Lei Magnitsky: Como a Sanção dos EUA a Moraes Pode Reeleger Lula e Reconfigurar o Cenário Político Brasileiro
A inclusão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), na lista de sancionados pela Lei Magnitsky nos Estados Unidos gerou um abalo sísmico na política brasileira e acendeu debates intensos tanto no cenário nacional quanto internacional. As repercussões dessa decisão vão muito além da diplomacia: abrem espaço para novas articulações políticas, reacendem embates ideológicos e, segundo muitos analistas, podem até impulsionar a reeleição de Lula em 2026.
O que é a Lei Magnitsky?
A Lei Magnitsky foi criada nos Estados Unidos em 2012 e tem como principal objetivo aplicar sanções contra estrangeiros acusados de corrupção ou violações de direitos humanos. Inicialmente voltada para autoridades russas, a legislação foi expandida com a chamada Global Magnitsky Act, que permite penalizações a qualquer indivíduo ou entidade em qualquer parte do mundo.
As sanções previstas incluem congelamento de bens, restrições financeiras e proibição de entrada nos Estados Unidos. Mais do que punições econômicas, a lei serve como instrumento simbólico de defesa dos direitos humanos e das liberdades democráticas globais.
Por que Alexandre de Moraes foi incluído?
A sanção ao ministro Alexandre de Moraes pelo governo dos Estados Unidos foi baseada em acusações de abuso de poder, censura e violações aos direitos fundamentais. O Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos EUA (OFAC) afirmou que Moraes teria se envolvido em práticas autoritárias, como censura à liberdade de expressão, detenções arbitrárias e processos com conotação política — incluindo os que envolvem o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Essa decisão gerou uma crise diplomática e uma forte reação tanto da esquerda quanto da direita no Brasil, evidenciando a profundidade dos conflitos ideológicos no país.
Reações da direita brasileira
Entre os primeiros a se manifestarem, esteve Joice Hasselmann, ex-deputada federal e ex-aliada de Bolsonaro. A jornalista e política declarou que, ao sancionar Moraes, os Estados Unidos teriam, na prática, “reeleito Lula. A frase repercutiu de forma viral nas redes sociais.
Joice, que já foi um dos rostos mais visíveis da direita bolsonarista, rompeu com o ex-presidente em 2019 e passou a criticar abertamente seus métodos. Segundo ela, a sanção contra Moraes não fortalece a direita, mas enfraquece o próprio discurso bolsonarista ao associar o movimento a práticas ilegais ou violentas.
Além disso, Hasselmann acusou a família Bolsonaro de induzir o governo americano ao erro, classificando-os como “milicianos” — em uma crítica severa à atuação internacional dos apoiadores do ex-presidente.
O caso Carla Zambelli: mais combustível no debate
Outro episódio que reacendeu a polarização foi a prisão da deputada Carla Zambelli, também ex-aliada de Bolsonaro, na Itália. Condenada a 10 anos de prisão por envolvimento na invasão de sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Zambelli estava foragida desde junho e foi detida em Roma no fim de julho.
Joice Hasselmann também se manifestou sobre o caso com sarcasmo, afirmando que Zambelli “enfim vai pagar pelos crimes que cometeu”. Esse tipo de posicionamento evidencia a fragmentação interna na direita brasileira, com antigas aliadas do bolsonarismo agora se tornando suas maiores críticas públicas.
Como isso pode fortalecer Lula?
A leitura feita por parte do eleitorado e de analistas políticos é clara: ao sancionar um ministro brasileiro por “violar liberdades”, os EUA — liderados por Joe Biden — acabaram fortalecendo o discurso do governo Lula, que se apresenta como defensor da democracia, das instituições e da soberania nacional.
Muitos brasileiros interpretam a decisão como uma ingerência externa em assuntos internos do país, o que pode gerar uma onda de nacionalismo em favor de figuras como Lula, que têm histórico de confrontar interesses norte-americanos. A retórica antiimperialista, tão conhecida nos discursos petistas, ganha força em um momento no qual os EUA parecem interferir diretamente nas estruturas do Judiciário brasileiro.
Além disso, a movimentação americana pode desestabilizar ainda mais a direita, que já se encontra fragmentada e sem uma liderança clara desde a inelegibilidade de Bolsonaro.
Os riscos para os EUA
A aplicação da Lei Magnitsky sobre uma autoridade da mais alta corte do Brasil, sem consulta formal ao governo brasileiro, pode se tornar um tiro no pé para a diplomacia norte-americana. Ao alimentar a narrativa de interferência estrangeira, os Estados Unidos correm o risco de afastar não apenas o governo Lula, mas também setores moderados da sociedade brasileira que valorizam a soberania nacional.
Para o eleitorado brasileiro, a percepção de que uma superpotência está tentando influenciar os rumos políticos internos pode ser suficiente para mobilizar votos em defesa da independência nacional — algo que, curiosamente, pode até unir petistas e antipetistas em uma frente comum contra os EUA.
O que está em jogo na eleição de 2026
A inclusão de Alexandre de Moraes na lista da Lei Magnitsky não é apenas um gesto simbólico; é um movimento geopolítico com consequências eleitorais tangíveis. Ao colocar um dos maiores desafetos do bolsonarismo no centro de uma disputa internacional, os EUA reacenderam a polarização política no Brasil.
No entanto, como aponta Joice Hasselmann, essa polarização pode ter um efeito colateral inesperado: a reeleição de Lula. O presidente, que busca consolidar sua imagem como defensor da democracia e do Estado de Direito, pode usar o episódio para reforçar sua base de apoio e conquistar novos eleitores indecisos.
Se o eleitor brasileiro perceber que figuras como Moraes estão sendo atacadas por defenderem a Constituição, enquanto ex-aliados de Bolsonaro se envolvem em escândalos e fugas internacionais, a balança pode pender ainda mais para o lado do atual governo.
A aplicação da Lei Magnitsky a Alexandre de Moraes não é apenas uma sanção diplomática. É um acontecimento de alto impacto político que pode reconfigurar a corrida presidencial de 2026 e redefinir as alianças entre Brasil e Estados Unidos.
Enquanto a direita se fragmenta, entre críticas e escândalos, a esquerda — especialmente Lula — pode sair fortalecida, convertendo a sanção americana em narrativa de soberania nacional e resistência democrática.
A frase “Trump acaba de reeleger Lula” pode soar exagerada, mas expressa um sentimento real: o de que, em tempos de polarização extrema, até ações internacionais podem ter efeitos diretos no voto do cidadão brasileiro.






