Déficit comercial dos EUA cai em junho, mas cenário ainda não aponta tendência de recuperação sustentável
O déficit comercial dos EUA registrou uma queda de 10,8% em junho de 2025 em comparação ao mês anterior, marcando um alívio temporário no saldo negativo da balança de bens. Ainda que esse recuo represente uma melhora nos indicadores de comércio exterior, economistas alertam que o cenário não configura uma tendência de recuperação sustentável. A oscilação se insere em um contexto ainda influenciado pela guerra tarifária iniciada na gestão de Donald Trump e pelas negociações subsequentes que vêm moldando a dinâmica comercial americana.
Em junho, os Estados Unidos acumularam um déficit de US$ 85,988 bilhões, valor próximo ao registrado em abril (US$ 85,898 bilhões), porém 13% inferior ao registrado no mesmo mês de 2024, quando o déficit comercial chegou a US$ 98,813 bilhões. Esse resultado coloca o saldo abaixo da marca de US$ 100 bilhões pela terceira vez desde outubro de 2024, refletindo uma volatilidade mais controlada, mas ainda significativa nas contas externas.
Importações recuam mais que exportações e reduzem o desequilíbrio
A leve melhora no déficit comercial dos EUA em junho é atribuída principalmente à queda das importações, que recuaram 4,2%, totalizando US$ 264,15 bilhões. Já as exportações também tiveram retração, mas em menor proporção: uma queda de 0,6%, totalizando US$ 178,163 bilhões. Essa diferença entre as variações reforça que o saldo menos negativo se deve mais a uma desaceleração nas compras externas do que a um crescimento da competitividade americana no mercado internacional.
A estrutura do comércio exterior dos EUA ainda mostra vulnerabilidades frente a oscilações geopolíticas, custos logísticos globais e políticas protecionistas adotadas por parceiros comerciais. O país tem enfrentado dificuldades para aumentar suas exportações de forma consistente, o que limita os ganhos com eventuais recuos nas importações.
Recorde de déficit ainda recente reforça instabilidade
Apesar do recuo em junho, o déficit comercial dos EUA ainda está longe de níveis considerados saudáveis. Em março de 2025, o país registrou um recorde histórico, com US$ 161,951 bilhões de saldo negativo na balança de bens, movimento motivado por compras antecipadas frente ao risco de novas tarifas comerciais entrarem em vigor.
Esse dado histórico evidencia que a melhora recente pode ser apenas um respiro dentro de um cenário mais amplo de desequilíbrio comercial. Especialistas apontam que, sem mudanças estruturais na base exportadora do país e sem avanços em acordos bilaterais, os Estados Unidos continuarão a enfrentar dificuldades para manter a balança de bens sob controle.
Mercado de trabalho dos EUA mostra sinais de enfraquecimento
Outro indicador que reflete o comportamento econômico norte-americano é o número de vagas de emprego nos EUA, que caiu em junho. Segundo o Departamento do Trabalho, o país registrou 7,437 milhões de vagas em aberto, contra 7,712 milhões em maio — uma queda de 275 mil postos. No setor privado, as vagas caíram para 6,551 milhões, enquanto no setor público houve leve aumento de 30 mil vagas.
Além disso, as novas contratações caíram 261 mil no mês, totalizando 5,204 milhões. Apesar disso, o número representa um aumento de 116 mil vagas em relação a junho de 2024, o que mostra que o mercado de trabalho não está em retração severa, mas segue dando sinais de moderação.
Esses dados podem influenciar diretamente o comportamento do consumidor, impactando decisões de consumo e poupança e, consequentemente, o volume de importações, o que também afeta a balança comercial dos EUA.
Confiança do consumidor melhora, mas ainda abaixo dos níveis de 2024
O índice de confiança do consumidor dos EUA apresentou melhora em julho, subindo para 97,2 pontos, contra os 95,2 de junho, após uma revisão para cima. No entanto, os dados ainda demonstram um cenário cauteloso. O índice de expectativas — que avalia as perspectivas de curto prazo dos consumidores em relação à renda, negócios e mercado de trabalho — subiu para 74,4 pontos, mas continua abaixo da marca de 80, que tradicionalmente sinaliza uma possível recessão.
Já o índice da situação atual, que avalia o momento presente, caiu para 131,5 pontos. Ou seja, os consumidores estão mais otimistas em relação ao futuro, mas ainda percebem dificuldades no presente, especialmente no que diz respeito ao custo de vida e à estabilidade do mercado de trabalho.
Essa percepção afeta diretamente o consumo interno, principal motor da economia dos EUA, e pode influenciar o comportamento das importações e exportações — componentes essenciais para o equilíbrio da balança comercial.
Contexto internacional e política comercial influenciam resultados
O cenário do déficit comercial dos EUA está fortemente ligado ao contexto internacional. Desde o início das políticas tarifárias adotadas na gestão Trump, os Estados Unidos têm enfrentado desafios para reposicionar seus produtos no mercado global. Além disso, as tensões com a China, União Europeia e outros parceiros comerciais estratégicos continuam a influenciar os resultados mensais da balança.
As exportações americanas continuam sofrendo com a competitividade global, especialmente em setores como tecnologia, automóveis e bens de consumo duráveis. A dependência de fornecedores estrangeiros para matérias-primas e bens intermediários também pressiona as importações, dificultando o equilíbrio das contas externas.
Ausência de tendência clara exige atenção redobrada
Apesar da queda no déficit comercial dos EUA em junho, economistas apontam que não há, até o momento, uma tendência clara de recuperação ou de ajuste sustentável. A oscilação mensal tem sido uma constante nos últimos trimestres, muitas vezes impulsionada por fatores pontuais, como variações cambiais, preços do petróleo e decisões de política monetária.
A economia americana segue resiliente, mas enfrenta riscos. Caso os juros se mantenham altos por mais tempo ou haja uma desaceleração da atividade global, as exportações podem sofrer ainda mais, agravando novamente o saldo negativo da balança comercial.
Perspectivas para o segundo semestre de 2025
Para o restante de 2025, a expectativa é de que o déficit comercial dos EUA continue oscilando, dependendo do desempenho do mercado de trabalho, da inflação e da política monetária do Federal Reserve. A possível desaceleração da economia chinesa, as eleições presidenciais norte-americanas e o realinhamento geopolítico global também podem interferir no desempenho da balança de bens.
Especialistas defendem que o país precisa investir mais na reindustrialização, fortalecer acordos comerciais estratégicos e diversificar seus mercados de exportação para enfrentar os desafios da nova economia global.






