Moeda local no comércio entre países do Brics avança apesar de ameaças dos EUA
Lula defende desdolarização do comércio internacional e reforça integração entre membros do bloco
O avanço do uso de moeda local no comércio entre países do Brics ganhou novos contornos após a Cúpula de Líderes do bloco realizada neste mês. Em meio a ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aplicar tarifas de 10% a países que se alinhem ao Brics, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu abertamente a transição gradual do dólar para moedas locais nas trocas comerciais. Segundo Lula, trata-se de um “caminho sem volta” que reflete um novo paradigma na geopolítica econômica mundial.
A proposta de desdolarização vem sendo discutida com intensidade entre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — países que integram o Brics — e agora conta também com a adesão de outros parceiros estratégicos como o México, que demonstrou apoio à rejeição das tarifas anunciadas por Trump.
Por que o uso de moeda local no comércio entre países do Brics é estratégico?
A crescente utilização de moeda local no comércio entre países do Brics visa a reduzir a dependência do dólar nas transações internacionais. Esse movimento representa um esforço coordenado para fortalecer as economias emergentes, mitigando riscos relacionados à flutuação cambial, sanções unilaterais e instabilidade da política monetária dos EUA.
O dólar, por décadas, atuou como a principal referência nas relações comerciais internacionais. No entanto, o monopólio cambial norte-americano tem sido cada vez mais contestado por nações que buscam maior autonomia sobre suas políticas econômicas. Para o Brics, adotar moedas locais nas trocas comerciais é um passo rumo à soberania financeira e à consolidação de uma nova ordem econômica multipolar.
Além disso, a utilização de moedas nacionais facilita acordos bilaterais e regionais mais equilibrados, estimula a liquidez local e reduz custos de conversão, o que é especialmente benéfico para países com economias em desenvolvimento.
Lula reforça compromisso com comércio em moeda local
Durante coletiva de imprensa após a cúpula, Lula minimizou os efeitos das ameaças de Trump e reafirmou que a substituição gradual do dólar nas relações comerciais entre os países do Brics é uma tendência irreversível. Ele citou acordos já firmados entre Brasil e Argentina, ainda em 2004, como exemplo prático de que transações em moeda local são possíveis e vantajosas.
Lula também mencionou que essa abordagem pode ser aplicada em acordos com parceiros como China, Índia e União Europeia, desde que haja diálogo técnico entre os bancos centrais. A ideia é que cada país possa usar sua própria moeda quando negociar com membros do bloco, reduzindo a necessidade de recorrer ao dólar como intermediário.
Segundo o presidente brasileiro, trata-se de uma mudança progressiva que exige cuidado, mas que está em consonância com os interesses estratégicos do Brics e de outros países emergentes.
Trump tenta conter avanço do Brics com novas tarifas
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reagiu à crescente cooperação entre os países do Brics com uma proposta de taxar em 10% os produtos provenientes de nações que “se alinhem” ao bloco. A medida, anunciada como resposta ao fortalecimento geopolítico do grupo, foi amplamente criticada internacionalmente.
Líderes políticos e analistas veem a proposta como uma tentativa de conter o avanço da desdolarização e do uso de moeda local no comércio entre países do Brics. Segundo especialistas, a dependência do dólar tem permitido aos EUA impor sanções econômicas a seus rivais e manter influência sobre a economia global.
Contudo, o movimento atual do Brics indica que os países estão dispostos a enfrentar esse monopólio cambial, criando mecanismos alternativos de troca e sistemas de compensação que bypassam o dólar.
México reforça aliança com o Brics e rejeita tarifa de Trump
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, manifestou publicamente apoio à posição do Brics contra as tarifas anunciadas por Trump. Em entrevista à imprensa, Sheinbaum defendeu que as relações internacionais devem se basear em cooperação e desenvolvimento mútuo, e não em coerção econômica.
O México, que participou da Cúpula do Brics como observador, demonstrou interesse em integrar os mecanismos comerciais do bloco. A presença do ministro das Relações Exteriores mexicano no Rio de Janeiro para a cúpula reforça essa aproximação diplomática.
Além disso, o governo mexicano anunciou a prorrogação do processo tarifário com os EUA, indicando que deseja manter um canal de diálogo aberto, mas sem abrir mão da soberania comercial e do direito de buscar alternativas para o comércio internacional.
Cresce a articulação global por moedas locais no comércio exterior
O avanço da proposta de uso de moeda local no comércio entre países do Brics não é isolado. Diversos blocos econômicos e países estão buscando formas de reduzir a dependência cambial dos EUA. Nações como Rússia, China e Índia já realizam parte significativa de suas trocas em moedas próprias, e os bancos centrais desses países vêm intensificando suas cooperações para garantir fluidez nas operações.
No caso do Brics, há discussões para a criação de uma unidade de conta comum, similar ao que já acontece na União Europeia, com o euro. Embora não haja ainda uma moeda única do bloco, o uso de moedas locais nos acordos bilaterais é considerado um primeiro passo estratégico nesse sentido.
O papel dos bancos centrais será fundamental nesse processo, tanto para alinhar políticas cambiais quanto para criar sistemas de pagamento que facilitem a compensação financeira entre os países envolvidos.
Impactos esperados no cenário internacional
A adoção de moeda local no comércio entre países do Brics poderá gerar uma série de impactos na geopolítica e na economia global:
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Redução do poder cambial dos EUA: ao limitar o uso do dólar, os países emergentes ganham mais autonomia.
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Estímulo à criação de novas moedas de referência: como o yuan e a rupia, que já são utilizadas em acordos bilaterais.
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Pressão para reformar instituições financeiras internacionais: como o FMI e o Banco Mundial, historicamente dominados pelos EUA.
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Fortalecimento do Sul Global: com novas alianças comerciais e monetárias, os países em desenvolvimento ampliam seu poder de negociação.
Desafios e perspectivas para o futuro
Apesar do otimismo, a implementação plena do uso de moeda local no comércio entre países do Brics enfrenta desafios estruturais. É necessário fortalecer os sistemas financeiros nacionais, garantir reservas cambiais suficientes e alinhar políticas monetárias entre os países membros.
Além disso, haverá resistência de setores que ainda dependem fortemente do dólar, especialmente em contratos de commodities e financiamentos internacionais.
Entretanto, os avanços recentes mostram que o Brics está determinado a consolidar uma nova dinâmica comercial, mais descentralizada e inclusiva. A coordenação entre os bancos centrais, a criação de mecanismos de swap cambial e o estímulo a moedas digitais soberanas fazem parte desse processo de transição.
A proposta de adoção de moeda local no comércio entre países do Brics representa um passo importante na construção de uma ordem econômica mais equilibrada e menos sujeita a imposições unilaterais. Com o apoio de líderes como Lula e Sheinbaum, e com o avanço técnico das instituições financeiras dos países membros, o bloco mostra que está preparado para enfrentar os desafios da desdolarização.
Apesar das ameaças de retaliação por parte dos Estados Unidos, os países do Brics seguem firmes na busca por autonomia financeira e comercial, reforçando a cooperação Sul-Sul e construindo um novo capítulo nas relações econômicas internacionais.






