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Juros do cartão sobem, crédito perde ritmo e aperto no orçamento das famílias se intensifica no Brasil

por Camila Braga - Repórter de Economia
31/03/2026
em Economia, Destaque, News
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Juros do cartão sobem, crédito perde ritmo e aperto no orçamento das famílias se intensifica no Brasil

Os juros do cartão voltaram a pressionar o orçamento das famílias brasileiras e reforçaram um cenário de crédito mais caro, mais seletivo e menos vigoroso em fevereiro. Dados divulgados pelo Banco Central nesta segunda-feira, 30 de março de 2026, mostram que a taxa média de juros do crédito livre para pessoas físicas chegou a 62,0% ao ano, com destaque para a forte elevação do cartão de crédito rotativo, uma das linhas mais onerosas do sistema financeiro. Ao mesmo tempo, o saldo total das operações de crédito continuou crescendo, mas em ritmo menor, enquanto a inadimplência e o comprometimento de renda permaneceram em patamar elevado.

O avanço dos juros do cartão se tornou o dado mais sensível do relatório porque atinge diretamente uma modalidade usada por milhões de consumidores em momentos de aperto de caixa. No rotativo, acionado quando o cliente não quita integralmente a fatura, o Banco Central registrou aumento de 11,4 pontos percentuais na taxa média em fevereiro. Em termos práticos, isso significa que o custo de carregar dívida no cartão ficou ainda mais pesado justamente em um momento em que muitas famílias seguem recorrendo ao crédito para sustentar consumo e fechar o mês.

O retrato mais amplo mostra que os juros do cartão não sobem isoladamente. Eles aparecem em um ambiente em que o crédito total do Sistema Financeiro Nacional alcançou R$ 7,1 trilhões em fevereiro, com alta mensal de 0,4% e expansão de 9,6% em 12 meses, abaixo do ritmo observado até janeiro. As concessões nominais somaram R$ 602,3 bilhões, mas, com ajuste sazonal, as novas contratações recuaram 0,5% no mês, sinalizando perda de fôlego da demanda.

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Para as famílias, o impacto é duplo. De um lado, os juros do cartão e de outras linhas livres ficam mais altos. De outro, a necessidade de tomar crédito segue relevante, mesmo com custo maior. O resultado é uma equação difícil: mais endividamento, mais comprometimento da renda e maior risco de atraso. Em fevereiro, a inadimplência da carteira total de crédito do SFN subiu para 4,3%; entre pessoas físicas, o índice foi a 5,2%. Já o endividamento das famílias ficou em 49,7% da renda anual, enquanto o comprometimento mensal da renda atingiu 29,3%.

O dado mais eloquente talvez seja justamente esse: com os juros do cartão em alta e o crédito ainda sendo usado para manter o consumo, quase R$ 29 de cada R$ 100 da renda mensal das famílias já estão comprometidos com dívidas. O número ajuda a explicar por que a elevação do custo do crédito deixou de ser um tema restrito ao sistema financeiro e passou a ter efeito direto sobre o cotidiano doméstico, o varejo, o consumo e a capacidade de pagamento de milhões de brasileiros. Essa última leitura é uma inferência a partir dos indicadores oficiais do Banco Central.

Juros do cartão puxam alta do crédito livre às famílias

O principal sinal de alerta do relatório está no comportamento dos juros do cartão dentro do crédito livre às famílias. O Banco Central informou que a taxa média de juros para pessoas físicas nesse segmento chegou a 62,0% ao ano em fevereiro, avanço de 1,0 ponto percentual no mês e de 5,4 pontos em 12 meses. Entre as modalidades, a maior pressão veio justamente do cartão de crédito rotativo, cuja taxa média subiu 11,4 pontos percentuais.

Quando os juros do cartão sobem com essa intensidade, o efeito tende a ser rápido sobre o orçamento das famílias mais fragilizadas. O rotativo não costuma ser uma escolha planejada de financiamento. Em geral, ele é acionado quando o consumidor não consegue quitar a fatura integral e acaba empurrando parte da dívida para frente. Como essa linha já parte de um custo muito elevado, qualquer nova alta aprofunda a dificuldade de sair do endividamento. Essa explicação sobre a dinâmica do rotativo é uma inferência econômica compatível com a forma de funcionamento da modalidade descrita pelo próprio mercado e pelo BC.

No caso dos juros do cartão, o problema é agravado porque o crédito rotativo costuma atingir justamente consumidores com menor margem de manobra financeira. Quem entra nessa linha geralmente já está operando com fluxo de caixa apertado. Com a taxa média mais alta, o valor da dívida cresce mais rápido, e a travessia até a quitação se torna mais longa e custosa.

Rotativo se torna ainda mais perigoso em cenário de renda comprimida

A alta dos juros do cartão no rotativo ganha peso adicional porque ocorre em um ambiente em que a renda das famílias segue pressionada por despesas correntes e por um comprometimento elevado com dívidas já contratadas. O Banco Central mostrou que o comprometimento mensal da renda alcançou 29,3% em janeiro, último dado disponível para esse indicador, enquanto o endividamento chegou a 49,7% da renda anual.

