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Brasil vai digitalizar documentos raros para revelar a origem das desigualdades no país

Projeto apoiado pelo CNPq reúne universidades federais e criará banco de dados público com registros históricos sobre população, terras, migrações e economia

por Aparecida Garcia
22/05/2026 às 22h12
em Brasil
Brasil Vai Digitalizar Documentos Raros Para Revelar A Origem Das Desigualdades No País - Gazeta Mercantil

Pesquisadores de diferentes universidades brasileiras vão digitalizar documentos históricos raros para criar um banco de dados público sobre a formação social, econômica e demográfica do Brasil. A iniciativa faz parte do projeto “Regiões: Histórias das Desigualdades Sociais no Brasil”, vinculado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) e apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

O objetivo é investigar como as desigualdades sociais foram construídas ao longo da história brasileira, desde o período colonial até a República. Para isso, a rede de pesquisadores vai localizar, digitalizar e organizar documentos antigos que registram informações sobre terras, população, migrações, comércio, famílias, propriedades e estruturas econômicas regionais.

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A proposta reúne instituições de diferentes regiões do país. No Nordeste, a Universidade Federal de Sergipe (UFS) integra o projeto por meio da coordenação da professora Edna Maria Matos Antônio e da vice-coordenação do professor Carlos de Oliveira Malaquias, ambos vinculados ao Departamento de História da universidade.

Documentos históricos vão virar banco de dados público

Uma das principais metas do projeto é transformar documentos históricos dispersos em uma base de dados pública, acessível pela internet. O material será digitalizado e organizado com apoio de ferramentas computacionais, permitindo novas pesquisas sobre a formação do Brasil e a permanência das desigualdades regionais.

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Entre os documentos que serão analisados estão rôis de confessados, registros de sesmarias, mapas populacionais da colonização portuguesa, registros paroquiais de terras, inquéritos provinciais do Império e da República e livros dos Ofícios de Notas.

Esses registros ajudam a revelar como a sociedade brasileira se estruturou ao longo dos séculos. Eles podem indicar quem tinha acesso à terra, como as populações se deslocavam, quais grupos concentravam riqueza, como se organizavam as famílias e de que forma as atividades econômicas se conectavam entre regiões.

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Ao reunir essas informações em um banco de dados nacional, os pesquisadores poderão cruzar dados e identificar padrões históricos que ajudam a explicar desigualdades ainda presentes no país.

Projeto quer entender como o Brasil se tornou desigual

A pesquisa parte da ideia de que a desigualdade brasileira não surgiu de forma recente nem isolada. Ela foi construída por processos históricos ligados à colonização, à ocupação territorial, à concentração de terras, ao comércio, à escravidão, à administração pública e às relações econômicas entre diferentes regiões.

Por isso, o projeto adota uma abordagem comparativa. A intenção é analisar como as desigualdades se formaram em cada território e como essas trajetórias regionais se conectaram à formação nacional.

A partir dos documentos, os pesquisadores pretendem compreender dinâmicas demográficas, econômicas e sociais que marcaram o país desde o período colonial. A rede também buscará identificar relações entre migrações, comércio, propriedade da terra e concentração de poder.

Essa abordagem pode ajudar a explicar por que determinadas regiões acumularam mais riqueza, infraestrutura e acesso a direitos, enquanto outras permaneceram marcadas por exclusão social, baixa renda e menor presença institucional.

UFS integra rede de pesquisa no Nordeste

A Universidade Federal de Sergipe participa da iniciativa como uma das instituições responsáveis pelos estudos no Nordeste. A coordenação local está a cargo da professora Edna Maria Matos Antônio, com vice-coordenação do professor Carlos de Oliveira Malaquias.

A região também conta com a participação de instituições como a Universidade Federal da Bahia (UFBA), a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e a Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

A coordenação nacional do projeto é do professor João Fragoso, do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A proposta foi submetida à Chamada CNPq/SECTICS/CAPES/FAPs nº 46/2024, dentro do programa dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia.

A presença de universidades nordestinas é estratégica porque a região concentra acervos fundamentais para compreender a formação do Brasil. Registros sobre terras, população, atividades econômicas, comunidades locais e redes comerciais podem revelar aspectos decisivos da história social brasileira.

