nota, todas as operações ocorreram a valor de mercado.
Dias Toffoli destacou que, quando assumiu a relatoria do caso Master no STF, a Maridt já não fazia parte do grupo econômico ligado ao resort. A ação referente à compra do Banco Master pelo BRB foi distribuída ao gabinete do ministro em novembro de 2025.
Relatoria do caso Master no STF
O nome de Dias Toffoli passou a ser vinculado ao debate público após a defesa de Vorcaro sustentar que havia menção a um deputado federal no material apreendido, o que justificaria a tramitação do processo no STF. Por sorteio, Dias Toffoli foi designado relator e determinou a centralização dos inquéritos relacionados ao banco em seu gabinete.
A atuação de Dias Toffoli gerou reações no meio político e jurídico. Parlamentares da oposição questionaram a imparcialidade do relator, enquanto a Procuradoria-Geral da República (PGR) rejeitou pedido de afastamento apresentado anteriormente.
Com a nova menção a Dias Toffoli no relatório da PF, o presidente do STF solicitou manifestação formal do ministro sobre eventual impedimento ou suspeição. Em resposta preliminar, o gabinete classificou o pedido da PF como baseado em “ilações” e ressaltou que a instituição não teria legitimidade processual para requerer suspeição, por não ser parte no processo.
Fundo Arleen e conexões investigadas
O Fundo Arleen, que adquiriu parte da participação no resort Tayayá, é administrado pela Reag, gestora também citada nas investigações relacionadas ao Banco Master. Reportagens apontaram que Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, teria ligação com estruturas de fundos geridos pela empresa.
Dias Toffoli afirmou desconhecer o gestor do fundo e negou qualquer relação de amizade ou proximidade com Daniel Vorcaro. O ministro reiterou que nunca recebeu valores do banqueiro nem de seus familiares.
A defesa de Vorcaro, por sua vez, manifestou preocupação com o que classificou como vazamentos seletivos de informações, afirmando que a divulgação de trechos sigilosos pode gerar constrangimentos indevidos e comprometer o direito de defesa.
Mal-estar institucional e questionamentos
O episódio intensificou o clima de tensão no STF. A presença de Dias Toffoli na relatoria de um caso que envolve personagens com conexões indiretas ao seu círculo societário foi interpretada por alguns ministros como potencial fator de desgaste institucional.
Também vieram à tona informações sobre viagens de seguranças vinculados ao STF à região do resort Tayayá, empreendimento frequentado por Dias Toffoli. Dados indicam que, ao longo de períodos de recesso e feriados, foram registradas 128 diárias, totalizando cerca de R$ 460 mil em custos.
O ministro, contudo, não se manifestou sobre esse ponto específico na nota referente à sociedade na Maridt. O foco da manifestação foi a legalidade da participação societária e a inexistência de conflito no momento da relatoria.
Polícia Federal acelera relatório final
O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, declarou que o inquérito envolvendo transações financeiras suspeitas entre Banco Master e BRB deve ser concluído até meados de março. Segundo ele, a investigação caminha para relatório final, sem descartar nenhuma hipótese.
A eventual conclusão do inquérito poderá redefinir o cenário institucional e jurídico do caso. Caso surjam elementos que configurem conflito de interesse, caberá ao próprio Dias Toffoli avaliar a necessidade de se declarar impedido, conforme prevê o ordenamento jurídico.
Impacto político e jurídico do caso
A permanência de Dias Toffoli na relatoria é acompanhada com atenção por parlamentares e por integrantes do sistema financeiro. O caso envolve temas sensíveis como regulação bancária, governança corporativa e supervisão institucional.
Especialistas em direito constitucional ressaltam que a simples existência de sociedade empresarial não configura, por si só, impedimento automático. A análise depende da contemporaneidade dos fatos, da natureza da relação e da eventual vantagem direta ou indireta.
No caso específico de Dias Toffoli, a defesa sustenta que não houve vínculo financeiro com investigados nem participação em atos de gestão. A controvérsia, portanto, gira em torno da percepção pública e do princípio da imparcialidade objetiva.
STF sob pressão em meio a investigações sensíveis
O episódio envolvendo Dias Toffoli ocorre em um contexto de forte escrutínio sobre o STF. A Corte tem sido chamada a arbitrar conflitos institucionais e casos de grande repercussão política e econômica.
A eventual decisão de manter ou não Dias Toffoli na relatoria poderá influenciar a leitura institucional sobre transparência e governança no Judiciário. O tema mobiliza não apenas atores políticos, mas também o mercado financeiro, atento às repercussões sobre o sistema bancário.
Enquanto isso, o processo segue sob sigilo parcial, e novas manifestações poderão ocorrer após análise formal do relatório da PF pelo gabinete do relator.









