O Ibovespa encerrou a semana com queda de 3,71%, aos 177.283,83 pontos, em sua quinta semana consecutiva de perdas, pressionado pela combinação de risco político doméstico, tensão geopolítica no Oriente Médio, alta do petróleo e expectativa de juros elevados por mais tempo nos Estados Unidos. Entre os destaques da Bolsa, Braskem (BRKM5) liderou os ganhos após o balanço do primeiro trimestre, enquanto Cosan (CSAN3) teve o pior desempenho semanal, também em reação aos resultados corporativos e ao cenário de desalavancagem.
O movimento negativo do Ibovespa ocorreu em uma semana marcada pela reta final da temporada de balanços, pela valorização do dólar e pela piora do humor global com ativos de risco. O dólar à vista (USDBRL) encerrou a última sessão cotado a R$ 5,0678, em alta de 1,63% no dia. No acumulado da semana, a moeda norte-americana avançou 3,55% frente ao real.
A pressão sobre a Bolsa brasileira ganhou força com o aumento da incerteza política no país. O mercado repercutiu o vazamento de um áudio atribuído ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, em conversa com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Segundo reportagem do Intercept Brasil, as mensagens indicariam uma negociação na qual Vorcaro teria se comprometido a repassar US$ 24 milhões, equivalente a cerca de R$ 134 milhões à época, para financiar um filme biográfico do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso por tentativa de golpe de Estado.
O caso elevou a cautela dos investidores porque envolve um nome apontado como potencial candidato da direita na eleição presidencial de outubro e um empresário investigado em apuração policial. Flávio Bolsonaro afirmou, em entrevista à CNN Brasil, que as conversas com Vorcaro não devem afetar sua pré-candidatura. Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal sob suspeita de fraude financeira. Os investigados têm direito à defesa.
Ruído político pesa sobre ativos brasileiros
O Ibovespa refletiu a percepção de aumento do risco doméstico. Para parte dos analistas, a possível ligação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro adiciona incerteza ao quadro eleitoral e pode influenciar a leitura do mercado sobre a disputa pelo Palácio do Planalto.
A expectativa agora recai sobre as próximas pesquisas de intenção de voto. O objetivo dos investidores será medir se o episódio terá impacto na opinião pública e se altera a viabilidade política de uma candidatura de Flávio Bolsonaro em outubro.
A incerteza eleitoral também reduziu o efeito positivo de medidas econômicas anunciadas pelo governo. Entre elas, a subvenção à gasolina, apresentada como tentativa de conter os preços dos combustíveis em meio à escalada do petróleo no mercado internacional.
Em momentos de maior instabilidade política, investidores tendem a reduzir exposição a ativos locais, especialmente ações ligadas ao ciclo doméstico. Esse movimento ajuda a explicar a pressão sobre empresas de consumo, educação, locação de veículos, tecnologia e infraestrutura, todas presentes entre as maiores quedas da semana.
Petróleo e juros nos EUA ampliam cautela global
O cenário externo também pesou sobre o Ibovespa. As tensões geopolíticas permaneceram no radar dos mercados com a viagem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à China. Investidores esperavam avanços nas negociações de paz no Oriente Médio com apoio de Pequim, importante aliado e grande comprador de petróleo do Irã. A ausência de progresso concreto manteve a pressão sobre os preços da energia.
Com o impasse para um cessar-fogo entre Washington e Teerã, o petróleo Brent permaneceu próximo de US$ 110 por barril. A alta da commodity reforça o temor de novos impactos inflacionários nas principais economias, sobretudo por meio de combustíveis, transporte, cadeias logísticas e custos industriais.
Nos Estados Unidos, dados de inflação ao consumidor e ao produtor acima do esperado para abril elevaram a percepção de que o Federal Reserve poderá manter juros altos por mais tempo. O mercado passou a considerar até mesmo a possibilidade de aumento dos juros em janeiro de 2027, diante da persistência inflacionária.
