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Banco Master: Galípolo explica que problema estava nos ativos, não nas altas taxas de CDB

Presidente do BC defende atuação da diretoria de fiscalização e detalha cronologia das ações

por Álvaro Lima
09/02/2026 às 14h51
em Economia
Presidente Do Bc Defende Atuação Da Diretoria De Fiscalização E Detalha Cronologia Das Ações - Gazeta Mercantil

A Anatomia do Ativo: O Diagnóstico de Gabriel Galípolo sobre o Colapso do Banco Master

A estabilidade do sistema financeiro nacional voltou ao centro do debate na última segunda-feira, quando o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, detalhou os bastidores e os fundamentos técnicos que levaram à intervenção na estrutura do Banco Master. Em um pronunciamento que ecoou nos principais corredores da Faria Lima, o chefe da autoridade monetária foi categórico ao separar o ruído do mercado da realidade contábil: o entrave não residia no passivo agressivo ou nas promessas de retorno aos investidores, mas em uma fragilidade estrutural do ativo da instituição.

A fala de Galípolo, ocorrida durante evento da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), serviu como um “vade mecum” sobre a governança bancária moderna. Ao esclarecer que oferecer taxas acima do CDI não configura, por si só, uma infração regulatória, o presidente do BC jogou luz sobre a complexa engrenagem de fiscalização que protege o sistema contra o risco sistêmico. O episódio do Banco Master transcende a liquidação de uma marca; ele se torna um case de estudo sobre a agilidade regulatória e a vigilância sobre a qualidade das carteiras de crédito no Brasil.

Leia também: Banco de Brasília tem novo presidente: BC aprova Nelson Souza em meio ao caso Master.

O Mito das Taxas e a Realidade dos Ativos

No mercado financeiro, a percepção de risco muitas vezes é distorcida pela rentabilidade oferecida. No caso do Banco Master, a oferta de Certificados de Depósito Bancário (CDB) com retornos que atingiam patamares de 140% do CDI atraiu não apenas investidores, mas também o escrutínio de analistas e críticos. Houve quem clamasse pela liquidação imediata da instituição baseando-se apenas nessas taxas. No entanto, o Banco Central opera sob a égide da técnica, não do clamor público.

“Não há nenhuma regra que vete taxas acima do CDI“, pontuou Galípolo. O foco do regulador, portanto, deslocou-se do que o banco prometia pagar (passivo) para o que o banco efetivamente possuía para honrar tais compromissos (ativo). A análise técnica revelou que o problema central era a insuficiência de ativos sólidos e a liquidez comprometida. No balanço bancário, o ativo representa os empréstimos concedidos, as garantias e as aplicações; se essa base é podre ou mal precificada, a estrutura inteira colapsa, independentemente do quão atraente seja o produto de investimento na prateleira.

Leia também: Deputados pedem nos EUA investigação sobre Banco Master e suposta rota ligada a Flávio Bolsonaro.

Fiscalização: O Cartão Amarelo e o Papel de Ailton de Aquino

A agilidade da diretoria de Fiscalização do BC, sob o comando de Ailton de Aquino, foi apontada como o divisor de águas neste processo. Ao assumir a nova gestão em janeiro, a diretoria intensificou o monitoramento das operações do Banco Master, utilizando ferramentas de inteligência de dados para identificar o que Galípolo classificou como “anormalidades”.

O mecanismo de fiscalização do BC funciona como uma rede de proteção preventiva. Antes de uma liquidação, existe o que Galípolo chamou de “cartão amarelo”. Trata-se de um prazo de aproximadamente seis meses concedido à instituição para que realize correções de governança, ajuste seu patrimônio e recupere a liquidez. No entanto, o acompanhamento detalhado sobre o Banco Master revelou práticas que soaram alarmes nos auditores: a formação acelerada de novas carteiras de crédito e a venda imediata dessas mesmas carteiras recém-criadas. Esse giro atípico sugeria uma tentativa de inflar o balanço sem a devida robustez nos fundamentos do crédito concedido.

