Braskem (BRKM5): MPF pede que Cade considere caso de Alagoas na análise sobre troca de controle
A possível mudança no comando da Braskem (BRKM5) ganhou um novo capítulo institucional. O Ministério Público Federal (MPF) junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) solicitou que o órgão antitruste considere os impactos socioambientais do desastre em Maceió na avaliação da operação que pode levar a gestora IG4 Capital ao controle da petroquímica, hoje nas mãos da Novonor.
A operação envolve diretamente a Petrobras (PETR3; PETR4), que permanecerá como acionista relevante da BRKM5, em regime de co-controle com a IG4, após já ter formalizado a decisão de não exercer o direito de preferência na aquisição da participação detida pela Novonor.
MPF quer análise além da concorrência
Em manifestação protocolada na quinta-feira (12), o MPF defende que o Cade vá além de uma análise estritamente concorrencial. Para o órgão, a avaliação da troca de controle da Braskem (BRKM5) precisa considerar o passivo socioambiental decorrente do afundamento do solo em bairros de Maceió, provocado pela exploração de sal-gema.
O argumento central é que a eficiência econômica de uma operação societária não pode ser dissociada das obrigações ambientais e indenizatórias já reconhecidas. Segundo o Ministério Público, a eventual reestruturação acionária da BRKM5 não pode resultar na segregação de passivos em estruturas com baixa liquidez ou fragilidade financeira, o que poderia comprometer a reparação integral dos danos.
O caso de Maceió é tratado como elemento estruturante na análise. O afundamento do solo levou à desocupação de bairros inteiros da capital alagoana e impactou mais de 60 mil pessoas, em um dos maiores desastres urbanos associados à mineração no país.
Acordo bilionário e risco de fragilização financeira
Em 2025, a Braskem (BRKM5) firmou acordo de R$ 1,2 bilhão com o governo de Alagoas para indenizações ambientais. O montante integra um conjunto mais amplo de compromissos assumidos pela companhia desde o reconhecimento oficial da responsabilidade pelo evento.
O MPF sustenta que o Cade deve verificar o “lastro real de solvência” da nova estrutura de controle. Na prática, isso significa avaliar se a reorganização acionária manterá garantias financeiras suficientes para assegurar o cumprimento das obrigações socioambientais.
A preocupação institucional é que uma eventual troca de controle possa alterar a governança financeira da BRKM5 de forma a reduzir a robustez patrimonial disponível para arcar com indenizações futuras. Para o Ministério Público, a aprovação da operação deveria estar condicionada à manutenção de mecanismos de garantia capazes de proteger credores e atingidos.
Cade indica análise aprofundada
Embora o processo tramite sob rito sumário, o Cade já sinalizou que deverá realizar exame mais aprofundado da operação, diante de manifestações apresentadas por terceiros interessados.
O pedido do MPF amplia o escopo da análise regulatória. Tradicionalmente, o Cade concentra sua atuação em aspectos concorrenciais, como concentração de mercado, poder econômico e impactos sobre consumidores. No entanto, o órgão também pode considerar fatores que afetem a eficiência econômica de longo prazo das empresas envolvidas.
No caso da Braskem (BRKM5), a dimensão do passivo ambiental é vista como variável relevante para a estabilidade financeira da companhia e, consequentemente, para o ambiente concorrencial do setor petroquímico.
Estrutura da operação envolve bancos credores
A negociação que pode levar a IG4 ao controle da Braskem (BRKM5) foi fechada em dezembro com os cinco principais bancos credores da Novonor: Banco do Brasil (BBAS3), Santander Brasil (SANB11), Bradesco (BBDC4), Itaú Unibanco (ITUB4) e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
O acordo prevê a assunção, pela gestora liderada por Paulo Mattos, das ações da antiga Odebrecht na BRKM5 que haviam sido dadas em garantia aos bancos. A transação é avaliada em cerca de R$ 20 bilhões.
A reconfiguração societária surge em meio ao processo de reestruturação financeira da Novonor e é considerada estratégica para destravar valor na petroquímica. Para a Petrobras (PETR3; PETR4), a manutenção do co-controle pode preservar influência sobre decisões estratégicas em um setor sensível à política industrial e energética.
Impactos para investidores e governança
No mercado, a análise do Cade e a manifestação do MPF adicionam um novo componente de incerteza à tese de investimento em BRKM5. Embora a troca de controle seja vista como potencialmente positiva sob a ótica de governança e estabilidade financeira, o risco regulatório permanece no radar.
A eventual imposição de condicionantes pelo Cade pode alterar a estrutura final da operação ou exigir garantias adicionais, com impactos sobre fluxo de caixa e estrutura de capital da companhia.
Além disso, o caso reforça a crescente interseção entre governança corporativa, responsabilidade ambiental e regulação concorrencial. Para empresas listadas, especialmente aquelas com passivos ambientais relevantes, a avaliação de risco passa a incorporar não apenas indicadores financeiros, mas também a capacidade de gestão de contingências jurídicas e socioambientais.
Contexto estratégico da Braskem (BRKM5)
A Braskem (BRKM5) é uma das maiores produtoras de resinas termoplásticas das Américas e possui operações no Brasil, Estados Unidos e México. A companhia desempenha papel central na cadeia petroquímica nacional, fornecendo insumos para diversos setores industriais.
A definição sobre seu controle acionário tem implicações que vão além do mercado de capitais. Envolve política industrial, estabilidade de fornecedores, relação com a Petrobras (PETR3; PETR4) e credibilidade institucional frente a investidores estrangeiros.
O desfecho da análise pelo Cade, agora sob a lente ampliada pelo pedido do MPF, tende a se tornar um marco relevante na integração entre direito concorrencial e responsabilidade socioambiental no Brasil.
Enquanto isso, o mercado acompanha de perto os próximos movimentos regulatórios e os desdobramentos da negociação bilionária que pode redefinir o futuro da BRKM5.









