Braskem e Banco do Brasil: o que há por trás do suposto calote que derrubou BRKM5 e elevou a inadimplência do BBAS3
A forte volatilidade das ações da Braskem (BRKM5) na última quinta-feira (12) reacendeu o debate sobre governança, garantias financeiras e riscos sistêmicos no mercado de crédito brasileiro. Em meio à divulgação do resultado do quarto trimestre de 2025 do Banco do Brasil (BBAS3), especulações envolvendo um suposto “calote” de R$ 3,6 bilhões pressionaram os papéis da petroquímica, que encerraram o pregão com queda de 11,27%.
A narrativa ganhou força após o banco estatal informar que um único cliente impactou significativamente seu índice de inadimplência no período. O mercado rapidamente associou o evento à Braskem, empresa controlada pela Novonor (ex-Odebrecht), embora a própria companhia tenha negado qualquer inadimplência junto ao BB.
A seguir, a Gazeta Mercantil detalha os fatos, esclarece os indicadores financeiros envolvidos e analisa os impactos sobre Braskem (BRKM5), Banco do Brasil (BBAS3) e o mercado de capitais.
O episódio colocou a Braskem no centro das atenções do mercado financeiro. A simples especulação sobre eventual inadimplência foi suficiente para gerar uma correção expressiva nas ações, evidenciando o nível de sensibilidade dos investidores a riscos de crédito e governança.
A movimentação reforça como eventos ligados à estrutura societária e às garantias financeiras podem afetar a percepção de risco da Braskem, mesmo quando a companhia afirma não ter envolvimento direto com o fato gerador.
O que aconteceu no resultado do Banco do Brasil (BBAS3)?
O Banco do Brasil (BBAS3) divulgou seu balanço do 4T25 na quarta-feira (11). Entre os destaques, o banco informou que o índice de inadimplência foi impactado por um único cliente que atrasou pagamento superior a R$ 3,6 bilhões por mais de 90 dias.
A inadimplência acima de 90 dias é um indicador-chave do sistema financeiro. Ele mede o percentual da carteira de crédito que apresenta atraso significativo. No 4T25, o índice atingiu 5,17%. Sem esse evento específico, teria ficado em 4,88%.
A diferença de 0,29 ponto percentual pode parecer pequena, mas, em termos absolutos, representa bilhões de reais e altera a percepção de risco da carteira de crédito do banco.
Por sigilo bancário, o BBAS3 não revelou o nome do cliente. No entanto, agentes do mercado passaram a associar o episódio à Braskem, provocando forte pressão sobre os papéis BRKM5.
A Braskem deu calote no Banco do Brasil?
A resposta direta é: segundo a companhia, não.
A Braskem informou, por meio de comunicado ao mercado, que permanece adimplente com todas as obrigações junto ao Banco do Brasil. A empresa declarou ainda que não possui exposição financeira material com a instituição, nem registrava tal exposição em 2025.
De acordo com apuração do Broadcast/Estadão, o evento não envolve diretamente dívida operacional da Braskem, mas ações da companhia que estavam em poder do banco como garantia de operações relacionadas à Novonor.
Essa distinção é fundamental.
Como ações da Braskem podem impactar o BBAS3?
A Novonor, antiga controladora da Braskem, utilizou ações da petroquímica como garantia em operações financeiras junto a bancos credores, entre eles o Banco do Brasil.
Quando ações são dadas em garantia, elas funcionam como colateral. Caso o devedor não cumpra a obrigação, o credor pode executar a garantia.
Se houver desvalorização relevante dessas ações, o valor da garantia diminui. Isso pode gerar necessidade de provisão contábil por parte do banco.
Portanto, o impacto sobre o BBAS3 pode estar relacionado à estrutura de garantias envolvendo papéis da Braskem, e não a um inadimplemento direto da empresa.
Por que as ações da Braskem (BRKM5) caíram 11,27%?
O mercado reage não apenas a fatos concretos, mas também à percepção de risco.
A possibilidade de envolvimento da Braskem em um evento de crédito bilionário elevou incertezas sobre:
– Estrutura de controle;
– Situação financeira da Novonor;
– Potenciais impactos sobre governança;
– Riscos de novas pressões judiciais ou societárias.
A queda de 11,27% reflete ajuste de expectativas. Em mercados eficientes, preços incorporam rapidamente novas informações — ou rumores relevantes.
O que significa inadimplência de 5,17% para o BBAS3?
Para entender o impacto, é necessário contextualizar o indicador.
A inadimplência mede o percentual da carteira de crédito com atraso superior a 90 dias. Quanto maior o índice, maior o risco percebido.
