Consórcio Capta US$ 60 Milhões para Financiar Soja Livre de Desmatamento e Expande Modelo Sustentável no Brasil
O mercado de soja livre de desmatamento no Brasil ganhou novo fôlego com a captação de US$ 60 milhões realizada por um consórcio formado pela consultoria Sustainable Investment Management (SIM), pela fintech Traive e pela securitizadora Opea. O recurso, obtido por meio de um CRA verde denominado RFC Cerrado, mostra que há crescente interesse internacional em financiar práticas agrícolas que preservam o meio ambiente e contribuem para a produção responsável.
Esse movimento ocorre em meio ao debate sobre a Moratória da Soja, suspensa recentemente pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), o que trouxe insegurança ao setor. Enquanto a decisão judicial cria riscos para uma das ações privadas mais reconhecidas na preservação do bioma amazônico, a iniciativa do consórcio demonstra que investidores estrangeiros continuam apostando em soluções que unem rentabilidade e sustentabilidade.
Crescimento da soja sustentável no Brasil
A soja é o principal produto agrícola brasileiro e responde por uma parcela significativa das exportações do país. No entanto, por muito tempo, a expansão dessa cultura esteve associada ao avanço sobre áreas de vegetação nativa, especialmente no Cerrado e na Amazônia.
Nos últimos anos, a pressão de consumidores internacionais, supermercados europeus e grandes fundos de investimento fez surgir novas exigências: produzir mais sem desmatar. Nesse contexto, o financiamento da soja livre de desmatamento se consolidou como uma alternativa viável, capaz de equilibrar a produção agrícola em larga escala com a preservação dos ecossistemas.
O CRA verde RFC Cerrado é um dos principais instrumentos desse avanço. Criado em 2022, ele surgiu a partir da demanda de redes de supermercados ingleses — Tesco, Sainsbury’s e Waitrose — que buscavam garantir que a soja presente em suas cadeias de suprimento não fosse associada à destruição de florestas.
Estrutura do financiamento: blended finance
O modelo utilizado pelo consórcio é conhecido como blended finance, uma estrutura que combina investidores de impacto, com capital catalítico, e investidores de mercado. Essa mistura permite oferecer empréstimos com condições mais atrativas aos produtores rurais comprometidos com a soja livre de desmatamento.
Atualmente, os financiamentos variam entre 8,5% e 9,5% ao ano em dólar, bem abaixo das taxas convencionais. Essa diferença torna o programa competitivo e incentiva agricultores a aderirem ao modelo sustentável.
Na prática, o dinheiro captado beneficia produtores que respeitam critérios ambientais, garantindo a preservação de áreas nativas e a rastreabilidade da produção. Na safra de 2025/26, o aporte de US$ 60 milhões deve alcançar cerca de 280 propriedades rurais, responsáveis por aproximadamente 240 mil toneladas de soja sustentável</strong>, além de conservar 90 mil hectares de vegetação nativa.
Evolução do capital captado desde 2022
Desde sua criação, o RFC Cerrado tem apresentado crescimento consistente:
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2022 – aporte inicial de US$ 11 milhões realizado pelas redes de supermercados britânicos.
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2023 – entrada de grandes players como Rabobank, Agri3 e Santander, elevando o montante para US$ 47 milhões.
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2024 – postura mais conservadora diante de desafios climáticos e de mercado, com aplicação de apenas US$ 6 milhões.
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2025 – retomada da expansão, com captação de US$ 60 milhões junto a investidores estrangeiros, incluindo o programa Mobilising Finance for Forests (MFF), gerido pelo banco de desenvolvimento holandês FMO, e o IDB Invest.
A meta para os próximos anos é ousada: atingir US$ 200 milhões em aportes, fortalecendo ainda mais a cadeia de financiamento da soja livre de desmatamento.
Seleção dos produtores e tecnologia aplicada
A seleção dos produtores beneficiados ocorre a partir da plataforma de crédito da Traive, que utiliza tecnologia para analisar dados de revendas, cooperativas e outros canais de originação. Em 2025, foram utilizados 40 canais de originação, resultando na análise de quase 2 mil candidatos.
O processo de seleção é rigoroso e prioriza produtores que seguem critérios ambientais claros, como a preservação de áreas de floresta nativa e o uso de práticas agrícolas sustentáveis. O objetivo é criar um match entre capital e impacto ambiental positivo, fortalecendo a reputação da soja livre de desmatamento no mercado internacional.
Soja livre de desmatamento e pressão internacional
O financiamento sustentável surge em um momento em que o Brasil enfrenta crescente pressão internacional sobre sua política ambiental. Países europeus já estabeleceram leis que proíbem a importação de produtos agrícolas associados ao desmatamento.
Nesse contexto, os produtores brasileiros que aderem ao modelo de soja livre de desmatamento conquistam vantagem competitiva, já que se alinham às exigências de consumidores mais conscientes. Além disso, atraem investidores dispostos a apoiar projetos que conciliam produtividade e sustentabilidade.
Essa dinâmica reforça a tendência de que o futuro da agricultura brasileira depende da capacidade de produzir mais sem ampliar fronteiras agrícolas.
Benefícios econômicos e ambientais
O impacto do financiamento da soja livre de desmatamento vai além da preservação ambiental. Entre os principais benefícios estão:
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Acesso a crédito mais barato – produtores conseguem reduzir custos financeiros.
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Abertura de mercados internacionais – maior facilidade de exportar para países com legislação ambiental rigorosa.
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Preservação da biodiversidade – manutenção de áreas de floresta nativa garante equilíbrio ecológico.
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Valorização da imagem do Brasil – o país fortalece sua reputação como fornecedor global de alimentos sustentáveis.
Essa combinação gera um ciclo positivo, em que produtores, investidores e consumidores se beneficiam de uma cadeia mais transparente e responsável.
Desafios do financiamento sustentável
Apesar dos avanços, ainda existem desafios importantes para consolidar a soja livre de desmatamento como padrão no Brasil. O principal deles é a sensibilidade do mercado de capitais, que busca retornos rápidos e pode hesitar diante de riscos associados ao setor agrícola, como variações climáticas e instabilidade política.
Outro ponto crítico é a necessidade de criar fontes estáveis de capital subordinado, que sirvam como colchão de segurança para investidores de mercado. Essa é uma das metas do consórcio nos próximos anos: estruturar mecanismos financeiros que deem mais previsibilidade e segurança à operação.
Ainda assim, a perspectiva é positiva. A demanda internacional por alimentos sustentáveis cresce, e iniciativas como o RFC Cerrado demonstram que há disposição para transformar o modelo agrícola brasileiro.
Soja sustentável como futuro da agricultura
O sucesso da captação de US$ 60 milhões para financiar a soja livre de desmatamento confirma uma tendência irreversível: o futuro da agricultura brasileira está diretamente ligado à sustentabilidade.
Enquanto políticas internas ainda geram incertezas, o setor privado avança em soluções que conciliam crédito, tecnologia e preservação ambiental. O desafio será expandir esse modelo para atingir mais produtores e garantir que a soja brasileira continue sendo competitiva nos mercados mais exigentes do mundo.
Se a meta de US$ 200 milhões se concretizar na próxima safra, o Brasil terá dado um passo decisivo para consolidar sua posição como líder global em produção agrícola sustentável, mostrando que é possível crescer preservando.






