Como o JPMorgan avalia a reação das ações de emergentes aos choques de petróleo
O início de 2026 foi marcado por um desempenho excepcionalmente forte das ações de emergentes, impulsionado por fluxos estrangeiros robustos. No entanto, a escalada do conflito no Oriente Médio trouxe volatilidade aos mercados, impactando principalmente os países emergentes. Em meio a esse cenário, a equipe de estratégia do JPMorgan manteve o Brasil como um dos principais mercados de interesse entre os emergentes, reforçando sua visão positiva no médio prazo.
Segundo os estrategistas do banco, a dinâmica de mercado no curto prazo deve permanecer volátil, tornando o posicionamento estratégico dos investidores um fator determinante para a performance das ações de emergentes. Apesar disso, caso os fluxos de petróleo se normalizem, a perspectiva para a região segue positiva, apoiada em fatores estruturais, como a exposição a inteligência artificial (IA) e semicondutores, bem como pela estratégia HALO — que prioriza empresas cuja atividade econômica depende de infraestrutura física, redes reguladas ou capacidade operacional que a IA não consegue substituir facilmente.
A estratégia HALO abrange setores específicos da América Latina e partes da CEEMEA (Europa Central e Oriental, Oriente Médio e África), destacando-se como diferencial competitivo para investimentos em emergentes. Além disso, o JPMorgan aponta que os lucros projetados das ações de emergentes devem superar os de países desenvolvidos, apoiados por estímulos de política e melhorias na governança corporativa.
Historicamente, choques de preços do petróleo causados por questões de oferta têm duração limitada, entre quatro e seis meses. Nesses períodos, as ações de emergentes tendem a cair cerca de 31% do pico ao fundo, recuperando o piso em três a cinco meses. Essa volatilidade é característica dos mercados emergentes, mas o banco ressalta que políticas de proteção já estão sendo implementadas para mitigar os impactos sobre crescimento e margens corporativas.
O JPMorgan mantém sua projeção de crescimento de lucros do MSCI EM para 2026/2027 em 31%/16%, sustentando o otimismo apesar do cenário desafiador. Entre os mercados com maior convicção para alta estão Coreia do Sul, África do Sul e Brasil. A Coreia do Sul é favorecida por vento estrutural positivo em tecnologia e reformas; a África do Sul apresenta ativos domésticos com potencial de superar o desempenho dos emergentes, à medida que o rand se valoriza; e o Brasil se beneficia de cortes de juros, preços mais altos do petróleo e oportunidades associadas ao calendário eleitoral.
No cenário geral, os emergentes permanecem como a região com melhor performance prevista para 2026, com valorização estimada em 7%, acompanhados do Japão. Entre os países que registraram forte alta anteriormente, aqueles com posições elevadas dos investidores sofreram quedas mais acentuadas, como a Coreia do Sul. Em contrapartida, a América Latina mostrou resiliência superior, destacando-se no contexto volátil.
Mercado de câmbio e fluxos de investimento
No mercado de câmbio, o Índice de Moedas dos emergentes do JPMorgan registrou queda de 2%, melhor do que os 3,5% observados durante o “Liberation Day” em 2025 e os 7% registrados no início da guerra Rússia-Ucrânia. Os fluxos de capital para emergentes permaneceram resilientes, com entradas de US$ 6,8 bilhões na primeira semana do conflito. ETFs amplos continuaram a receber aportes, embora alguns fundos específicos por país tenham registrado resgates.
Choques históricos do petróleo e impacto em emergentes
Os estrategistas do JPMorgan analisaram quatro choques históricos de oferta de petróleo para contextualizar o impacto em mercados emergentes: Guerra do Golfo (1990-91), greve na Venezuela (2002-03), Primavera Árabe (2011) e Guerra Rússia-Ucrânia (2022). Nesses episódios, os preços do petróleo atingiram picos em poucos meses e as ações de emergentes alcançaram o fundo três a cinco meses depois, reforçando o padrão de volatilidade temporária.
O conflito Rússia-Ucrânia de 2022 serviu como precedente, mostrando que interrupções regionais na oferta de energia podem gerar disrupção sem causar choque global duradouro. Preços do petróleo atingiram o pico em maio de 2022 e as ações de emergentes recuperaram-se cinco meses depois, confirmando que quedas acentuadas podem ser transitórias.
Estratégias de mitigação e políticas econômicas
O JPMorgan aponta que a correlação histórica entre preços do petróleo e ações de emergentes vem diminuindo à medida que índices incorporam mais tecnologia, serviços e inovação, e grandes importadores reduzem a intensidade de energia. Ferramentas de política, como subsídios e ajustes tributários, ajudam a amortecer impactos de curto prazo sobre os lucros, mantendo a projeção de crescimento do MSCI EM em 31% para 2026.
Caso os preços do petróleo persistam, revisões negativas de lucros tendem a ocorrer com defasagem de dois a três trimestres, afetando setores sensíveis, como Consumo, Imobiliário, Serviços de Comunicação, Saúde e Utilities. Entretanto, apenas 28% do índice MSCI EM apresenta beta negativo em relação ao petróleo, sugerindo impacto limitado sobre o crescimento emergente, que poderia cair de 31% para 27% em cenários extremos de estresse.
Formuladores de política em emergentes estão atuando para absorver parte do choque do petróleo, protegendo reservas domésticas e sustentando margens corporativas e consumo. No entanto, essa estratégia pode deslocar outros gastos e afetar o crescimento se o choque persistir, demandando atenção dos investidores às medidas fiscais adotadas pelos governos.
Ajustes de portfólio e preferências regionais
Diante das mudanças recentes, o JPMorgan ajustou suas recomendações em mercados emergentes: os Emirados Árabes Unidos foram rebaixados de overweight para neutro, enquanto a Arábia Saudita passa a ser preferida, devido à menor participação estrangeira e menor dependência de comércio exterior. Filipinas também tiveram recomendação reduzida de overweight para neutro, considerando vulnerabilidade à importação de petróleo e menor arsenal fiscal.
Em contrapartida, mercados como Brasil, África do Sul, Coreia do Sul, China e Índia mantêm posição overweight, cada um beneficiado por fatores específicos, como preços de petróleo favoráveis, reservas estratégicas e políticas de apoio, infraestrutura de energia limpa e opcionalidade geopolítica.
Empresas brasileiras mais resilientes ao petróleo
O JPMorgan destacou quatro empresas brasileiras entre as mais resilientes ao avanço do petróleo: Petrobras (PETR3), PRIO (PRIO3), Rumo (RAIL3) e São Martinho (SMTO3). A Petrobras é beneficiária direta da alta do petróleo bruto, enquanto PRIO destaca-se pelo modelo de negócios focado em extração e exportação. A Rumo se beneficia do aumento do preço do diesel, tornando o transporte ferroviário mais competitivo. Já a São Martinho se favorece com a competitividade do etanol em relação à gasolina.
A análise reforça que, mesmo diante da volatilidade de preços, as ações de emergentes oferecem oportunidades estratégicas de investimento, especialmente quando alinhadas a setores resilientes e políticas públicas de mitigação.





