Delegado Caveira causa tensão no Congresso ao exibir bandeira pró-Trump durante sessão de apoio a Bolsonaro
Em meio a uma crescente tensão entre os Poderes e à tentativa da base bolsonarista de reagir politicamente às decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), o deputado federal Delegado Caveira (PL-PA) protagonizou um episódio que evidenciou o racha interno no grupo. Durante uma sessão informal da Comissão de Segurança Pública, realizada mesmo com o recesso parlamentar em vigor, o parlamentar exibiu uma bandeira com o nome do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o que gerou incômodo entre seus próprios aliados.
A sessão foi convocada com o objetivo específico de aprovar uma moção de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), após as medidas impostas pelo ministro Alexandre de Moraes, como o uso de tornozeleira eletrônica e a proibição de acesso às redes sociais e entrevistas públicas. Apesar do foco claro em solidarizar-se com Bolsonaro, o gesto simbólico de Delegado Caveira acabou por desviar os holofotes, criando constrangimento político.
Bandeira de Trump vira ponto de discórdia na base bolsonarista
O gesto de Caveira foi entendido como inadequado por vários colegas de bancada. O desconforto foi visível. Ainda que Donald Trump seja uma figura admirada por parte da direita brasileira, o uso da bandeira de outro país foi interpretado por parlamentares como um desvio da pauta nacional. Em um momento de mobilização interna e com o foco voltado para o embate com o STF, a iniciativa foi considerada inoportuna.
Um dos deputados presentes chegou a solicitar que Delegado Caveira recolhesse o objeto, alegando que a exibição da bandeira norte-americana, com o nome de Trump em destaque, poderia enfraquecer a narrativa de defesa das liberdades civis no Brasil e desviar o foco daquilo que seria um ato de apoio específico a Bolsonaro.
Essa repreensão, ainda que discreta, revelou o desconforto que o gesto causou, escancarando uma divisão latente entre os que desejam uma postura mais institucional e os que apostam em símbolos de impacto e provocação política.
Sessão desafiou recesso parlamentar e contrariou decisão da Mesa Diretora
A reunião da Comissão de Segurança Pública não deveria sequer ter ocorrido, segundo as regras internas da Câmara dos Deputados. O presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), havia decretado a suspensão de atividades deliberativas durante o recesso informal. Mesmo assim, os parlamentares bolsonaristas ignoraram a determinação e promoveram o encontro de forma simbólica.
O movimento foi interpretado como um ato de resistência à decisão do STF e uma tentativa de manter a militância engajada mesmo durante o recesso. No entanto, a quebra do protocolo institucional acendeu alertas na cúpula da Câmara, que já estuda medidas disciplinares para evitar precedentes semelhantes em sessões futuras.
Racha interno: conservadorismo versus populismo performático
A atuação de Delegado Caveira levanta um debate recorrente dentro da base bolsonarista: o conflito entre um conservadorismo tradicional e o populismo performático. Parte dos parlamentares acredita que atitudes como a de exibir uma bandeira pró-Trump criam ruído desnecessário e podem dificultar o alinhamento político necessário para enfrentar institucionalmente decisões como as impostas a Bolsonaro.
Outros, no entanto, consideram que o impacto visual e simbólico de tais gestos pode impulsionar o discurso da direita em redes sociais e alimentar a militância. O problema é que, em um ambiente político cada vez mais polarizado, esse tipo de exposição pode ser explorado por adversários como um sinal de desorganização e ausência de foco.
Exibição da tornozeleira eletrônica por Bolsonaro aumenta tensão
Na véspera da reunião, o ex-presidente Jair Bolsonaro apareceu no Congresso Nacional para mostrar a tornozeleira eletrônica instalada após determinação judicial. O ato teve o objetivo claro de reforçar a narrativa de que está sendo perseguido politicamente. O gesto provocou forte reação nas redes sociais, sendo amplamente replicado por apoiadores e criticado por opositores.
A reunião informal da comissão, portanto, seria uma continuidade dessa narrativa, buscando institucionalizar o apoio ao ex-presidente. No entanto, a presença da bandeira estrangeira acabou transformando o momento em uma exibição de contradições dentro do próprio grupo político.
Câmara avalia possíveis punições por descumprimento do recesso
Apesar de não haver, até o momento, punições concretas aplicadas aos deputados que participaram da sessão durante o recesso informal, a Mesa Diretora da Câmara já monitora a movimentação do grupo. Há um entendimento de que episódios como esse podem fragilizar o controle interno da Casa e abrir brechas para que outras comissões tentem se reunir em momentos inoportunos.
Caso atitudes semelhantes se repitam, não está descartada a aplicação de sanções regimentais, como advertências formais ou restrições temporárias em comissões. O episódio do Delegado Caveira poderá ser usado como um exemplo de como manifestações simbólicas — mesmo as que visam apoiar uma liderança política — podem ultrapassar os limites do protocolo legislativo.
Delegado Caveira e o uso recorrente de gestos simbólicos
Não é a primeira vez que o deputado Delegado Caveira utiliza gestos simbólicos em plenário. Em outras ocasiões, o parlamentar já vestiu trajes militares, exibiu imagens de armas e usou termos de guerra cultural para se referir à atuação do Judiciário. Seu estilo agressivo e performático encontra eco em parte do eleitorado conservador, mas é alvo de críticas de adversários e, agora, até mesmo de aliados.
A exibição da bandeira pró-Trump reforça sua linha de atuação, mas também amplia as tensões internas dentro do PL e do grupo que orbita em torno de Bolsonaro. Em um momento em que a direita tenta encontrar uma estratégia de unificação diante das pressões institucionais, atitudes isoladas como essa podem mais atrapalhar do que ajudar.
A crise de imagem e o desgaste da narrativa bolsonarista
O desgaste da narrativa bolsonarista não está restrito apenas aos embates com o Judiciário. Internamente, o grupo precisa lidar com as diferentes estratégias adotadas por seus representantes. A atuação de Delegado Caveira simboliza um setor que aposta no choque visual, enquanto outro segmento prega mais moderação e foco institucional.
Esse embate de estilos, se não for resolvido, pode comprometer o capital político do grupo nas próximas eleições e enfraquecer o discurso de perseguição promovido contra Bolsonaro. A oposição, por sua vez, observa os movimentos com atenção e já trabalha para explorar cada ruído como prova de que o bolsonarismo perdeu o rumo.






