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Caso Marielle: STF julga acusados de ordenar assassinato

por Carlos Menezes
24/02/2026 às 13h09
em Política
Moraes Pede Data Para Julgar Réus Pelo Assassinato De Marielle Franco

Caso Marielle: STF julga acusados de ordenar assassinato e abre capítulo decisivo após quase oito anos

O caso Marielle entra nesta semana em sua fase mais decisiva: o Supremo Tribunal Federal (STF) julga, em Brasília, os acusados de ordenar e planejar o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, crime ocorrido em 14 de março de 2018, no Rio de Janeiro. Após quase oito anos de investigações marcadas por delações premiadas, operações policiais, tentativas de desvio e condenações dos executores, o processo avança agora sobre o núcleo apontado como mandante, deslocando o foco para as implicações institucionais, políticas e jurídicas de um dos episódios mais emblemáticos da história recente do país.

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O caso Marielle transcendeu a esfera criminal e tornou-se referência internacional sobre violência política, milícias e fragilidade institucional no Brasil. O julgamento no STF representa não apenas um passo processual, mas um teste para o sistema de Justiça em matéria de responsabilização de autoridades com foro privilegiado e supostos vínculos com estruturas de poder no Rio de Janeiro.

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O crime que redefiniu o debate sobre violência política

O caso Marielle teve início na noite de 14 de março de 2018, quando o veículo em que a parlamentar retornava de um debate na Casa das Pretas, no Centro do Rio, foi interceptado e alvejado. Marielle Franco foi atingida por quatro disparos; Anderson Gomes, por três. A assessora Fernanda Chaves sobreviveu.

A arma utilizada foi uma submetralhadora HK MP5, de uso restrito. A execução meticulosa, em via pública, evidenciou planejamento prévio. O caso Marielle ganhou repercussão global imediata, mobilizando organismos internacionais e organizações de direitos humanos.

Desde o início, o impacto institucional foi profundo. A execução de uma vereadora no exercício do mandato levantou questionamentos sobre segurança pública, infiltração de milícias e eventual captura de estruturas estatais por interesses criminosos.


Investigações sob tensão e a “investigação da investigação”

Nos primeiros meses, o caso Marielle enfrentou turbulências. Delegados apresentaram uma testemunha que atribuía o crime a milicianos rivais, versão posteriormente desmentida. A própria Polícia Federal desvendou a farsa, em episódio que ficou conhecido como “investigação da investigação”.

O episódio revelou fragilidades e disputas internas na condução do inquérito. O caso Marielle passou a ser acompanhado com vigilância redobrada por entidades da sociedade civil e pelo Ministério Público, diante do risco de obstrução.

A tentativa de desviar o foco reforçou a percepção de que o caso Marielle envolvia interesses sensíveis, com potencial de atingir redes de influência no estado do Rio de Janeiro.


Prisão dos executores e a lenta identificação dos mandantes

Em março de 2019, a Polícia Civil prendeu Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, apontados como executor e motorista do veículo usado na emboscada. A apreensão de 117 fuzis M-16 incompletos na residência de um conhecido de Lessa ampliou a dimensão do armamento sob investigação.

Apesar das prisões, o caso Marielle avançou lentamente quanto à identificação dos mandantes. A ausência da arma do crime e do veículo utilizado dificultou a consolidação probatória.

Um episódio que gerou forte repercussão envolveu o porteiro do condomínio Vivendas da Barra. A perícia, contudo, afastou a versão inicial que citava visita à residência do então presidente Jair Bolsonaro. O caso Marielle seguiu sob intensa pressão pública.


Federalização rejeitada e inovação jurídica no STF

Em 2020, o Superior Tribunal de Justiça rejeitou pedido de federalização do caso Marielle, entendendo não haver omissão das autoridades estaduais. A decisão manteve a investigação sob competência local naquele momento.

O processo, porém, inaugurou inovação relevante: a autorização judicial para quebra de sigilo de usuários que pesquisaram palavras-chave relacionadas ao crime na internet. O STF validou a medida diante da excepcional gravidade do caso Marielle, consolidando precedente sobre limites de investigação digital.