A mudança de comando no Fed também entrou no radar. Jerome Powell deixou a presidência da autoridade monetária norte-americana após oito anos no cargo. Kevin Warsh, ex-diretor da instituição e visto como próximo de Trump, deve assumir o comando do banco central mais importante do mundo. Powell, contudo, deve permanecer no Fed até 2028 como membro do conselho.
Esse quadro pressiona mercados emergentes. Juros mais altos nos Estados Unidos elevam a atratividade dos títulos norte-americanos, fortalecem o dólar e reduzem o apetite por risco em países como o Brasil. Para o Ibovespa, o efeito aparece em saída de fluxo estrangeiro, queda de ações sensíveis a juros e aumento da volatilidade.
Braskem lidera ganhos após balanço do 1T26
Na ponta positiva do Ibovespa, Braskem (BRKM5) liderou os ganhos da semana. A ação preferencial da petroquímica avançou 35,82% entre os dias 11 e 15 de abril, impulsionada pela reação dos investidores ao balanço do primeiro trimestre de 2026.
A Braskem (BRKM5) registrou lucro líquido de R$ 1,446 bilhão no 1T26, alta de 107% em relação ao mesmo período de 2025. O resultado surpreendeu positivamente parte do mercado, apesar de outros indicadores ainda mostrarem pressão operacional.
O Ebitda recorrente somou R$ 1 bilhão no trimestre, queda de 24% em relação ao ano anterior. A receita líquida caiu 20%, para R$ 15,488 bilhões. A companhia informou que, embora o conflito no Oriente Médio tenha elevado a volatilidade nos mercados internacionais a partir de março, especialmente nos preços de energia, o resultado trimestral não foi impactado de forma material.
O BTG Pactual avaliou que a Braskem (BRKM5) apresentou números melhores, com destaque para o Ebitda. O banco afirmou que os resultados devem melhorar de forma relevante no segundo trimestre, diante da recuperação dos spreads, mas manteve preocupação com a liquidez da companhia.
A valorização de Braskem (BRKM5) ocorreu em um contexto de base deprimida e expectativa de melhora operacional. Ainda assim, a empresa segue exposta a riscos relevantes, como volatilidade do petróleo, spreads petroquímicos, câmbio, alavancagem e demanda global por resinas.
Apenas nove ações fecharam a semana no azul
A semana negativa do Ibovespa ficou evidente no número reduzido de ações em alta. Apenas nove papéis do índice fecharam o período no campo positivo.
A maior alta foi de Braskem (BRKM5), com avanço de 35,82%. Em seguida vieram Prio (PRIO3), com valorização de 8,74%, Minerva (BEEF3), com alta de 7,32%, e Brava Energia (BRAV3), que subiu 6,56%.
Hapvida (HAPV3) avançou 5,42%, enquanto Vale (VALE3) ganhou 2,47%. Usiminas (USIM5) subiu 1,45%, MBRF (MBRF3) teve alta de 0,93% e Petrobras (PETR3) encerrou a semana com ganho de 0,68%.
O desempenho positivo de empresas ligadas a commodities e energia mostra que parte do mercado buscou proteção em setores beneficiados por preços internacionais mais elevados. Ainda assim, a alta desses papéis não foi suficiente para impedir a queda semanal do índice.
Cosan lidera perdas com balanço e preocupação financeira
Na ponta negativa do Ibovespa, Cosan (CSAN3) teve o pior desempenho da semana, com queda de 14,20%. A companhia também divulgou balanço do primeiro trimestre de 2026, que foi recebido com cautela pelo mercado.
A Cosan (CSAN3) reportou prejuízo líquido de R$ 1,58 bilhão no 1T26. O número representa melhora de 11% em relação ao prejuízo de R$ 1,79 bilhão registrado no mesmo período do ano anterior, mas ainda mantém a companhia no campo negativo.
A receita líquida caiu 7% na comparação anual, para R$ 9,03 bilhões. Por outro lado, o Ebitda ajustado avançou 60%, para R$ 3,34 bilhões. A melhora operacional, porém, não impediu a reação negativa dos investidores, que seguem atentos ao endividamento e à capacidade da empresa de reduzir alavancagem.
