Tarifaço de Trump perde força e agro brasileiro recalibra exportações aos EUA com nova tarifa global de 15%
A derrubada do tarifaço de Trump pela Suprema Corte dos Estados Unidos, na última sexta-feira (20), reconfigurou o tabuleiro comercial entre Brasil e EUA e abriu espaço para a retomada de exportações estratégicas do agro brasileiro. A partir desta terça-feira (24), setores que vinham sendo penalizados por sobretaxas de até 50% — como mel, pescados, café solúvel e uvas — passam a operar sob uma nova tarifa global de 15%, anunciada pelo presidente Donald Trump horas após a decisão judicial. O movimento altera a dinâmica de competitividade e devolve previsibilidade a cadeias produtivas que sofreram perdas significativas desde o início do tarifaço de Trump.
A decisão marca um ponto de inflexão após meses de incerteza regulatória e retração de contratos. Embora produtos como carne bovina, café em grão e suco de laranja já estivessem isentos, segmentos relevantes ainda enfrentavam barreiras que comprometeram volumes embarcados, margens e empregos. A substituição do tarifaço de Trump por uma alíquota linear de 15% para todos os países equaliza condições, ainda que mantenha um custo adicional sobre a entrada de produtos brasileiros no mercado norte-americano.
O que muda com o fim do tarifaço de Trump
O tarifaço de Trump, implementado no segundo semestre do ano passado, atingiu quase metade da pauta exportadora brasileira aos EUA. Em alguns casos, as sobretaxas chegaram a 50%, comprometendo contratos e provocando uma reacomodação forçada dos fluxos comerciais.
Com a decisão da Suprema Corte, as sobretaxas específicas deixam de valer. Em seu lugar, passa a vigorar uma tarifa global de 15%, aplicável indistintamente aos parceiros comerciais dos EUA. Do ponto de vista jurídico, o novo desenho reduz o risco de contestações por tratamento discriminatório. Do ponto de vista econômico, reintroduz um ambiente de competição simétrica.
A leitura predominante entre lideranças do setor é pragmática: ainda que a tarifa de 15% represente um encargo adicional, ela é considerada administrável quando comparada ao tarifaço de Trump, que isolava o Brasil frente a competidores diretos.
Mel: dependência estrutural dos EUA e retomada gradual de contratos
Entre os setores mais expostos ao tarifaço de Trump está o mel. Cerca de 80% das exportações brasileiras do produto têm como destino os Estados Unidos. A estrutura produtiva nacional é baseada majoritariamente em pequenos apicultores, que dependem de tradings para acessar o mercado externo.
Durante a vigência do tarifaço de Trump, o setor conseguiu honrar contratos já firmados, mas praticamente interrompeu novos negócios. O efeito imediato foi um problema de escoamento no campo, desvalorização do produto e compressão de margens.
Com a nova tarifa global de 15%, a percepção é de que a competitividade do mel orgânico brasileiro — principal produto exportado aos EUA — volta a ser um diferencial. Como a alíquota passa a ser uniforme para todos os países, o Brasil deixa de estar em desvantagem relativa.
O risco mais sensível era a substituição estrutural do mel brasileiro por fornecedores alternativos. Importadores norte-americanos passaram a adquirir volumes de mel tradicional de outros mercados durante o tarifaço de Trump. A reversão desse movimento dependerá da velocidade de renegociação dos contratos e da estabilidade regulatória nos próximos meses.
Pescados: de cortes de empregos à expectativa de 5 mil vagas
O setor de pescados foi um dos mais afetados pelo tarifaço de Trump, especialmente pela sobretaxa de 50%. Em 2024, os EUA responderam por quase metade do pescado brasileiro exportado, sendo o principal destino da tilápia — o item mais embarcado em volume.
A imposição da tarifa extraordinária levou à perda de contratos, redução da produção e cortes de postos de trabalho. Segundo estimativas setoriais, a normalização parcial das condições comerciais pode permitir a recuperação de mais de 5 mil empregos ao longo de 2026.
