Internet das Coisas (IoT) transforma setor de telecom e conecta máquinas no Brasil
O mercado brasileiro de telecomunicações vive uma transformação inédita com a expansão da Internet das Coisas (IoT), que conecta máquinas, veículos, sensores agrícolas, medidores inteligentes e uma variedade crescente de dispositivos. Dos quase 7 milhões de novas linhas móveis ativadas no último ano, cerca de 95% não foram contratadas por pessoas físicas, mas por máquinas — de tratores a câmeras, passando por postes de iluminação, veículos de passeio e caminhões.
Dados da consultoria Teleco indicam que a base de dispositivos IoT no Brasil atingiu 30 milhões de aparelhos ativos, dobrando de tamanho desde 2021. Esse crescimento marca a chamada “segunda onda” da IoT, que conecta lavouras, frotas de veículos, redes de energia e fábricas, impulsionando operadoras de telefonia a repensarem seus modelos de negócios tradicionais e a se posicionarem como fornecedoras de serviços de dados e inteligência artificial.
Crescimento regulatório e impacto no setor de telecomunicações
O impulso regulatório foi fundamental para o crescimento da Internet das Coisas (IoT) no Brasil. A Lei 14.108, aprovada em dezembro de 2020, zerou o Fistel para dispositivos M2M (machine-to-machine), eliminando a taxa de R$ 25 por chip que anteriormente tornava inviável a implementação de sensores de baixa receita.
“Para um sensor que transmite poucos kilobytes por dia e gera R$ 5 mensais, a conta simplesmente não fechava”, afirma Alexandre Dal Forno, diretor de Engenharia de Produtos B2B da TIM. Com a retirada da barreira fiscal, a base de IoT explodiu, e o setor passou a ver oportunidades de inovação em setores estratégicos, como agronegócio, indústria e energia.
Operadoras como TIM, Claro, Vivo e Arqia lideram a expansão
As principais operadoras de telecom têm investido fortemente na conectividade de dispositivos. Segundo dados de 2025:
| Operadora | 2022 | 2023 | 2024 | 4T25 | Adições 2025 (milhões) |
|---|---|---|---|---|---|
| Vivo | 6,46 | 7,10 | 7,66 | 8,18 | 0,514 |
| Claro | 5,2 | 6,1 | 6,98 | 7,83 | 0,847 |
| TIM | 1,42 | 2,16 | 2,98 | 3,54 | 0,562 |
| Arqia | 1,96 | 2,38 | 2,84 | 3,46 | 0,616 |
| Algar | 1,71 | 1,99 | 2,56 | 3,25 | 0,688 |
| Outras* | 1,11 | 1,79 | 2,86 | 3,45 | 0,585 |
| Total | 17,86 | 21,55 | 25,93 | 29,72 | 3,8 |
*Inclui Surf, NLT, Telecall, Transatel, 1NCE, Connect IoT. Fonte: Teleco (fev. 2026)
A TIM, por exemplo, já cobre 26 milhões de hectares do agronegócio com torres de 700 MHz, frequência que permite atingir até 40 mil hectares por torre. Com isso, a empresa convenceu fabricantes como John Deere e New Holland a embutirem roteadores em tratores, conectando máquinas que antes eram inteligentes, mas isoladas.
Agricultura de precisão e robótica conectada
A conectividade transformou a agricultura brasileira. Robôs autônomos da Solinftec percorrem lavouras 24 horas por dia, identificando pragas com GPS de precisão centimétrica e câmeras com inteligência artificial. Drones pulverizam defensivos apenas onde necessário, e sensores de umidade definem o momento ideal para aplicação.
“Antes, os dados ficavam na máquina e eram transferidos por pendrive. Hoje, qualquer trator novo sai de fábrica conectado”, explica Dal Forno. Esse salto tecnológico é um exemplo claro de como a Internet das Coisas (IoT) gera eficiência operacional, reduz custos e aumenta a produtividade no campo.
Telemetria automotiva e conectividade de veículos
No setor automotivo, a lógica é semelhante. A Arqia conecta veículos ainda na fábrica, fornecendo telemetria e integração com sistemas corporativos. Nos Estados Unidos, 90% dos carros novos já saem com chips de telemetria; no Brasil, menos de 20% possuem essa conectividade.
O caso da OnStar, da General Motors, é emblemático. Desde 2013, o serviço permite controle remoto de veículos, integração com wi-fi, acionamento automático de socorro em acidentes e rastreamento de carros roubados. Atualmente, mais de 1 milhão de carros na América do Sul utilizam o sistema, com índices de recuperação de 90%.
Medidores inteligentes e redes de energia
No setor elétrico, a Copel lidera projetos de IoT com medidores inteligentes. São 2 milhões de unidades instaladas, com investimento de R$ 1 bilhão e meta de atingir 5,3 milhões de aparelhos até 2030. Cada medidor conversa com a rede, permite corte e religação remota e monitoramento de tensão em tempo real.
Sergio Milani, superintendente de projetos especiais da Copel, destaca que a tecnologia possibilita eficiência energética e redução de perdas, enquanto a conectividade com redes privadas de telecom evita dependência de infraestrutura tradicional das operadoras.
Transformação de operadoras em empresas de dados
Com a expansão da Internet das Coisas (IoT), operadoras como TIM e Arqia buscam subir na cadeia de valor, transformando conectividade em serviços de análise de dados e inteligência artificial. A TIM adquiriu a V8tech para integrar dados de máquinas em dashboards estratégicos, otimizando decisões em tempo real.
Da mesma forma, a Arqia atua como “boutique de telecom”, oferecendo conectividade, software customizado e gestão de frotas, atendendo clientes sem capacidade própria de desenvolvimento tecnológico. O objetivo é migrar o negócio de telecomunicações para a monetização de dados e soluções inteligentes.
Desafios regulatórios e competitividade
O avanço da IoT no Brasil enfrenta desafios regulatórios e de infraestrutura. Empresas de energia, como a Copel, pleiteiam frequências dedicadas para redes privadas, enquanto operadoras defendem contratos padronizados. A harmonização desses interesses é fundamental para viabilizar a expansão de IoT e a integração de tecnologias críticas na economia.
Especialistas apontam que a consolidação da IoT no país exigirá investimento em redes, aprendizado regulatório e parcerias estratégicas entre telecom, indústria, agronegócio e setor energético. O potencial é enorme: redução de custos, eficiência logística, agricultura de precisão e modernização industrial.
Impacto econômico e produtividade
A expansão da Internet das Coisas (IoT) no Brasil é uma das frentes mais promissoras para aumento de produtividade. A conectividade de máquinas e sensores permite decisões mais rápidas, redução de desperdícios e otimização de processos.
No agronegócio, por exemplo, o uso de robôs autônomos, drones e sensores inteligentes reduz custos com defensivos e aumenta a eficiência do plantio. Na indústria e no setor elétrico, IoT garante monitoramento em tempo real, redução de perdas e manutenção preventiva.
Essa transformação digital cria um ecossistema em que dados se tornam ativos estratégicos, e operadoras, fabricantes e empresas de energia competem para oferecer soluções integradas e inteligentes.