Cronologia da Crise: De Janeiro à Liquidação Fundamentada

O cronograma de ações do Banco Central demonstra que a vigilância sobre o Banco Master foi um processo meticuloso. As primeiras dúvidas surgiram logo no início do ano, em janeiro de 2025. Em fevereiro, a criação de um grupo especializado permitiu um diagnóstico profundo sobre os riscos sistêmicos que o banco poderia representar para o mercado. Em março, as evidências colhidas pelo diretor Ailton de Aquino foram levadas à presidência do BC, iniciando o rito formal de notificação das autoridades competentes.

Muitos agentes de mercado questionaram o tempo transcorrido até a decisão final de liquidação. Galípolo, contudo, defendeu a cautela jurídica. Uma intervenção estatal em uma instituição financeira de porte relevante não pode ser feita de forma intempestiva. É necessária uma fundamentação jurídica inabalável, prevendo que o BC será inevitavelmente questionado judicialmente pelos controladores e credores. A solidez da decisão atual é o que garante que a estabilidade do sistema não seja abalada por batalhas legais intermináveis.

O Impacto no Mercado e a Segurança do Investidor em CDBs

A repercussão do caso Banco Master é um lembrete severo para o investidor, seja ele institucional ou pessoa física. A busca por retornos elevados em CDB deve ser acompanhada por uma análise da saúde financeira do emissor. Embora o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) ofereça uma camada de segurança para depósitos de até R$ 250 mil, a solidez do sistema depende da confiança na qualidade dos ativos bancários.

Analistas do setor reforçam que a intervenção rápida do BC protege o mercado como um todo, evitando o efeito dominó. A transparência na composição dos ativos é, agora, mais do que uma exigência regulatória; é um diferencial competitivo. Instituições que operam com carteiras de crédito de alta qualidade e governança transparente tendem a ganhar espaço em um cenário onde o investidor se torna mais seletivo e atento aos fundamentos macroeconômicos.

Política Monetária e o Cenário de Calibragem de Juros

Além do caso específico do Banco Master, Galípolo aproveitou o fórum da ABBC para contextualizar os desafios da política monetária nacional. O país vive um momento de “calibragem” da taxa básica de juros, a Selic, em meio a sinais de recuperação econômica que contrastam com a desancoragem das expectativas inflacionárias em horizontes mais longos.

A metáfora utilizada pelo presidente do BC foi precisa: ao contrário dos economistas que formularam o Plano Real, a gestão atual não possui uma “bala de prata”. O controle da inflação e a promoção do crescimento sustentável exigem um equilíbrio fino entre a taxa de juros e o estímulo à atividade econômica. A estabilidade financeira, garantida por ações como a fiscalização rigorosa de bancos, é o alicerce sobre o qual essa política monetária deve ser construída.

O Futuro do Sistema Financeiro e a Governança Bancária

As lições extraídas do episódio envolvendo o Banco Master devem moldar o comportamento de reguladores e regulados nos próximos anos. Para os bancos médios, o recado é claro: o crescimento deve ser sustentado por ativos reais e liquidez imediata, não por manobras contábeis ou giros atípicos de carteiras de crédito. A governança corporativa deixa de ser um item de conformidade para se tornar o coração da sobrevivência institucional.

Para o Banco Central, o caso valida o modelo de supervisão baseada em risco. A capacidade de detectar inconsistências em tempo real e agir preventivamente é o que separa o Brasil de crises bancárias sistêmicas vistas em outras economias globais. O desfecho deste caso, envolvendo credores e a gestão de ativos remanescentes, servirá de precedente para a atuação regulatória e para a resolução de litígios no setor financeiro brasileiro.

A Integridade do Ativo como Pilar de Confiança Bancária

Em última análise, a fala de Gabriel Galípolo reitera um princípio fundamental da economia clássica aplicado ao século XXI: a confiança. Um banco é, essencialmente, uma instituição de confiança. Quando o BC intervém e esclarece que o problema residia na qualidade dos ativos, ele cumpre seu papel pedagógico. O mercado financeiro é um ambiente de risco, mas esse risco deve ser mensurável, transparente e, acima de tudo, lastreado em ativos que existam de fato.

A proteção do patrimônio dos depositantes e a manutenção da fluidez do crédito dependem de um regulador que não teme dar o “cartão amarelo”. O Banco Master encerra um capítulo, mas abre uma nova fase de vigilância sobre a composição de ativos e passivos, onde a rentabilidade agressiva só será aceita se for o reflexo direto de uma gestão eficiente e de uma carteira de crédito inquestionável.

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