O Banco Safra avaliou que o fim do período mais difícil da Cosan (CSAN3) pode estar próximo. Segundo os analistas, os índices de cobertura de juros e de serviço da dívida tendem a melhorar nos próximos trimestres, acompanhando a redução dos pagamentos de juros decorrente da diminuição do endividamento.
Mesmo com essa leitura, o mercado manteve postura defensiva. A queda semanal da ação indica que investidores ainda exigem sinais mais claros de desalavancagem, geração de caixa e simplificação da estrutura corporativa.
Locadoras, educação e tecnologia aparecem entre quedas
Além de Cosan (CSAN3), outras ações ligadas ao ciclo doméstico tiveram forte desvalorização na semana. Localiza (RENT3) caiu 13,83%, Yduqs (YDUQ3) recuou 12,77% e Rumo (RAIL3) perdeu 11,58%.
Totvs (TOTS3) caiu 11,56%, C&A Modas (CEAB3) recuou 10,14% e Cogna (COGN3) teve baixa de 9,93%. Vamos (VAMO3) perdeu 9,31%, Rede D’Or (RDOR3) caiu 9,06% e CPFL Energia (CPFE3) recuou 9,03%.
O desempenho dessas ações mostra que a aversão ao risco atingiu setores variados. Empresas sensíveis a juros, consumo, crédito e crescimento doméstico tendem a sofrer mais quando há deterioração simultânea de cenário político, câmbio e curva de juros.
No caso de companhias de educação e varejo, a pressão pode estar ligada à percepção de renda disponível menor e custo financeiro mais alto. Em locação de veículos e infraestrutura, o peso da dívida e o custo de capital continuam no centro das avaliações. Já empresas de tecnologia sofrem com a compressão de múltiplos em ambientes de juros elevados.
Dólar acima de R$ 5 reforça pressão sobre a Bolsa
A valorização do dólar também foi um fator relevante para o Ibovespa. A moeda norte-americana encerrou a semana em alta de 3,55% frente ao real, cotada a R$ 5,0678 no fechamento da última sessão.
O câmbio mais depreciado tende a pressionar empresas com custos dolarizados, dívidas em moeda estrangeira ou exposição a importações. Ao mesmo tempo, pode beneficiar exportadoras, especialmente companhias de commodities.
A alta do dólar também reflete a busca por proteção em meio à incerteza política e externa. Quando investidores reduzem exposição ao Brasil, a pressão aparece tanto na Bolsa quanto no câmbio.
Para o Banco Central, a desvalorização do real adiciona complexidade ao combate à inflação. Um câmbio mais alto pode contaminar preços de combustíveis, alimentos, bens industriais e produtos importados, dificultando uma queda mais rápida da Selic.
Semana reforça ambiente defensivo para o Ibovespa
A quinta semana consecutiva de perdas do Ibovespa reforça o ambiente defensivo para ações brasileiras. O índice foi pressionado por fatores locais e internacionais, em uma combinação que elevou a volatilidade e reduziu o apetite por risco.
No Brasil, o ruído político envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro aumentou a incerteza sobre o quadro eleitoral. No exterior, a alta do petróleo, o impasse no Oriente Médio, os dados de inflação nos Estados Unidos e a perspectiva de juros elevados por mais tempo mantiveram investidores cautelosos.
A temporada de balanços também mostrou forte dispersão entre empresas. Braskem (BRKM5) reagiu positivamente aos resultados e liderou os ganhos, enquanto Cosan (CSAN3) ficou na ponta negativa apesar da melhora operacional, diante da preocupação com dívida e prejuízo.
Para as próximas sessões, o mercado deve acompanhar novas pesquisas eleitorais, desdobramentos das investigações envolvendo o Banco Master, sinais sobre a política monetária norte-americana, comportamento do petróleo e continuidade da temporada de resultados corporativos. Esses fatores devem seguir determinando o ritmo do Ibovespa e a rotação entre setores da Bolsa brasileira.