Digitalização ajuda a preservar acervos ameaçados

Além da pesquisa acadêmica, a digitalização terá papel importante na preservação documental. Muitos arquivos históricos estão em acervos físicos sujeitos à deterioração, perda, acesso limitado ou falta de estrutura adequada para consulta.

Ao digitalizar esses materiais, o projeto reduz o risco de desaparecimento de fontes importantes e amplia o acesso público a documentos antes restritos a pesquisadores que podiam consultar arquivos presencialmente.

A criação de bases digitais também permite organizar grandes volumes de informação. Com isso, será possível fazer buscas, comparar dados, identificar nomes, acompanhar trajetórias familiares e analisar padrões de ocupação territorial e atividade econômica.

A tecnologia, nesse caso, será usada como instrumento de preservação e democratização do conhecimento histórico. O projeto aproxima pesquisa histórica, ciência de dados e acesso público à informação.

Registros de terras e população estão entre os materiais analisados

Entre os documentos previstos no projeto, os registros de sesmarias e os registros paroquiais de terras terão papel relevante para investigar a formação da propriedade rural no Brasil.

As sesmarias foram mecanismos de distribuição de terras durante o período colonial. A análise desses documentos pode ajudar a entender como se formaram grandes propriedades, como determinados grupos acessaram terras e como a concentração fundiária se consolidou em diferentes regiões.

Os mapas populacionais e os rôis de confessados também são fontes importantes. Eles permitem observar composição populacional, presença de famílias, distribuição de pessoas em localidades específicas e transformações demográficas ao longo do tempo.

Já os livros dos Ofícios de Notas e inquéritos provinciais podem revelar relações econômicas, transações, contratos, circulação de bens e funcionamento de instituições locais no Império e na República.

Pesquisa pode apoiar estudos sobre desigualdade regional

O banco de dados público poderá ser usado por pesquisadores, estudantes, professores, instituições públicas e interessados em história do Brasil. A organização nacional dos documentos deve facilitar estudos sobre desigualdade regional, formação econômica e trajetórias sociais.

A comparação entre regiões será um dos diferenciais do projeto. Com dados padronizados e acessíveis, será possível observar semelhanças e diferenças entre Nordeste, Sudeste, Sul, Norte e Centro-Oeste ao longo da história.

Esse tipo de análise pode contribuir para debates sobre desenvolvimento regional, concentração de renda, acesso à terra, mobilidade social e permanências históricas da desigualdade.

A iniciativa também pode fortalecer o ensino de história, ao oferecer fontes organizadas para escolas, universidades e projetos de pesquisa. O acesso digital permite que documentos antes distantes do público sejam incorporados a aulas, estudos e materiais didáticos.

Projeto conecta universidades e arquivos regionais

A proposta prevê a construção de uma rede regional de arquivos integrada nacionalmente. Essa articulação permitirá que grupos de pesquisa trabalhem com acervos locais e, ao mesmo tempo, contribuam para uma base nacional comum.

A integração entre universidades é uma das bases do projeto. Cada instituição poderá contribuir com conhecimento sobre sua região, seus arquivos e suas trajetórias históricas específicas.

Essa rede também deve estimular a formação de novos pesquisadores. Estudantes de graduação e pós-graduação poderão participar de atividades de levantamento documental, digitalização, catalogação, tratamento de dados e análise histórica.

O resultado esperado é uma infraestrutura de pesquisa de longo prazo, capaz de sustentar estudos sobre a formação do Brasil e suas desigualdades sociais.

Banco público pode mudar pesquisas sobre a formação do Brasil

a criação de um banco de dados público com documentos históricos pode ampliar significativamente a capacidade de pesquisa sobre a formação do país. Ao transformar registros antigos em informações organizadas e acessíveis, o projeto permitirá novas leituras sobre processos que moldaram o Brasil.

A iniciativa busca mostrar como desigualdades de terra, renda, poder e acesso a recursos foram construídas historicamente. Também pode revelar conexões entre regiões, fluxos migratórios, comércio, redes familiares e estruturas de poder local.

Com apoio do CNPq e participação de universidades federais, o projeto reforça a importância da pesquisa pública para compreender problemas estruturais do país. Ao preservar documentos e abrir dados para consulta, a iniciativa pode contribuir para uma leitura mais profunda sobre as raízes da desigualdade brasileira.

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