Na prática, isso significa que a escalada dos juros do cartão atinge um público que já entra no mês com parte relevante da renda comprometida. Quando a fatura não cabe no orçamento e o rotativo é acionado, a dívida deixa de ser apenas uma despesa pontual e passa a competir com alimentação, aluguel, contas básicas e outras obrigações fixas. É assim que o cartão, em vez de servir como instrumento de conveniência, se transforma em vetor de aperto financeiro.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que os juros do cartão se tornaram um indicador tão sensível do crédito às famílias. Diferentemente de linhas como financiamento imobiliário ou consignado, o rotativo tende a capturar situações de estresse imediato no consumo. Quando ele sobe, o problema aparece quase instantaneamente no bolso do consumidor.

Crédito ainda cresce, mas perde velocidade no sistema financeiro

Embora o foco imediato esteja nos juros do cartão, o relatório do Banco Central mostra que a desaceleração é mais ampla. O estoque total das operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional alcançou R$ 7,1 trilhões em fevereiro, com avanço de 0,4% no mês. Em 12 meses, a expansão ficou em 9,6%, abaixo dos 10,1% registrados até janeiro.

Esse dado indica que, mesmo com os juros do cartão e de outras linhas mais altos, o crédito não parou de crescer. Mas o ritmo está menor. O movimento é relevante porque sugere maior cautela na demanda e possivelmente também na oferta. Em mercados de crédito, desaceleração do crescimento costuma refletir justamente esse encontro entre custo maior, seletividade dos bancos e menor capacidade de absorção do crédito por parte de famílias e empresas. Essa interpretação é uma inferência econômica a partir dos números do BC.

No caso das famílias, o saldo de crédito subiu 0,6% no mês e 11,2% em um ano. O crescimento segue acima do observado para empresas, o que mostra que o consumo das pessoas físicas continua sendo o principal motor da expansão da carteira. Mas o avanço já não ocorre com a mesma folga de antes, e os juros do cartão mais altos ajudam a explicar por que esse motor começa a mostrar desgaste.

Famílias seguem recorrendo ao crédito para sustentar consumo

Mesmo com os juros do cartão em alta, o crédito às famílias continua crescendo em ritmo relativamente forte. Isso sugere que o consumidor segue usando empréstimos e financiamentos para manter o consumo, suavizar choques no orçamento e administrar despesas correntes. Em fevereiro, o saldo do crédito às famílias chegou a R$ 4,5 trilhões, enquanto o crédito livre para pessoas físicas alcançou R$ 2,5 trilhões, com alta de 0,3% no mês e de 12,6% em 12 meses.

Essa persistência da demanda, apesar dos juros do cartão e de outras taxas elevadas, revela um cenário ambíguo. Por um lado, o sistema financeiro continua ofertando crédito, e as famílias ainda conseguem acessar recursos. Por outro, esse acesso ocorre em condições mais caras, o que tende a prolongar o aperto financeiro no futuro.

A presença dos juros do cartão como componente central dessa equação é particularmente importante porque o cartão costuma funcionar como porta de entrada para o endividamento de curto prazo. Diferentemente de uma decisão planejada de longo prazo, o rotativo frequentemente aparece como resposta emergencial a uma restrição de caixa.

Concessões recuam e mostram demanda menos vigorosa

O relatório também mostra que o fluxo de novos empréstimos perdeu intensidade. As concessões nominais somaram R$ 602,3 bilhões em fevereiro, mas, com ajuste sazonal, houve recuo de 0,5% no mês. A queda veio principalmente das operações com pessoas jurídicas, que recuaram 1,9%, enquanto as operações com pessoas físicas avançaram apenas 0,3%.

Esse enfraquecimento ajuda a contextualizar a alta dos juros do cartão dentro de um quadro mais amplo de crédito menos dinâmico. Quando as concessões começam a perder força, o mercado costuma interpretar o movimento como sinal de menor tração da economia, de maior custo financeiro ou de maior cautela tanto de tomadores quanto de instituições financeiras.

No caso das famílias, o fato de as concessões ainda avançarem marginalmente, mesmo com os juros do cartão em alta, sugere que a necessidade de crédito permanece. Mas o ritmo já não é o mesmo de um ambiente mais benigno, o que reforça a ideia de que o consumo financiado começa a encontrar limites mais claros.

Inadimplência sobe e reforça o quadro de aperto

A deterioração da capacidade de pagamento aparece nos dados de inadimplência. Em fevereiro, a carteira total de crédito do SFN registrou atraso acima de 90 dias em 4,3% das operações, alta de 0,2 ponto percentual no mês. Entre pessoas físicas, a inadimplência subiu para 5,2%; entre pessoas jurídicas, foi a 2,6%. No crédito livre, o índice chegou a 5,5%.