Um erro operacional de Ronnie Lessa — anotações com login e senha de site de consultas — tornou-se peça central. A partir dessa evidência, os investigadores identificaram buscas sobre Marielle e familiares, reforçando a linha acusatória.


Delações premiadas e a Operação Murder Inc.

Em 2023, Élcio de Queiroz firmou acordo de delação premiada, detalhando a execução e a logística. Em 2024, Ronnie Lessa aderiu à colaboração. As informações prestadas por ambos redefiniram o eixo do caso Marielle, apontando nomes do suposto núcleo mandante.

A Polícia Federal deflagrou a Operação Murder Inc., que resultou na prisão de Domingos Brazão, conselheiro do TCE-RJ; Chiquinho Brazão, então deputado federal; Rivaldo Barbosa, ex-chefe da Polícia Civil; além do major Ronald Paulo e de Robson Calixto, conhecido como Peixe.

Com a presença de parlamentar federal à época dos fatos, o caso Marielle foi remetido ao STF. O relator, ministro Alexandre de Moraes, recebeu a denúncia, e o julgamento ocorre na Primeira Turma.


A condenação dos executores e a virada processual

Em outubro de 2024, o 4º Tribunal do Júri do Rio condenou Ronnie Lessa a 78 anos e 9 meses de prisão e Élcio de Queiroz a 59 anos e 8 meses. A sentença marcou a primeira resposta penal concreta no caso Marielle.

Com os executores condenados, o foco passou a ser o julgamento dos acusados de mando. A Procuradoria-Geral da República sustenta que o crime teria sido motivado por disputas fundiárias em Jacarepaguá, área de influência política dos irmãos Brazão.

As defesas negam as acusações e argumentam que o caso Marielle se apoia essencialmente em delações, sem provas autônomas suficientes.


Implicações institucionais e teste ao foro privilegiado

O julgamento no STF coloca o caso Marielle no centro do debate sobre foro privilegiado e responsabilidade de agentes públicos. A análise pela Primeira Turma ocorre sob escrutínio público elevado.

Do ponto de vista institucional, o desfecho do caso Marielle poderá influenciar a percepção sobre a capacidade do sistema de Justiça de enfrentar estruturas criminosas com ramificações políticas.

Há também reflexos sobre a governança no Rio de Janeiro, estado historicamente afetado por denúncias de infiltração miliciana em órgãos públicos.


Repercussão internacional e pressão por responsabilização

Desde 2018, o caso Marielle mobiliza organizações internacionais e foi objeto de manifestações em diferentes países. O crime tornou-se símbolo global de violência contra representantes eleitos.

O julgamento no STF representa, portanto, um marco não apenas jurídico, mas reputacional. A condução técnica e transparente do caso Marielle é acompanhada por observadores estrangeiros e entidades de direitos humanos.


O que está em jogo na etapa final do processo

Com as alegações finais apresentadas, o caso Marielle entra em fase decisiva. A eventual condenação dos acusados de mando consolidará a narrativa acusatória construída a partir das delações e provas técnicas.

Por outro lado, eventual absolvição poderá reacender o debate sobre a robustez probatória do caso Marielle e os limites das colaborações premiadas como instrumento central de acusação.

A sociedade brasileira acompanha o julgamento como um divisor de águas. O caso Marielle, que atravessou quase oito anos de investigações, alcança seu momento mais sensível sob o olhar atento das instituições.


Justiça, memória e estabilidade institucional

Mais do que a responsabilização penal individual, o caso Marielle tornou-se símbolo de enfrentamento à impunidade e à violência política. O desfecho no STF terá impacto direto na credibilidade institucional.

O processo evidencia a complexidade de investigações que envolvem redes de poder e organizações criminosas. O caso Marielle permanece como referência histórica sobre a interseção entre política, segurança pública e sistema de Justiça.

A decisão que emergir do Supremo não encerrará apenas um processo criminal. Ela definirá o legado jurídico de um dos episódios mais marcantes da democracia brasileira recente.

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