Repercussão internacional dos atos pró-Bolsonaro em 03/08 expõe tensão diplomática e debate sobre democracia no Brasil
Manifestantes ganham destaque na mídia estrangeira ao exibir apoio a Trump e hostilidade a instituições brasileiras
Os atos pró-Bolsonaro realizados em diversas cidades do Brasil no último domingo (03/08) foram amplamente repercutidos pela imprensa internacional, revelando não apenas a resiliência da base de apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas também os desdobramentos geopolíticos e institucionais que esse movimento ainda carrega.
Com forte presença em centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro e Belém, as manifestações reuniram milhares de pessoas que exibiram bandeiras do Brasil, dos Estados Unidos e até de Israel, entoaram palavras de ordem contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e declararam apoio ao ex-presidente Donald Trump, em um contexto marcado por novas tarifas impostas pelos EUA a produtos brasileiros.
Bandeiras dos EUA, gritos de guerra e cartazes de Trump e Bolsonaro
Um dos elementos que mais chamou a atenção da cobertura internacional dos atos pró-Bolsonaro foi o uso ostensivo de bandeiras dos Estados Unidos, muitas vezes acompanhadas de imagens de Trump. A mídia estrangeira interpretou esse gesto como uma demonstração simbólica de alinhamento político com o ex-presidente americano, reforçando laços ideológicos entre as direitas populistas de ambos os países.
A Al-Jazeera, do Catar, apontou que os manifestantes “agradeceram” a Trump pelo que consideram um apoio às causas bolsonaristas. A rede relatou que muitos cartazes exibiam as imagens dos dois ex-presidentes juntos, como se compartilhassem o mesmo destino político diante do que chamam de perseguição judicial.
Repercussão internacional: da Al-Jazeera à Reuters
O portal da Al-Jazeera não apenas relatou o tom dos atos pró-Bolsonaro, como também relembrou que dias antes ocorreram protestos contra Trump em solo brasileiro, motivados pelas novas tarifas anunciadas pela Casa Branca sobre exportações nacionais. Ainda assim, os apoiadores de Bolsonaro aproveitaram a manifestação para se colocar ao lado do ex-presidente americano, enxergando-o como um aliado internacional.
Já a agência Reuters destacou que os alvos principais dos protestos foram o ministro Alexandre de Moraes, do STF, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A agência também apontou que a base bolsonarista gritou “Magnitsky” — uma referência à Lei Magnitsky, usada recentemente por Trump para sancionar Moraes. Esse gesto reforça a expectativa de que as sanções norte-americanas contra autoridades brasileiras serão cada vez mais exploradas como ferramentas políticas internas no Brasil.
A ausência física de Bolsonaro e a presença digital
Embora o ex-presidente Jair Bolsonaro esteja em prisão domiciliar, com uso obrigatório de tornozeleira eletrônica e impedido de utilizar redes sociais ou manter contato com autoridades estrangeiras, ele fez uma breve aparição em uma chamada de vídeo durante o ato no Rio de Janeiro. A imagem foi veiculada nas redes sociais de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mas posteriormente foi apagada.
A imprensa internacional, especialmente a France Press, mencionou que Bolsonaro não participou presencialmente por conta das restrições judiciais que enfrenta, mas ressaltou que a aparição digital gerou debates jurídicos intensos. O episódio reacende discussões sobre até que ponto a presença virtual infringe medidas cautelares impostas pelo STF.
Atores políticos e religiosos fortalecem narrativa bolsonarista
Além da militância nas ruas, os atos pró-Bolsonaro contaram com a participação de figuras políticas influentes. Em São Paulo, marcaram presença o prefeito Ricardo Nunes (MDB), o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, o pastor Silas Malafaia e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). No Rio de Janeiro, o governador Cláudio Castro (PL) discursou aos manifestantes, reiterando seu apoio ao ex-presidente.
Em Belém, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro discursou para a multidão, reiterando que seu marido está sendo alvo de perseguição política. O evento solidificou o seu nome como possível candidata à presidência em 2026, caso Jair Bolsonaro permaneça inelegível ou enfrente novas restrições judiciais.
Lei Magnitsky: nova arma política no cenário brasileiro
O uso da Lei Magnitsky para justificar sanções dos Estados Unidos contra o ministro Alexandre de Moraes trouxe novo combustível para a narrativa bolsonarista. Essa legislação é geralmente usada contra indivíduos acusados de corrupção ou violações de direitos humanos, e sua invocação no caso brasileiro elevou o tom da crise diplomática.
Durante os atos pró-Bolsonaro, manifestantes exibiam cartões bancários em alusão às sanções financeiras impostas ao ministro do STF, uma provocação direta que foi interpretada por analistas como tentativa de internacionalizar o embate entre Bolsonaro e a Justiça brasileira.
Tensão diplomática e cenário eleitoral de 2026
A tensão entre o governo Lula e a administração norte-americana ganhou novo contorno com a escalada de tarifas e o uso da Lei Magnitsky. Apesar de o Planalto tentar adotar um tom diplomático, reconhecendo a legitimidade das instituições norte-americanas, os atos pró-Bolsonaro demonstraram que parte expressiva da sociedade vê os Estados Unidos como aliados de seu projeto político.
Esse movimento também afeta diretamente o cenário para 2026. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, continua sendo cotado como potencial herdeiro político do bolsonarismo, embora sua ausência no evento tenha sido notada. Segundo sua assessoria, ele passou por procedimento médico no domingo, o que justificaria a ausência. Ainda assim, a movimentação de aliados e familiares de Bolsonaro reforça a continuidade do projeto político iniciado em 2018.
STF e PGR devem ser provocados após vídeo de Bolsonaro
Com o vídeo da aparição de Jair Bolsonaro no evento do Rio de Janeiro circulando (ainda que brevemente), é esperado que o Supremo Tribunal Federal (STF) seja provocado oficialmente, seja por meio da Procuradoria-Geral da República (PGR) ou por partidos políticos da oposição. A expectativa é que o ministro Alexandre de Moraes analise se houve descumprimento das medidas cautelares e se há espaço jurídico para novas sanções, inclusive prisão preventiva.
A militância bolsonarista se reinventa
Os atos pró-Bolsonaro do dia 03/08 mostraram uma base que não apenas se mantém ativa, mas que se adapta às novas realidades jurídicas enfrentadas pelo ex-presidente. A adoção de estratégias digitais, uso simbólico de imagens e a ligação com causas internacionais reforçam a resiliência e complexidade do movimento.
Mesmo diante de investigações e decisões judiciais, Jair Bolsonaro continua sendo o centro gravitacional da direita brasileira, capaz de mobilizar multidões, influenciar o debate nacional e manter vivo o embate com as instituições democráticas.






