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Selic 2026: Conflito no Oriente Médio pode desacelerar cortes do Copom

por Álvaro Lima
03/03/2026 às 09h11
em Economia
Selic 2026 - Gazeta Mercantil

Escalada do conflito no Oriente Médio pressiona decisão do Copom sobre a Selic

O acirramento do conflito no Oriente Médio tem gerado impactos imediatos nos mercados globais e aumenta a cautela dos investidores em relação às decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa básica de juros. Apesar de o consenso ainda apontar para um corte de 0,50 ponto percentual (p.p.) na Selic em março de 2026, analistas destacam que os eventos geopolíticos podem desacelerar o ritmo esperado de afrouxamento monetário.

Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, ressalta que “o evento no Oriente Médio aumenta a incerteza, mas não muda automaticamente a decisão do Copom em março”. Para ele, o impacto é mais sobre o ritmo do ciclo de cortes ao longo do ano do que sobre a decisão imediata. A economista-chefe da Mirae Asset Brasil, Marianna Costa, reforça que o cenário-base permanece inalterado, mas que a escalada das tensões tende a elevar a cautela da autoridade monetária.

Leia também: Boletim Focus eleva Selic de 2026 e ajusta projeções do PIB

Leia também: Copom indica corte de juros só após o Carnaval

Impacto do conflito no mercado de petróleo e câmbio

A repercussão internacional do conflito gerou efeitos imediatos no mercado financeiro. O preço do petróleo Brent atingiu a marca de US$ 80, enquanto o dólar chegou a R$ 5,20 no início da semana. Contudo, o movimento perdeu força ao longo do pregão, com o Brent sendo negociado a US$ 77 e o dólar recuando para R$ 5,17 na tarde de segunda-feira (2).

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, observa que “é fundamental compreender o efeito de curto e médio prazo e o novo patamar do dólar e do petróleo. Se os preços permanecerem elevados por semanas, haverá reflexos sobre os preços domésticos, dificultando o trabalho do Banco Central de manter a inflação dentro da meta”.

O impacto do aumento do petróleo e do câmbio sobre a inflação brasileira ainda é considerado incerto. No Boletim Focus divulgado nesta segunda, a mediana da projeção do IPCA para 2026 permaneceu em 3,91%, indicando que o mercado ainda espera inflação controlada apesar das pressões externas. Para 2027, a estimativa passou de 3,8% para 3,79%.

Cenário do Copom e possibilidades de ajuste

O Copom monitora atentamente não apenas os choques pontuais, mas sua persistência e a capacidade de afetar expectativas de mercado. Segundo Marianna Costa, “o que preocupa é a continuidade do impacto sobre a inflação, não o choque isolado”.

Trevisan aponta que a chance de um corte menor, de 25 pontos base, aumentou, mas ainda prevalece a probabilidade de 70% de corte de 50 pb. “A Selic terminal ao final de 2026 pode subir marginalmente, cerca de 25 pb, muito mais por prêmio de risco do que por mudança estrutural”, explica.

O mercado trabalha com a projeção de que o Copom encerre o ciclo de cortes em setembro, antes das eleições, com a Selic em 12,5%. Considerando a taxa atual de 15%, isso indicaria cortes de 0,5% p.p. para as próximas cinco reuniões.

Quando o choque externo impacta a inflação

O efeito do conflito sobre a inflação depende de sua duração e intensidade. Gustavo Sung explica que um aumento de 1% no preço da gasolina pode gerar impacto de 0,5 ponto percentual no IPCA, enquanto um aumento de 10% no petróleo equivale a 0,2 ponto percentual. “O choque precisa ser persistente para haver transmissão relevante à economia brasileira”, diz.

A XP Investimentos considera a alta do petróleo como um vetor ambíguo: por um lado, ele melhora a balança comercial e a arrecadação de royalties e exportações; por outro, encarece combustíveis e fretes, pressionando o IPCA. A magnitude do efeito líquido depende do tempo de manutenção do preço elevado e do grau de repasse para os preços internos.

Possíveis ajustes na política monetária

Para que o Copom reduza o ritmo do corte da Selic para 25 pb ou indique uma pausa, seria necessário observar uma combinação de fatores: Brent acima de US$ 90 de forma persistente, câmbio entre R$ 5,30 e R$ 5,40 e deterioração das expectativas de inflação para 2026 e 2027. Essa análise reflete a estratégia de precaução do Banco Central, que prioriza estabilidade de preços e credibilidade do regime de metas.

O ajuste tático observado nos DI futuros e a incorporação de uma Selic terminal mais elevada para 2026 são respostas imediatas do mercado ao choque geopolítico, segundo Costa. “O Banco Central só mudará o ritmo de cortes se houver indícios claros de impacto duradouro sobre a economia”, acrescenta Trevisan.

O papel do petróleo no cenário econômico brasileiro

O petróleo atua como um fator duplo para a economia. O aumento de preços fortalece contas externas, melhora receitas fiscais e eleva a competitividade das exportações. Por outro lado, encarece insumos essenciais, como combustíveis e transporte, pressionando os custos internos e, consequentemente, a inflação.

Economistas destacam que o efeito líquido sobre a Selic depende da persistência do choque e da resposta do mercado. Caso o conflito se prolongue e mantenha preços elevados, o Copom precisará ajustar a comunicação e a política monetária de forma mais cautelosa, para não comprometer a trajetória inflacionária prevista.

Expectativas do mercado e cenário eleitoral

O cenário eleitoral brasileiro em 2026 adiciona complexidade à política monetária. Com o ciclo de cortes da Selic previsto para encerrar antes das eleições, qualquer impacto externo que pressione a inflação pode alterar o ritmo esperado, influenciando decisões do Copom e expectativas de investidores.

O consenso de mercado projeta cortes graduais de 0,5% p.p. nas próximas reuniões, mas eventos geopolíticos como o conflito no Oriente Médio demonstram que riscos externos podem desacelerar esse ritmo, exigindo monitoramento contínuo e ajustes estratégicos por parte do Banco Central.

Comunicação do Banco Central e transparência

A comunicação do Copom torna-se ainda mais relevante diante de choques externos. A autoridade monetária precisa sinalizar de forma clara como eventos geopolíticos influenciam suas decisões, evitando surpresas e garantindo previsibilidade para o mercado.

A estabilidade da inflação e a condução transparente da política monetária são essenciais para a confiança de investidores e consumidores, reforçando o papel do Banco Central como guardião da meta inflacionária e da saúde econômica do país.

Cenário final: cautela e monitoramento

O conflito no Oriente Médio evidencia a importância de monitoramento constante do petróleo, câmbio e expectativas inflacionárias. Para o Copom, o desafio é equilibrar estímulo monetário com controle de preços, evitando que choques externos contaminem a trajetória de desinflação observada na economia brasileira.

A estratégia do Banco Central diante da escalada geopolítica combina prudência, análise contínua de dados e comunicação eficaz, garantindo que decisões sobre a Selic reflitam a realidade econômica do país e preservem a estabilidade macroeconômica até o final de 2026.

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