No caso do BBAS3:
– Inadimplência reportada: 5,17%
– Inadimplência sem o evento: 4,88%
Esse aumento exige provisões contábeis adicionais.
Provisão para devedores duvidosos é o montante que o banco reserva para cobrir possíveis perdas. Quanto maior a inadimplência, maior a provisão, reduzindo lucro líquido.
Impacto no lucro e indicadores financeiros
Embora o BBAS3 tenha informado que o caso específico não deve gerar novos impactos no 1T26, o mercado monitora efeitos sobre:
– Lucro líquido;
– ROE (retorno sobre patrimônio líquido);
– Índice de Basileia;
– Nível de provisões.
O ROE indica quanto o banco gera de lucro para cada real investido pelos acionistas. Eventos de crédito relevantes podem reduzir temporariamente esse indicador.
No caso da Braskem, o foco está em eventuais impactos sobre:
– Estrutura de capital;
– Relação com credores;
– Estabilidade do controle societário.
Governança e troca de controle da Braskem
O episódio ocorre em meio a discussões sobre reestruturação societária da Braskem. A Novonor, que detém participação relevante, negocia alternativas para reduzir sua exposição.
A IG4 e outros investidores já demonstraram interesse na estrutura acionária.
Qualquer evento que envolva garantias vinculadas às ações da Braskem pode influenciar negociações e valuation.
O mercado exagerou na reação?
Parte dos analistas avalia que a reação pode ter sido amplificada pela falta de clareza inicial.
Em ambiente de alta volatilidade e juros ainda elevados no Brasil, investidores tendem a reduzir exposição a ativos com risco percebido adicional.
Com a Selic ainda em patamar restritivo, o custo de capital permanece elevado. Empresas com histórico de reestruturação societária, como a Braskem, sofrem mais com movimentos abruptos de aversão ao risco.
Cenário macroeconômico amplia sensibilidade
O episódio ocorre em contexto de:
– Juros elevados no Brasil;
– Incerteza fiscal;
– Volatilidade cambial;
– Debate sobre política monetária global.
Empresas exportadoras, como a Braskem, também são impactadas pelo câmbio e pelo preço internacional do petróleo, insumo essencial para o setor petroquímico.
Qualquer ruído adicional amplia prêmio de risco exigido pelo investidor.
Braskem e estrutura financeira
A Braskem atua no setor petroquímico, altamente dependente de ciclo econômico e demanda industrial.
Indicadores como Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) são essenciais para avaliar capacidade de geração de caixa.
A manutenção da adimplência declarada pela companhia é elemento central para preservar credibilidade junto ao mercado.
O que esperar das próximas semanas?
O mercado deve acompanhar:
– Esclarecimentos adicionais do BBAS3;
– Detalhamento das garantias envolvendo ações da Braskem;
– Evolução das negociações societárias;
– Reação das agências de rating.
Caso fique comprovado que a Braskem não possui inadimplência direta, parte da queda pode ser revertida.
No entanto, a volatilidade deve permanecer elevada enquanto persistirem dúvidas sobre a estrutura de garantias.
Transparência e confiança como ativos estratégicos
O episódio reforça a importância da comunicação clara ao mercado.
Em companhias abertas como a Braskem, qualquer ruído envolvendo crédito, garantias ou controle societário tende a provocar reação imediata nos preços.
A resposta rápida da empresa ao negar inadimplência foi tentativa de conter danos reputacionais.
Mercado atento à estabilidade do sistema financeiro
Para o Banco do Brasil (BBAS3), o episódio serve de alerta sobre concentração de risco.
Grandes exposições individuais podem alterar indicadores relevantes, mesmo em bancos com carteira diversificada.
A estabilidade do sistema financeiro depende da qualidade das garantias e da solidez dos devedores.
Volatilidade ainda deve marcar BRKM5
As ações da Braskem (BRKM5) devem continuar refletindo:
– Ruídos sobre controle societário;
– Evolução do caso envolvendo garantias;
– Condições macroeconômicas;
– Preços internacionais de resinas e petróleo.
Investidores institucionais tendem a aguardar maior clareza antes de ampliar posições.
O episódio e seus desdobramentos no mercado de capitais
O caso envolvendo a Braskem e o BBAS3 ilustra como eventos de crédito podem transbordar rapidamente para o mercado acionário.
Mesmo sem inadimplência direta confirmada, a simples associação da empresa a um impacto bilionário foi suficiente para gerar perda expressiva de valor de mercado em um único pregão.
A dinâmica evidencia o papel central da confiança na precificação de ativos financeiros e reforça a necessidade de transparência nas relações entre companhias abertas, bancos e controladores.