A nova tarifa de 15% coloca o Brasil em condições semelhantes às de concorrentes diretos, como a Colômbia, importante fornecedor de tilápia ao mercado norte-americano. Sob o tarifaço de Trump, a assimetria tarifária deslocou pedidos para outros países. Com a equalização, a indústria brasileira projeta recompor capacidade produtiva e alcançar cerca de US$ 600 milhões em exportações globais.
O desafio, contudo, vai além da tarifa. O setor também enfrenta custos logísticos elevados e exigências sanitárias rigorosas, que exigem investimentos contínuos em certificações e rastreabilidade.
Café solúvel: “voltamos para o jogo” após queda de 50% no volume
A indústria de café solúvel talvez seja o caso mais emblemático dos efeitos do tarifaço de Trump. Os Estados Unidos são, há mais de seis décadas, o principal comprador do produto brasileiro. Entre agosto e janeiro, período de vigência das sobretaxas, o volume exportado caiu 50%.
Importadores americanos migraram para fornecedores como México, Colômbia, Vietnã, Equador e países europeus, diante da incapacidade de absorver o custo adicional imposto pelo tarifaço de Trump.
Com a nova tarifa global de 15%, executivos do setor afirmam que o Brasil “voltou para o jogo”. A leitura é que, com todos os competidores submetidos à mesma alíquota, o diferencial volta a ser produtividade, qualidade e escala.
O segmento é composto por seis grandes empresas com presença em mais de 100 países, o que permitiu diluir parcialmente as perdas. Ainda assim, a recomposição dos contratos com importadores americanos será decisiva para recuperar volumes históricos.
Frutas: uva reage, manga perde isenção
No segmento de frutas, os efeitos do tarifaço de Trump foram heterogêneos. A manga, que havia sido isentada anteriormente, volta a enfrentar tarifa de 15%. Já a uva, que vinha sendo penalizada com sobretaxa de 50%, passa a operar sob a nova alíquota uniforme.
A uva foi o produto mais prejudicado, com queda de 73% no volume enviado aos EUA em 2025. Parte dos embarques ocorreu mesmo com prejuízo, para preservar relações comerciais de longo prazo.
Produtores do Vale do São Francisco adotam postura cautelosa. Embora a redução tarifária represente alívio frente ao tarifaço de Trump, ainda não há sinalização concreta de retomada imediata de contratos. Importadores aguardam maior estabilidade antes de assumir novos compromissos.
Impactos macroeconômicos e leitura institucional
O fim do tarifaço de Trump e a adoção de uma tarifa global de 15% produzem efeitos que extrapolam os setores diretamente atingidos. No plano institucional, a decisão da Suprema Corte reforça a previsibilidade jurídica no comércio exterior norte-americano.
Para o Brasil, a medida reduz o risco de perda estrutural de market share em nichos estratégicos. Ainda que a nova tarifa represente um custo adicional, a simetria competitiva é considerada preferível à discriminação anterior.
Economistas avaliam que a normalização parcial pode contribuir para a recomposição do saldo comercial bilateral em 2026, sobretudo se houver estabilidade cambial e manutenção da demanda norte-americana por alimentos.
Por outro lado, a adoção de uma tarifa global sinaliza um ambiente internacional mais protecionista. A política comercial dos EUA permanece orientada por instrumentos tarifários amplos, o que exige do Brasil maior diversificação de mercados e reforço em acordos bilaterais.
O que está em jogo para 2026
A reversão do tarifaço de Trump ocorre em um momento sensível para o agro brasileiro, que enfrenta desafios climáticos, pressão de custos e maior escrutínio ambiental no comércio internacional.
A capacidade de transformar o alívio tarifário em expansão efetiva de exportações dependerá de três fatores centrais: recomposição rápida de contratos, estabilidade regulatória nos EUA e manutenção da competitividade cambial.
Setores como mel, pescados, café solúvel e uvas operam agora sob um novo equilíbrio. O tarifaço de Trump deixou cicatrizes — contratos rompidos, estoques acumulados, empregos perdidos —, mas também reforçou a necessidade de estratégias comerciais mais resilientes.
A frase recorrente entre líderes setoriais — “voltamos para o jogo” — sintetiza o momento: não se trata de uma vitória plena, mas da reabertura de uma arena competitiva em condições menos adversas.





