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Ibovespa despenca 3,28% com guerra, petróleo em alta e dólar pressionando inflação

por Maria Helena Costa
03/03/2026 às 23h27
em Economia
Ibovespa Abre Em Queda E Dólar Recua Com Pce E Pib Dos Eua

Foto: Freepik

Ibovespa despenca 3,28% após fechamento do Estreito de Ormuz e escalada entre EUA e Irã

O Ibovespa viveu um dos pregões mais turbulentos do ano nesta terça-feira, ao encerrar com queda de 3,28%, aos 183.104,87 pontos, pressionado pela deterioração acelerada do cenário internacional. A confirmação do fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica para o escoamento global de petróleo, elevou o nível de tensão geopolítica e desencadeou um movimento global de aversão ao risco que atingiu em cheio os mercados emergentes.

A sessão foi marcada por forte volatilidade, alta expressiva do dólar e disparada das cotações do petróleo no mercado internacional. O ambiente externo sobrepôs-se à agenda doméstica e reduziu o apetite por ativos de risco, levando investidores a reforçar posições defensivas.

Leia também: Ibovespa despenca mais de 2% com guerra no Irã, MP do diesel e choque inflacionário.

Leia também: Analistas preveem: dólar pode despencar como na bolha da internet.


Bloqueio do Estreito de Ormuz acende alerta global

O gatilho para a queda do Ibovespa foi a confirmação do bloqueio do Estreito de Ormuz, corredor por onde transita aproximadamente 20% do petróleo consumido no mundo. A decisão ocorreu em meio à escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã, elevando o temor de interrupções prolongadas no abastecimento energético.

O efeito foi imediato nos contratos internacionais de petróleo, que registraram forte valorização. A perspectiva de oferta reduzida pressionou expectativas de inflação em diversas economias e aumentou a incerteza sobre a condução das políticas monetárias globais.

Leia também: B3 (B3SA3) cai mais de 5% e lidera perdas do Ibovespa após anúncio de Christian Egan como CEO.

Em momentos de tensão geopolítica, investidores tendem a migrar recursos para ativos considerados mais seguros, como títulos do Tesouro americano e o dólar. Esse fluxo reduziu a liquidez em bolsas de países emergentes, ampliando a pressão sobre o Ibovespa.


Movimento global de aversão ao risco

A queda do Ibovespa refletiu um movimento coordenado nos mercados internacionais. Bolsas na Europa e nos Estados Unidos também operaram sob forte volatilidade, diante do temor de agravamento do conflito no Oriente Médio.

Leia também: Inflação desacelera, mas educação, leitura e recreação se destacam.

No Brasil, o impacto foi amplificado pela combinação entre fatores externos e preocupações internas com a inflação. O IPCA-15 divulgado na sexta-feira anterior veio acima das expectativas, reacendendo dúvidas sobre o ritmo de convergência dos preços à meta estabelecida pelo Banco Central.

Com a alta do petróleo e a valorização do dólar, o cenário inflacionário tornou-se ainda mais desafiador. O Ibovespa, sensível às expectativas de juros e crescimento, reagiu com intensidade.


Setores mais pressionados

A queda do Ibovespa foi disseminada, atingindo principalmente empresas ligadas ao ciclo doméstico e ao crédito. Bancos registraram perdas relevantes, refletindo a percepção de maior risco e possível desaceleração econômica.

Mineradoras também recuaram, diante da possibilidade de enfraquecimento da atividade global caso o conflito se prolongue. O varejo, por sua vez, foi pressionado pelo aumento das expectativas inflacionárias, que pode comprometer o poder de compra das famílias.

As exceções ficaram concentradas em companhias ligadas ao setor de petróleo. Petrobras e Prio chegaram a operar em alta, impulsionadas pela valorização do barril. Ainda assim, o fluxo vendedor predominante limitou ganhos mais consistentes e impediu que esses papéis sustentassem o Ibovespa.


Dólar sobe quase 2% e amplia pressão

O dólar comercial fechou com alta de 1,91%, refletindo a busca global por segurança. O índice DXY, que mede a força da moeda americana frente a uma cesta de divisas fortes, avançou 0,65%.

A valorização cambial adiciona pressão sobre os preços internos, especialmente em bens importados e insumos industriais. Esse movimento reforça o desafio para o controle da inflação e aumenta a cautela dos investidores em relação ao mercado brasileiro.

O comportamento do câmbio foi determinante para aprofundar a queda do Ibovespa, uma vez que empresas dependentes de insumos externos tendem a sofrer com custos mais elevados.


PIB fica em segundo plano

No mesmo dia, o IBGE divulgou o PIB do quarto trimestre de 2025. O resultado confirmou a desaceleração da atividade econômica, com estabilidade no consumo das famílias na comparação trimestral.

Embora o dado estivesse alinhado às projeções do mercado e pudesse ser interpretado como um sinal de moderação da demanda doméstica, a divulgação teve impacto reduzido sobre o Ibovespa. A tensão internacional dominou completamente o noticiário econômico e financeiro.

A leitura predominante foi de que, em um cenário de choque externo relevante, indicadores domésticos tendem a exercer influência limitada no curto prazo.


Banco Central no radar

A combinação entre petróleo em alta, dólar valorizado e inflação resistente coloca o Banco Central sob maior escrutínio. O mercado ainda projeta continuidade do ciclo de cortes da Selic, mas a autoridade monetária poderá adotar postura mais cautelosa diante do novo ambiente de risco.

Mudanças na trajetória esperada dos juros têm impacto direto sobre o Ibovespa, especialmente em setores sensíveis ao crédito. Por isso, a comunicação do BC e os próximos dados de inflação serão monitorados de perto pelos investidores.


Perspectivas para os próximos dias

O comportamento do Ibovespa nos próximos pregões dependerá da evolução do conflito entre Estados Unidos e Irã e da estabilidade dos preços do petróleo. Caso haja sinalização de arrefecimento das tensões, parte das perdas pode ser revertida.

Por outro lado, um agravamento do cenário geopolítico pode manter o mercado sob pressão, com manutenção do fluxo de saída de capital estrangeiro de países emergentes.

Apesar da turbulência, analistas destacam que os fundamentos estruturais da economia brasileira permanecem relativamente sólidos, com sistema financeiro robusto e reservas internacionais elevadas. Ainda assim, no curto prazo, o Ibovespa deve seguir refletindo a volatilidade externa.

O pregão desta terça-feira entra para a lista dos dias que investidores prefeririam não reviver. Entre guerra, petróleo em alta e dólar fortalecido, o Ibovespa tornou-se o retrato local de uma crise com repercussão global.

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