Ex-assessor de Bolsonaro lança vaquinha para custear defesa nos Estados Unidos
O ex-assessor especial de Jair Bolsonaro para Assuntos Internacionais, Filipe Martins, abriu uma vaquinha virtual para financiar sua defesa jurídica nos Estados Unidos. Investigado por envolvimento em uma suposta tentativa de golpe de Estado em 2022, Martins tenta mobilizar apoiadores para cobrir os custos com advogados e despesas legais no exterior, após enfrentar restrições impostas pela Justiça brasileira.
O anúncio foi feito no domingo (9) pelo advogado Jeffrey Chiquini, que explicou nas redes sociais que a iniciativa partiu de simpatizantes de Martins, com o objetivo de arrecadar fundos destinados integralmente ao ex-assessor. O movimento ocorre em meio à crescente tensão política e jurídica em torno dos investigados nos inquéritos do 8 de janeiro e do núcleo bolsonarista acusado de articular o plano golpista.
Quem é Filipe Martins e por que ele está sendo investigado
Filipe G. Martins, conhecido por sua atuação ideológica durante o governo Bolsonaro, foi assessor especial da Presidência da República e figura próxima ao ex-presidente, especialmente em pautas ligadas à política externa e ao conservadorismo internacional.
Atualmente, ele é réu no Supremo Tribunal Federal (STF), acusado de ter participado da articulação do golpe de 2022, que previa medidas de exceção para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva.
As investigações da Polícia Federal (PF) apontam Martins como um dos integrantes do chamado “núcleo 2” — grupo composto por ex-assessores e aliados de Bolsonaro que teriam dado suporte logístico e operacional às manobras golpistas.
O principal elemento da acusação é uma reunião ocorrida em 7 de dezembro de 2022, na qual Bolsonaro teria apresentado uma minuta de decreto que previa intervenção nas instituições democráticas. O documento, segundo a PF, serviria de base jurídica para sustentar a tentativa de golpe.
A vaquinha de Filipe Martins e o apoio de aliados
A campanha de arrecadação foi lançada para financiar a defesa do ex-assessor nos Estados Unidos, país onde, segundo sua equipe jurídica, ocorreram abusos de autoridade e fraudes migratórias que teriam prejudicado sua situação internacional.
De acordo com o advogado Jeffrey Chiquini, todo o valor arrecadado será destinado exclusivamente a Filipe Martins, cobrindo custos com advogados, despesas processuais e apoio pessoal. A publicação no X (antigo Twitter) pediu que apoiadores e simpatizantes ajudem na divulgação da campanha, que ganhou tração em perfis bolsonaristas.
O objetivo declarado é responsabilizar judicialmente os autores de supostas irregularidades no sistema migratório americano, além de reforçar a narrativa de perseguição política que vem sendo construída em torno de alguns ex-integrantes do governo Bolsonaro.
Histórico de prisão e embates com o STF
Martins foi preso preventivamente em fevereiro de 2024, após seu nome aparecer na lista de passageiros do voo presidencial que levou Jair Bolsonaro a Orlando (EUA) em 30 de dezembro de 2022.
O Supremo Tribunal Federal (STF) considerou a evidência um indicativo de tentativa de fuga, fundamentando a decisão de prisão. A defesa, no entanto, sustenta que ele nunca embarcou no avião presidencial e que seu nome foi inserido indevidamente na lista.
Depois de seis meses preso em um presídio no Paraná, Martins obteve o direito à prisão domiciliar, concedido pelo STF devido ao risco de evasão e às condições pessoais do réu.
Nos meses seguintes, o caso voltou a gerar polêmica quando o ministro Alexandre de Moraes determinou o afastamento temporário da equipe de defesa de Martins por perda de prazos processuais. A decisão foi revertida pouco depois, mas provocou fortes críticas de aliados bolsonaristas, que acusaram o ministro de cercear o direito de defesa.
O julgamento e o contexto político
O julgamento de Filipe Martins e de outros integrantes do núcleo 2 está marcado para dezembro de 2025, entre os dias 9, 10, 16 e 17, no Supremo Tribunal Federal.
O processo será um dos principais capítulos da ofensiva judicial contra o grupo ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de organizar e apoiar a tentativa de golpe de Estado no fim de 2022.
Entre os réus, além de Martins, estão ex-assessores, ex-ministros e militares que, segundo as investigações, participaram da elaboração de estratégias políticas e jurídicas para contestar o resultado das eleições presidenciais.
O Ministério Público Federal (MPF) sustenta que o ex-assessor desempenhou um papel ativo na disseminação de informações falsas, no alinhamento de discursos antidemocráticos e na articulação de contatos com figuras-chave do entorno bolsonarista.
Reações à campanha e mobilização nas redes
A criação da vaquinha provocou repercussões imediatas nas redes sociais. Perfis de direita e aliados do ex-presidente Bolsonaro passaram a compartilhar o link da campanha, defendendo que Martins é vítima de perseguição política e midiática.
Entre os apoiadores, destacam-se influenciadores conservadores e ex-integrantes do governo, que enxergam no caso uma tentativa de “criminalizar a direita”.
Por outro lado, críticos apontam que a iniciativa busca explorar politicamente a narrativa de vitimização, desviando o foco das acusações graves que pesam sobre o ex-assessor.
Analistas políticos avaliam que a vaquinha de Martins reforça a estratégia bolsonarista de transformar réus em mártires políticos, mantendo a base mobilizada enquanto o ex-presidente e seus aliados enfrentam investigações e ações judiciais no STF.
Regina Duarte e a movimentação eleitoral de 2026
O episódio ganhou um novo elemento de destaque nas redes sociais quando a atriz e ex-secretária de Cultura, Regina Duarte, compartilhou uma reportagem da Folha de S.Paulo que citava Flávio Bolsonaro como um dos possíveis nomes para disputar a Presidência da República em 2026.
O gesto foi interpretado por apoiadores como um sinal de reorganização política do bolsonarismo, em um momento em que o grupo tenta reconstruir sua imagem diante da série de investigações em curso.
Mesmo distante do cenário institucional, a família Bolsonaro ainda mantém forte influência sobre a base conservadora, que continua mobilizada em torno de causas como a defesa de presos políticos e a crítica às instituições do Judiciário.
Desdobramentos jurídicos e próximos passos
Enquanto aguarda julgamento, Filipe Martins continua em prisão domiciliar, sob monitoramento eletrônico e com restrições de comunicação impostas pelo STF.
A defesa trabalha para anular parte das provas apresentadas pela Polícia Federal, alegando violação de sigilos e abuso de autoridade durante a fase de investigação.
O julgamento do núcleo 2 promete ser um divisor de águas no caso das tentativas de golpe. Uma condenação robusta poderá reverberar fortemente no cenário político de 2026, com impacto direto nas estratégias eleitorais da direita brasileira.
Por outro lado, uma absolvição parcial pode fortalecer a narrativa de perseguição e reanimar os movimentos de rua alinhados ao ex-presidente.
O símbolo de um bolsonarismo sob pressão
A vaquinha de Filipe Martins simboliza a sobrevivência política do bolsonarismo em meio a investigações judiciais e perdas de espaço institucional.
Enquanto o STF intensifica o cerco aos articuladores da tentativa de golpe, o ex-assessor de Bolsonaro tenta transformar sua situação em um movimento de resistência e autopreservação.
O caso reflete a tensão permanente entre as instituições democráticas e o núcleo duro do bolsonarismo, que ainda busca reafirmar sua base social e ideológica por meio da mobilização digital e da solidariedade financeira.






