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Banco Master: uso de CRIs com terrenos de Ronaldinho Gaúcho amplia suspeitas de fraude financeira

por Álvaro Lima
05/02/2026 às 01h27
em Economia
Banco Master: Uso De Cris Com Terrenos De Ronaldinho Gaúcho Amplia Suspeitas De Fraude Financeira - Gazeta Mercantil

Reprodução

Operação envolvendo terrenos de Ronaldinho Gaúcho expõe uso de CRIs e amplia suspeitas sobre estrutura financeira do Banco Master

A investigação em curso sobre as operações financeiras do Banco Master ganhou uma nova frente com a revelação do uso de terrenos pertencentes ao ex-jogador Ronaldinho Gaúcho como lastro para a emissão de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs). A estrutura permitiu a captação de R$ 330 milhões, posteriormente direcionados a fundos de investimento ligados à própria instituição financeira, segundo apurações conduzidas pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela Polícia Federal (PF).

O caso se soma a um conjunto de indícios que apontam para a utilização recorrente de instrumentos do mercado de capitais para inflar artificialmente o tamanho dos ativos do Banco Master, ampliando sua capacidade de alavancagem e atração de investidores, sem que houvesse contrapartida efetiva em ativos imobiliários ou projetos produtivos.

Leia também: Governo amplia Plano Brasil Soberano e libera crédito para mais empresas após tarifaço dos EUA.

Estrutura financeira sob suspeita no Banco Master

De acordo com as investigações, o Banco Master operava por meio do Fundo City 02, do qual era o único cotista. Esse fundo concedia empréstimos a pessoas jurídicas que, na sequência, repassavam quase a totalidade dos recursos a fundos administrados pela gestora Reag. Tanto o Banco Master quanto a Reag acabaram sendo liquidados pelo Banco Central, diante das irregularidades identificadas.

A dinâmica descrita pelos investigadores indica a formação de um circuito fechado de recursos. O dinheiro captado retornava ao próprio conglomerado financeiro, sem que houvesse geração real de valor econômico, tampouco avanço concreto em empreendimentos imobiliários que justificassem a emissão dos títulos.

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Emissão de CRIs ampliou exposição do Banco Master

Parte relevante das operações investigadas teve início com a emissão de CRIs, instrumentos financeiros lastreados em créditos imobiliários, como parcelas de financiamentos ou receitas futuras de aluguel. No caso sob análise, os CRIs foram estruturados a partir de projetos imobiliários que jamais saíram do papel.

Em agosto de 2023, a Base Securitizadora realizou a emissão de R$ 330 milhões em créditos destinados à empresa S&J Consultoria. O lastro formal da operação eram notas comerciais voltadas ao desenvolvimento de terrenos em Porto Alegre, incluindo duas áreas de propriedade de Ronaldinho Gaúcho.

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Segundo a defesa do ex-atleta, ele não tinha conhecimento da emissão dos CRIs, e a operação imobiliária original já havia sido cancelada anos antes. Os advogados afirmam que não houve qualquer injeção significativa de recursos nos terrenos citados como lastro.

Terrenos funcionaram como fachada para captação

Na avaliação dos investigadores, os terrenos associados ao nome de Ronaldinho Gaúcho serviram apenas como elemento formal para viabilizar a captação de recursos no mercado. As áreas permaneciam vazias, sem obras ou intervenções, enquanto os papéis circulavam entre fundos ligados ao Banco Master.

Esse mecanismo permitia que os CRIs fossem registrados como ativos financeiros, elevando artificialmente o patrimônio do grupo. No setor bancário, o tamanho do ativo é um indicador central de solidez e capacidade de expansão, o que reforça a gravidade das suspeitas.

Para a PF, o modelo adotado pelo Banco Master criava uma aparência de robustez patrimonial que não correspondia à realidade dos ativos subjacentes.

Defesa de Ronaldinho Gaúcho nega envolvimento

Os advogados de Ronaldinho Gaúcho afirmam que as negociações envolvendo os terrenos tiveram início em 2021, com as empresas União do Lago e Melk, mas não prosperaram. Segundo a defesa, o negócio foi interrompido por falta de licenças ambientais e pendências relacionadas ao IPTU.

O advogado Maurício Haeffner, que representa o ex-jogador, sustenta que as parcerias imobiliárias não avançaram por desacordo comercial e que não houve qualquer participação do atleta na estrutura financeira posteriormente montada.

A defesa de Darci Garcia da Rocha, sócio no empreendimento original, também declarou desconhecer a emissão dos CRIs e a destinação dos recursos captados.

Investigação do Banco Central reforça suspeitas sobre o Banco Master

Relatórios do Banco Central indicam que o padrão identificado nesse caso não foi isolado. Uma série de empresas teria adotado procedimento semelhante: emissão de CRIs ou outros instrumentos de crédito, seguida da realocação dos valores em fundos ligados ao Banco Master e à Reag, em vez da aplicação em projetos imobiliários.

Essa prática, segundo os investigadores, distorce a função original dos CRIs, que deveriam servir à antecipação de recursos para obras e empreendimentos, remunerando investidores com juros provenientes da atividade econômica real.

CRIs sob suspeita chegam a R$ 1 bilhão

O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou mandados no âmbito da investigação e destacou que o volume total de CRIs sob suspeita, emitidos pela Base Securitizadora, pode alcançar R$ 1 bilhão.

A Base Securitizadora foi criada pelo empresário César Reginato Ligeiro, que deixou a companhia em 2022. A S&J Consultoria, beneficiária da emissão investigada, foi criada em 2021 e tem como sócia a empresa Land I, também ligada a Ligeiro. Ele segue como administrador da OCC S.A., empresa que mantém participação societária na estrutura.

Procurado, Ligeiro afirmou que atua no mercado imobiliário desde 2010 e que suas atividades sempre seguiram as normas legais e regulatórias, atribuindo eventuais questionamentos a fatos envolvendo terceiros.

Prisão de Daniel Vorcaro amplia crise do Banco Master

O avanço das investigações culminou na prisão de Daniel Vorcaro, apontado como dono do Banco Master, em operação conduzida pela Polícia Federal. A medida elevou a crise institucional em torno do banco e intensificou a pressão política e regulatória sobre o caso.

No Congresso Nacional, parlamentares da oposição protocolaram requerimento para a criação de uma CPI mista destinada a apurar as operações do Banco Master, incluindo investimentos de estatais e fundos públicos. A iniciativa ainda depende de decisão da presidência do Senado.

Impacto sistêmico preocupa reguladores e mercado

Para especialistas do setor financeiro, o caso do Banco Master levanta preocupações relevantes sobre a governança do mercado de CRIs e a fiscalização das estruturas de securitização. O uso de ativos imobiliários sem lastro econômico real compromete a confiança dos investidores e amplia riscos sistêmicos.

A previsibilidade e a transparência são pilares essenciais para o funcionamento do mercado de capitais. Quando instrumentos são utilizados apenas para inflar balanços, sem geração de valor, o impacto pode se espalhar por fundos, investidores institucionais e até entes públicos expostos a essas operações.

Avanço das apurações coloca Banco Master no centro do debate regulatório

Com a ampliação das investigações e a atuação conjunta de PF, MPF, Banco Central e STF, o Banco Master passou a ocupar posição central no debate sobre limites regulatórios, fiscalização de fundos e uso de instrumentos financeiros complexos no Brasil.

O desfecho do caso deve influenciar mudanças na supervisão do mercado de CRIs e no controle das relações entre bancos, securitizadoras e gestoras de recursos, com efeitos duradouros sobre o sistema financeiro nacional.

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