A relação entre inadimplência e juros do cartão é direta. Quanto maior o custo das linhas mais utilizadas em situações de aperto, maior a probabilidade de atraso, refinanciamento e renegociação. O cartão rotativo tem papel central nessa dinâmica porque carrega custo muito alto e pode acelerar a deterioração financeira de famílias que já vinham pressionadas. Essa relação causal é uma inferência econômica sustentada pelos dados de alta de juros e de inadimplência divulgados pelo BC.

O aumento da inadimplência reforça, portanto, que os juros do cartão não são apenas um dado financeiro abstrato. Eles têm efeito concreto sobre a saúde do crédito e sobre a estabilidade do orçamento doméstico. Quando mais operações entram em atraso, o sistema responde com maior seletividade, o que retroalimenta o aperto.

Peso das dívidas no orçamento continua elevado

Um dos indicadores mais preocupantes do relatório é o comprometimento da renda. O Banco Central informou que ele chegou a 29,3%, enquanto o endividamento das famílias ficou em 49,7% da renda anual. Esses números mostram que o problema não está restrito à contratação de novas dívidas. Ele já está incorporado à estrutura mensal do orçamento.

Nesse contexto, os juros do cartão funcionam como elemento agravante. Se quase um terço da renda já está comprometido com parcelas de empréstimos e financiamentos, qualquer aumento do custo de linhas de curto prazo tende a reduzir ainda mais a margem disponível para despesas correntes. É esse tipo de compressão que ajuda a explicar a sensação difusa de aperto no consumo das famílias.

Em termos práticos, a alta dos juros do cartão significa que um instrumento largamente usado para organizar gastos de curto prazo passa a gerar desequilíbrio adicional. A fatura que não fecha em um mês vira encargo mais pesado no mês seguinte, e o espaço para reorganizar o orçamento fica menor.

Crédito ampliado mostra escala da dependência financeira na economia

O relatório do Banco Central também traz uma fotografia mais abrangente do financiamento na economia. O crédito ampliado ao setor não financeiro alcançou R$ 21,0 trilhões em fevereiro, equivalente a 163,7% do PIB, com alta mensal de 1,1% e avanço de 11,8% em 12 meses.

Esse indicador ajuda a colocar os juros do cartão em perspectiva. Embora o rotativo seja apenas uma fração do sistema, ele se insere em uma economia altamente dependente de crédito e financiamento para manter consumo, investimento e rolagem de obrigações. Quando o custo das linhas mais populares sobe, o efeito se propaga com rapidez.

A alta dos juros do cartão, nesse sentido, dialoga com um quadro macro mais amplo: crédito ainda abundante em termos de estoque, mas mais caro, mais seletivo e menos confortável para famílias e empresas. É essa combinação que torna o dado do BC tão relevante para o debate econômico atual.

Bancos seguem emprestando, mas ambiente ficou mais duro para o consumidor

Mesmo com a elevação dos juros do cartão e com a perda de ritmo nas concessões, o sistema bancário ainda liberou mais de R$ 600 bilhões em novos empréstimos no mês. Isso mostra que o crédito segue disponível. O problema não é ausência total de financiamento, mas o custo e a qualidade desse acesso para o tomador final.

Para o consumidor, especialmente o de menor renda, a escalada dos juros do cartão muda o sentido desse acesso. O crédito deixa de ser ferramenta de organização e passa a ser fonte de pressão. Em vez de suavizar a renda ao longo do mês, ele amplia a carga financeira futura.

Essa é a essência do aperto atual: os juros do cartão sobem em um momento em que as famílias ainda precisam de crédito, mas já têm renda comprometida e inadimplência maior. O resultado é um ambiente em que o consumo se sustenta com mais dificuldade e o custo de carregar dívida se torna mais pesado.

Cartão mais caro ajuda a explicar a piora no bolso das famílias

No fim das contas, a alta dos juros do cartão sintetiza um problema maior da economia doméstica brasileira neste início de 2026. O crédito continua a crescer, mas em velocidade menor. As famílias ainda tomam recursos, porém em um ambiente mais oneroso. A inadimplência sobe, e a renda disponível segue comprimida por dívidas acumuladas.

O dado mais importante do relatório do Banco Central é justamente esse encadeamento. Os juros do cartão sobem, o rotativo fica mais caro, o crédito perde ritmo, e a vida financeira das famílias se torna mais apertada. Não se trata apenas de uma mudança estatística. É uma alteração concreta nas condições de financiamento que afeta consumo, capacidade de pagamento e bem-estar financeiro de milhões de pessoas. Essa síntese decorre dos números oficiais do BC e de sua leitura econômica integrada.

A fotografia de fevereiro, portanto, reforça a centralidade do cartão de crédito no cotidiano financeiro do país — e o risco que emerge quando essa modalidade se torna ainda mais onerosa. Com os juros do cartão em alta, o sistema de crédito continua funcionando, mas o custo de permanecer dentro dele ficou mais pesado para quem já vinha lidando com orçamento no limite.

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